Existe um quadro litúrgico de festas que determina a vida religiosa oficial do judaísmo.
O nome genérico das grandes festas religiosas judaicas é hag, que etimologicamente é sinônimo do árabe hagg que designa a peregrinação a Meca. Percorrendo o Pentateuco constatamos a existência de umas cinco listas de festas anuais de cronologia variada, passíveis de serem reconstituídas em sua evolução, graças às características preservadas.
Em geral, todas as festas são agrícolas, provavelmente herdadas do cananeu, e refletem a situação de Israel na terra de Canaã. O mais antigo calendário se encontra no Código da Aliança (Ex 23,14-17). O javista da aliança sinaítica (Ex 34,18-23) coincide grosso modo com o anterior e fornece a mesma série de três festas de peregrinação, mas denomina a segunda de festa das Semanas (Hag Shabuôt). O calendário deuteronômico é mais detalhado (Dt 16,1-17), dando prioridade à do Êxodo, em que se imola o cordeiro. No calendário do Código de Santidade (Lv 23), há indícios claros da maneira babilônica de contar os meses e uma enumeração mais ampla das festas.
No judaísmo, os dias sagrados iniciam-se com o Rosh Ha-Shaná, que é também o começo do ano judaico.
Rosh Ha-Shanáh – Como "cabeça do ano", é a festa celebrada nos dias 1° e 2° de Tishri: dias em que, segundo a tradição, o mundo foi criado. Os outros nomes de Rosh Ha-Shanáh são: Yom Hazikaron (dia da lembrança), Yom Teruáh (dia do toque do shofar), Yom ha-din (dia do julgamento). Festa essencialmente religiosa. Celebra-se exclusivamente na sinagoga. Como para as outras magnas datas, as orações estão compiladas no mahazor (livro de orações). Representa um dos dois dias santos mais sagrados da fé judaica e dá início aos Dez Dias de Penitência quando "a humanidade se submete a julgamento perante o trono celestial". Durante esse período, afirma a tradição, Deus perscruta os corações dos homens e examina os motivos de seus atos. É também o período em que os judeus se julgam a si mesmos, comparando seu procedimento durante o ano findo com as resoluções tomadas e as esperanças que haviam acalentado. No moderno Israel, celebra-se o Rosh Ha-Shaná durante um único dia: os ortodoxos continuam a observar dois dias igualmente santificados, conforme o costume mantido desde o primeiro século. A exemplo de quase todos os demais dias santos do judaísmo, as observâncias do Rosh Ha-Shaná incluem certa mistura de solenidade e festividade. O Ano Novo é uma época para reunião do clã, quando tanto os jovens como os anciãos voltam ao lar. O esplendor do seu ritual cria laços emocionais com o judaísmo até nas crianças pequenas demais para compreenderem e apreciarem plenamente a ética da fé; nos anos seguintes a mente reforça esses laços do espírito e do coração. O símbolo mais importante das práticas do Rosh Ha-Shanáh é o shofar, ou chifre de carneiro, que se faz soar durante o culto no Ano Novo e em cada um dos dez dias de penitência. Em tempos idos, o shofar era instrumento de comunicação. Das colinas da Judéia era possível alcançar todo o país em poucos momentos por meio de apelos de shofar correndo do cume de um monte para outro. Nos ofícios do Rosh Ha-Shanáh o shofar é o chamado para a adoração. Conclama os fiéis a se arrependerem de suas faltas do ano decorrido; a voltarem a Deus com o espírito contrito e humilde, e a distinguirem entre o trivial e o importante na vida, de modo que os doze meses seguintes possam ser mais ricos de serviços a Deus e aos outros.
Yom Kipur – Dia do Perdão. Festa máxima dos judeus. Data de jejum absoluto. É o dia do perdão e da purificação: esquecimento dos erros e extirpação das impurezas da alma. Não se trata unicamente do perdão divino, invocado mediante a confissão das faltas e as práticas de abstinência, mas também do perdão humano, que exige o desprendimento da vaidade e contribui para a elevação moral. Rancores e ressentimento são expulsos da alma. À chegada de Yom Kipur, cada judeu deve estender a seu inimigo uma mão de reconciliação, deve esquecer as ofensas recebidas e desculpar-se por aquelas feitas aos outros. Livre de todas as suas impurezas físicas e morais, deve comparecer o indivíduo diante do tribunal de Deus. Desde a refeição que a precede, servida antes do pôr-do-sol, até o fim da festa, o judeu se abstém de qualquer alimento ou bebida. Este jejum é interpretado não somente como evasão do terreno, mas como prova de força de vontade sobre os apetites materiais, que tantas vezes conduzem ao erro. Por último, o jejum faz sentir na própria carne os padecimentos dos que por falta de meios sofrem de fome e sede.
Peçah – É a festa judaica da Páscoa. Celebra-se a lembrança da libertação dos israelitas da escravidão do Egito, que ocorreu no dia 14 do mês hebraico Niçán, aproximadamente em 1280 a.C. Desde então a Peçah foi para o israelita o aniversário da libertação do jugo da escravidão, a qual devia guiá-lo à libertação do espírito, à fé, à virtude e para uma vida nobre e sagrada.
Peçah é também considerada festa da primavera, coincidindo a sua data com a primavera em Israel. Peçah prolonga-se por 8 dias, sendo os seus primeiros e últimos dias considerados yamim tobim, ou seja, "dias festivos".
Shabu`ôt – É considerada uma das festas máximas do judaísmo, pois comemora a data em que Deus, por intermédio de Moisés, deu ao povo libertado do Egito os Dez Mandamentos. Da voz que lhes falava no monte Sinai, saíram as palavras mais sábias que a humanidade jamais ouviu; esses mandamentos foram o elo que manteve a união dos judeus pelos séculos afora. Em todo o mundo, o Decálogo tem encontrado ressonância e se imposto como fundamento moral. Os judeus festejam Shabu`ôt com justo orgulho, porque foram os mensageiros e depositários dos sábios ensinamentos nele contidos. As palavras "Asher, behar banu mi-col ha-`amim ve-natonah lanu et Toratô" "Que nos escolheu entre todos os povos e nos deu ela, Sua Toráh", a bênção da Toráh no Templo, são uma recordação renovada anualmente da sua missão: salvaguardar, através dos séculos, esse tesouro de ética e sabedoria, que foi confiado a seu povo. Shabu`ôt chama-se também Hag Habbikkurím – Festa das Primícias. Esse amálgama do divino (ter recebido a Torá) e a terra (a festa da colheita), reflete o sentimento da alma judaica: agradecer a Deus pela lei recebida e pela colheita dos frutos da terra. Na antigüidade, quando se terminava a colheita de cereais, separavam-se as primícias que eram levadas ao Templo e oferecidas a Deus em sinal de agradecimento. Numerosos grupos de agricultores de todas as partes do país marchavam em longas procissões para Jerusalém, acompanhados, em todo o trajeto, por alegres sons de flautas. Em cestas decoradas com fitas e flores, cada um conduzia sua oferenda, primícias de trigo, cevada, uvas, figos, romãs, azeitonas e mel, produtos que davam renome ao solo de Israel. Na Cidade Santa eram acolhidos com cantos de boas-vindas e penetravam no Templo, onde entregavam seus cestos ao sacerdote, findando a cerimônia ao som de hinos e toques das harpas. Com o restabelecimento do Estado de Israel, Shabu`ôt readquiriu seu caráter de festa campestre; hoje, como ontem, a vida lá gira em redor do cultivo da terra; o judeu voltou à sua inerente predileção pelos trabalhos agrícolas.
Sukkôt – É a festa das tendas. Celebra-se, habitando durante 8 dias, em cabanas em que os israelitas viveram desde a saída do Egito até a conquista da Palestina. Chamou-se também de Hag ha-açíf (festa da Colheita) ou simplesmente Hag. Primeiramente Sukkôt era uma festa agrícola rural. Sukkôt marcava o final da colheita das frutas. Era também a festa da peregrinação. É um acontecimento alegre e feliz, cheio de símbolos ricos e coloridos; e especialmente atraente para as crianças, às quais obviamente se destina. Ergue-se uma tenda ou cabana (sukkáh) perto da casa. Em geral, é uma estrutura improvisada, de tábuas de madeira, com teto de folhas e ramos. O teto não deve ser compacto, pois os que se acham dentro da sukkáh devem poder ver o céu o tempo todo. A construção de uma tenda é prescrita na Bíblia, como eterna lembrança das habitações precárias utilizadas pelos israelitas em seus quarenta anos de peregrinação através do deserto. O interior da sukkáh é alegremente decorado com frutas da estação outonal, e mobiliado com mesa e cadeiras. Durante a semana de Sukkôt a refeição é servida na sukkáh.
A principal oração judaica é o Shemá` (hebr. Ouve!) considerada como a expressão clássica do monoteísmo e a proclamação de fé dos israelitas. Todos os israelitas devem recitá-lo, conforme se acha prescrito no ritual, todos os dias, pela manhã e à noite. As primeiras palavras que a criança deve aprender a pronunciar são: Shemá` Yisraêl (Escuta, Israel). "As palavras do Shemá` Yisraêl, diz o Talmud, não são dirigidas aos ouvidos, mas ao coração".
Para os judeus, a lei oral não podia ser escrita e o ensino era ministrado somente por transmissão oral, por "repetição". Daí a designação da Mishnáh como "segunda Lei", coincidindo com a tradução grega e latina dos vocábulos deuterosis. Mishnáh deriva do verbo shanó (= estudar), e ao mesmo tempo do numeral shnaïm (= dois). Como parte constitutiva do Talmud, é a Mishnáh o conjunto das decisões, doutrinas e leis religiosas que tem como base a Torá e que, por sua vez, serve como base para a Guemará. Assim como a Bíblia é o objeto da Mishnáh, essa é o objeto para a interpretação talmúdica – a Guemará. A Mishnáh divide-se em seis partes: Zera`im (grão) trata do homem e da terra; Mo`êd (festas); Nashím (família); Neziqim (relação entre os homens); Qodashim (cerimônias religiosas) e Teharôt (leis e proibições). A Mishnáh constitui a base do Talmud. É um informe das sentenças proferidas por uma linha de analistas e juizes. Abrange um período de quase 400 anos. Rabi Judá, o Príncipe, abastado sábio da Palestina, compilou a Mishnáh.
Todos os judeus incorporam-se à comunidade mediante o rito da circuncisão que é o símbolo, a prova e a condição para entrar na aliança que o Eterno estabeleceu com o primeiro patriarca Abraão. Assim está comprometido com um pacto indissolúvel com seu Deus, com a virtude e o dever. O ato da Miláh é cercado por ambiente de extremo respeito ao qual assistem somente os homens presentes à festa. A criança é introduzida na sala de cerimônia pelo kvater (padrinho) sob as exclamações "Baruk ha-bá" (Bendito seja quem chegou). É então passado de mão em mão até o pai, o Sandaq (síndico) em cujas mãos se realiza a operação. Terminada a mesma, recita o pai a oração de graças por ter cumprido essa mitsváh e a criança e os pais são então saudados por toda uma série de bênçãos características, que é realmente enorme e que a tradição judaica acumulou por séculos. A cerimônia termina com o ato de molhar os lábios do bebê com vinho ou cerveja, após o que é servida a Se`udat mitsváh, o banquete do Mandamento Cumprido. O nome do menino é dado na cerimônia.
A admissão oficial e consciente no povo judeu se faz mediante o rito da bar mitzváh. O jovem judeu ao atingir a idade de 13 anos converte-se em bar mitzváh, isto é, sujeito ao mandamento. Isso quer dizer que deve praticar os mandamentos divinos, tomando-se responsável pelos seus atos. Até então cabia ao pai ou tutor toda a responsabilidade dos atos bons ou maus praticados pelo seu filho. A partir deste momento a responsabilidade é exclusivamente do jovem que agora passa a integrar a comunidade, como um adulto no sentido do cumprimento das Mitzvot (mandamentos). Estes 613 mandamentos fundamentais representam a estrutura de toda a moral judaica, estabelecendo normas de conduta em todos os momentos de vida do homem, quer nas suas relações com os seus semelhantes, quer nas suas relações com o Todo-poderoso.
Ao lado desta responsabilidade moral adquire o Bar-Mitzváh o privilégio do Minyan, isto é, ser um membro do grupo de dez homens, número este que a lei judaica exige como o mínimo para a realização de qualquer ato religioso de caráter público. Como membro do Minyan, o Bar-Mitzváh está, então, sujeito a todos os deveres e obrigações dos seus integrantes adultos. Deve-se assinalar, entretanto, que a solenidade do Bar-Mitzváh marca apenas o momento inicial da maturidade física e psíquica do indivíduo e não o momento em que esta se completa. A partir desta idade, o jovem começa a tomar consciência dos problemas que o cercam e aos seus semelhantes, marcando, pois, a sua inclusão como membro da sociedade, tomando-se apto para lutar pelos seus interesses e necessidades.
O costume do Bar-Mitzváh data do século XVI. A Torá (Antigo Testamento) não o menciona. O Talmud apenas faz alusão ao fato de os jovens, a partir dos treze anos, começarem a transformar-se em homens adultos, não estabelecendo porém, normas nem a idade exata para o acontecimento. A primeira referência escrita sobre a sua celebração encontra-se no Código Religioso, de Ética, Moral e Conduta humanas chamado Shulehan `Arúk compilado em meados do século XVI por Yosef Karo. Segundo este Código, o primeiro sábado que segue ao 13° aniversário do jovem é o dia de seu Bar-Mitzváh. Durante os meses que antecedem esta data importante, o jovem aprende as noções fundamentais da História e das tradições judaicas, as orações e costumes do povo, estudando os princípios que regem a fé judaica. No sábado da comemoração o jovem recita um capítulo da Torá (Parasháh) e um capítulo dos Profetas (Haftaráh), com a melodia tradicional apropriada para estes capítulos. Esta melodia baseia-se numa escala de notas musicais padronizadas para a leitura em público dos capítulos da Torá e do livro dos Profetas. A cerimônia religiosa é seguida de uma reunião festiva que é oferecida pela família do Bar-Mitzváh aos parentes e pessoas mais chegados à família.
Fonte: Jewish-Christian Relations
Nenhum comentário:
Postar um comentário