Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão, veio "segundo a carne" do povo de Israel (Rm 9,5) e transmitiu à sua comunidade, a Igreja, as crenças e as tradições religiosas de seu povo. Por isso, Judaísmo e Igreja têm uma herança espiritual comum.
A figura de Jesus tem sido, infelizmente, um empecilho no relacionamento entre cristãos e judeus, uma justificativa para exclusão mútua, uma fonte de atrito e ressentimento. É de fundamental importância para o diálogo cató1ico-judaico que Jesus seja reconhecido como um elo essencial entre os dois credos.
Jesus era judeu, nascido de mãe judia. Mais ainda, ele se considerava um judeu fiel às suas origens. Seus ensinamentos derivam das leis e das tradições judaicas com as quais ele se criou, e que ele jamais negou. Jesus era chamado de "Rabino" e freqüentava o Templo de Jerusalém, junto com seus discípulos.
A grande maioria dos católicos não tem consciência destes fatos, pois as divergências posteriores entre Igreja e Sinagoga resultaram num processo de obliteração das origens judaicas do cristianismo.
A imagem negativa dos fariseus encontrada em muitos textos cristãos produziu entre os católicos uma visão gravemente distorcida do judaísmo. O debate de Jesus com os fariseus é um sinal de que ele os levava a sério. A eles Jesus dirigiu suas críticas contra o "establishment" religioso. Foi com eles que Jesus aprendeu a "regra de ouro", e deles vem a crença na ressurreição.
Portanto, os conflitos e controvérsias relatados no Novo Testamento devem ser vistos como discussões entre irmãos, e não como disputas entre inimigos. Ao serem mal interpretadas, as críticas de Jesus aos fariseus tornaram-se armas nas polêmicas antijudaicas, e sua intenção original foi deturpada.
A Igreja de Cristo está enraizada na vida e no pensamento do Povo de Israel. Ela se sustenta nos ensinamentos judaicos dos patriarcas e profetas, reis e sacerdotes, escribas e rabinos. Jesus é o elo através do qual toda a cristandade passa a ser incluída como descendente de Abraão, e portanto co-herdeira, juntamente com os judeus, do seu grandioso legado espiritual.
O problema da crucificação sempre foi um dos assuntos mais explorados em argumentação contra os judeus. Trechos do evangelho foram sempre citados, para reforçar uma acusação que hoje em dia é reconhecida como inválida e falsa.
Tentou-se durante os séculos usar o Novo Testamento, e especialmente os evangelhos, para encontrar frases avulsas, nas quais se baseou o mito do "deicídio".
Vejamos aqui alguns pontos importantes que derrubam este conceito antijudaico, que durante séculos serviu para acusar os judeus.
Os argumentos válidos, baseados numa objetiva análise de textos evangélicos, de que os judeus não mataram Jesus, são em resumo os seguintes:
l) não se pode afirmar que os judeus tenham crucificado Jesus, porque tal gênero de morte não é previsto por nenhuma lei judaica antiga; doutro lado, os evangelhos especificam claramente que foram os romanos que procederam à execução;
2) não é verdade que os judeus pediram a crucificação, isto é, não foi a totalidade, nem a maior parte (os evangelhos dizem o contrário); foi uma população subornada pelos magistrados; enfim, uma pequena fração em relação ao número de peregrinos da Palestina e da Diáspora; não era, pois, um grupo qualificado para exprimir os sentimentos e a vontade da população; mais ainda: os discípulos de Emaús atribuem expressamente aos chefes religiosos a responsabilidade dessa morte;
3) pelo contrário, a quase unanimidade da população acolheu e saudou Jesus em triunfo quando da sua entrada em Jerusalém; à morte do Senhor, diz Lucas que "multa turba populi et mulierum" estava com Jesus e batia no peito; o mesmo observa o evangelista por ocasião da crucificação. Note-se, ao invés, que os discípulos estavam longe;
4) "Jesus foi morto aos gritos do povo judaico!" Repete-se desde há muitos séculos. Basta consultar os textos evangélicos, para se constatar a instabilidade da afirmação;
5) analisemos a expressão "seus inimigos, os judeus". Ora, os inimigos só poderiam ser judeus, pois Jesus também o era segundo a carne, nascido na Judéia, onde vivia e pregava. Deve-se dizer, a rigor: "seus inimigos, os fariseus e alguns judeus". De Lincoln também se deve dizer: "seus inimigos, os escravistas", e não: "seus inimigos, os americanos" . "Os judeus", é expressão característica do IV Evangelho: indica especialmente os que se opunham a Jesus. Quando foi composto o Evangelho de são João, já estavam bem definidas e separadas a Sinagoga e a Igreja, e o vocábulo judeu, menos que designação étnica, indica valor teológico com uma base histórica: Jo 2,18-20; 5,16-18; 6,41; 7,1-11; 9,22; 10,24-33; 11,8; etc. O IV Evangelho usa cerca de 70 vezes a designação "os judeus".
6) É notável que são Paulo, comentador eloqüente da Paixão, não acuse seus compatriotas. Por caridade? Então, por que não lhe seguir o exemplo? Por verdade? Por que não aceitar o que diz? Para ele, os judeus são povo eleito ainda, mesmo depois da morte de Jesus; não rejeitou seu povo.
Jesus lê e explica as Escrituras, a Lei de Moisés, os Profetas e os Salmos (Lc 4,16; 24,44)
Judeus e cristãos têm em comum o TaNaK (Torá – Nebiím – Ketubim), parte da Bíblia comumente chamada de Antigo Testamento. Seu valor é próprio e perpétuo e contém a Revelação do Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó que é o Deus de Jesus Cristo, dos Apóstolos e da Igreja.
A Igreja primitiva só tinha esta Escritura Sagrada. O Novo Testamento veio em seguida. Por isso, o Antigo Testamento não pode ser considerado em oposição ao Novo Testamento.
A Bíblia toda é Revelação que convida ao Amor a Deus e ao próximo.
"Ouve ó Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor" (Dt 6,4; Mc 12,29)
A proclamação da unicidade de Deus é a fé originária de Israel. Jesus, em seus diálogos teológicos no evangelho, a indica como o primeiro de todos os mandamentos. O povo judeu vive desta verdade, a testemunha e a proclama todo dia com a sua existência.
"No princípio Deus criou os céus e a terra" (Gn 1,1)
O Deus único também é o Criador de todas as coisas. É um Deus Pai que provê às necessidades de seus filhos. Jesus fala do Pai celeste que veste a erva do campo e sabe do que necessitamos (Mt 6,30s). Esta fé que distingue entre Criador e criatura proibindo toda divinização do mundo, dos seres viventes e das pessoas, liberta o homem da inquietude e do medo e estimula para uma fraternidade universal no respeito recíproco.
"Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher" (Gn 1,27)
Segundo o ensinamento judaico, quem fere o homem diminui a imagem de Deus. A dignidade humana, proclamada por Jesus e pela Igreja, é baseada nas primeiras páginas das Escrituras de Israel: o homem é imagem de Deus. Consequentemente, Jesus proclama o segundo maior mandamento citando Levítico 19,18: "Amarás a teu próximo como a ti mesmo" (Mc 12,31).
A Aliança entre Deus e o homem
A Aliança é a categoria fundamental do povo de Israel para mostrar a sua ligação com Deus. É derivada das palavras divinas: "Tu és o meu povo, Eu serei teu Deus". A Aliança é graça e dever. Os profetas sempre convidaram a não quebrar a Aliança e a renová-la. A salvação apresenta-se como uma Aliança por meio da qual Deus entra numa relação definitiva com seu povo e com toda a humanidade. Nesta linha, Jesus fala da sua morte como sinal de uma nova Aliança. O seu sangue é "o sangue da Aliança que é derramado por muitos" (Mc 14,24).
A prática dos mandamentos
O que preocupa Israel é uma vida vivida segundo os mandamentos de Deus. São os mandamentos que regulam o dia-a-dia do judeu frente a Deus. A prática dos mandamentos é o ato pelo qual o judeu coopera com Deus na construção do mundo.
Jesus confirma o valor dos mandamentos e deixa a sua interpretação da Lei de Moisés. Judeus e cristãos aceitam a centralidade dos "Dez Mandamentos" que estabelecem as normas para a consciência de todos os homens.
A esperança messiânica
Típica da fé de Israel, a esperança messiânica está presente em todos os momentos da experiência religiosa do judaísmo. Os profetas anunciavam de vários modos os tempos messiânicos e a vinda do Messias que os cristãos vêem realizada em Jesus de Nazaré.
Judeus e cristãos continuam unidos no esforço de concretização da plenitude dos tempos messiânicos, ambos esperando, cada um a seu modo, a realização das promessas divinas.
A oração
O judaísmo reza, suplica e louva a Deus. É no interior da tradição judaica que Jesus aprende a rezar. Sua oração como conteúdo e como prática é judia. Bíblia e Sidur (= livro de oração comunitária) contêm o tesouro da oração do judaísmo compartilhado pela Igreja no uso dos Salmos e das bênçãos. O conteúdo do "Pai-nosso" expressa os pedidos constantemente presentes nas orações judaicas: a santificação do Nome divino, o pão de cada dia, a vinda do Reino messiânico, o cumprimento da vontade de Deus, o perdão dos pecados, a proteção de Deus nas tentações. Totalmente enraizados na tradição judaica são também os dois mais famosos cânticos do Novo Testamento: o Benedictus e o Magnificat.
Frente ao Deus vivo, judeus e cristãos assumem a mesma postura: procuram o retorno a Deus, obedecem â Palavra revelada, vivem no respeito, no amor e no louvor a Deus.
"Estando próxima a Páscoa dos judeus, Jesus subiu a Jerusalém" (Jo 2,13)
Ao patrimônio religioso de Israel pertencem todos os acontecimentos por meio dos quais a obra salvífica de Deus se tomou história sagrada. Estes acontecimentos, ligados entre si, constituem a proclamação e a celebração da história do relacionamento de Deus com Israel e a humanidade, dando origem às festas anuais do judaísmo, às manifestações religiosas cotidianas e às celebrações das etapas principais da vida de um judeu. Os evangelistas nos apresentam a vida de Jesus marcada por esta vivência religiosa: "Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino foi-lhe dado o nome de Jesus" (Lc 2,21); "Jesus entrou na sinagoga em dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler" (Lc 4,l6).
Assim, com seu nome judeu, circunciso, observante do dia do sábado e das festas de Israel, assíduo leitor das Sagradas Escrituras, Jesus nos convida a conhecer e respeitar aquela religião na qual foi educado e que o tornou mestre de muitos povos. Convida-nos também a destruir o muro da incompreensão entre Sinagoga e Igreja pela herança comum que nos une e pela tarefa de iluminar os povos que Deus confiou aos judeus e aos cristãos, como afirmou João Paulo II: "Quem encontra Jesus encontra o judaísmo".
Fonte: Jewish-Christian Relations
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