segunda-feira, 30 de junho de 1986

Guia para o Diálogo Católico Judaico - Objetivos e Meios para Promover o Diálogo

O diálogo religioso ou inter-religioso deve ser vivido e alimentado pela vida, para que a palavra não se desgaste. Através da palavra passa a vida, e com esta a comunhão. Atingindo-se a comunhão chega-se a Deus.

Diálogo religioso é a procura de Deus por meio do irmão, em quem Deus se revela, a partir de sua própria experiência de Deus.

O objetivo mais imediato do diálogo é conhecer o outro, para ver o que Deus nos diz por meio dele. E não em primeiro lugar dizer ao outro o que queremos.

O conhecimento do outro, o modo como ele se vê, como ele reza, como conhece a Deus, é o primeiro passo do diálogo religioso.

Um segundo passo será a humildade de aprender. No diálogo com o judaísmo, os cristãos têm muito a aprender. Os judeus receberam, conservaram e aprofundaram uma rica tradição religiosa, teológica, bíblica e espiritual, fundamento das Igrejas cristãs.

Este diálogo acontece primeiramente no dia-a-dia, nos trabalhos, nos contatos, na política, nas lutas pela justiça etc. Muitas vezes, quando os homens lutam e vivem unido, caem os preconceitos oriundos de formação humana e religiosa. Realmente nada como a vida para formar.

Há também ocasiões mais específicas para tais contatos, que poderão requerer uma preparação mais adequada: cerimônias, formaturas e outras solenidades. Estas ocasiões poderão ser formais ou informais, como festas religiosas e civis, nascimentos, casamentos etc. O ser humano vive estas situações de acordo com sua fé, sua visão de Deus e do sentido que dá à vida. Os cristãos, sobretudo os agentes de pastoral, poderão procurar nestes momentos conhecer e entender como os judeus vivem, o sentido que dão a estes momentos, e a ligação que podem ter com a experiência da Aliança. Inspirando-se no exemplo de transformar em bênção (brakáh), tirando grande proveito, vendo e aprendendo como os judeus compreendem e acatam a Palavra de Deus nestas situações e como a aplicam.

Instituições
Há um nível especializado de diálogo com Organizações e Instituições com representantes das respectivas comunidades. Estes grupos promovem o conhecimento mútuo por meio de atividades: publicações, sessões de estudos, celebrações, dirigidas a públicos interessados e visando a conscientizar as comunidades. São também responsáveis por contatos oficiais entre os grupos religiosos em nível internacional, nacional e local.

Internacionais:
1. Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo (Commissione per i rapporti religiosi con l’Ebraismo).
Foi criada em 22 de outubro de 1974, pelo papa Paulo VI, por sugestão da Comissão Internacional de Ligação entre a Igreja Católica e o Judaísmo. É um organismo exclusivamente católico, ligado ao Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos, e visa promover e estimular as relações religiosas entre judeus e católicos a partir das orientações dadas pelo Concílio Vaticano II, em particular pela seção IV da Declaração conciliar "Nostra Aetate". Sua sede é no Vaticano.

2. International Council of Christians and Jews.
Trata-se de um organismo misto judeu-cristão, sem estatuto oficial de Igrejas. Agrupa as diferentes organizações nacionais de amizade, diálogo ou cooperação judeu-cristãos. Sendo uma "associação voluntária de organizações nacionais de cristãos e judeus com o fito de promover a cooperação cristão-judaica" (art. l de sua Constituição), visa "à articulação de esforços e à promoção de atividades comuns" (art. 2) e respeita a autonomia de cada organização representada. Sua Secretaria está em Heppenheim (Alemanha Ocidental).

3. Comissão Judaica Internacional para as Consultas inter-religiosas (International Jewish Committee on interreligious Consultations).
Organismo exclusivamente judaico, com cinco organizações representativas do judaísmo mundial. Uma delas a "Israel Interfaith Committee", com sede em Israel, delega seus representantes junto à Comissão de Ligação entre a Igreja Católica e o Judaísmo.

4. CENTRO SIDIC – Serviço Internacional de Documentação Judeu-cristã.
Associação e centro de estudos e de documentos fundado em Roma em 1965, atendendo ao pedido dos padres conciliares e peritos para concretizar as orientações da Declaração conciliar "Nostra Aetate". Propõe-se:
● promover o conhecimento, a compreensão e a estima entre judeus e cristãos;
● contribuir na divulgação do patrimônio que o cristianismo e a cultura ocidental receberam do judaísmo;
● divulgar o estudo da tradição judaica e mostrar o elo existente com a fé cristã e sua importância para a humanidade.

Este objetivo procura ser atingido por meio de cursos, conferências, sessões nacionais e internacionais, uma biblioteca especializada e grande documentação; publicação de uma revista "SIDIC", com edições em inglês e francês. Sua sede encontra-se em Roma, via del Plebiscito, 112.

Em nível continental, há no CELAM (Conselho Episcopal Latino-americano) um departamento de Ecumenismo e Diálogo Religioso, com um setor de diálogo judeu-cristão.

No Brasil foi criada pela CNBB uma Comissão de Diálogo entre Judeus e Católicos, ligada ao setor de Ecumenismo e Diálogo Religioso, órgão da Comissão Episcopal de Pastoral (CEP).

Também em nível nacional, mas sobretudo locais, podem-se relacionar os Conselhos de Fraternidade Cristão-judaica existentes no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo.

Ocasiões de contatos para conhecimento

1. Já fizemos referência às formaturas que, freqüentemente, procuram organizar um Culto Ecumênico com a participação de ministros religiosos representativos das crenças dos formandos.

2. Há momentos especiais de encontros formais ou informais entre representantes de comunidades religiosas, como, por exemplo:
● o cardeal Arns em visita à Congregação Israelita Paulista, CIP, e dirigindo sua palavra à comunidade;
● visitas de delegações judaicas ao cardeal Primaz, em Salvador;
● Rabino Roberto Graetz, do Rio de Janeiro, dirigindo-se à reunião dos bispos e assessores da CEP (26/10/83).

3. Aumenta o número de comunidades cristãs que, por ocasião da Páscoa, celebram a Ceia Pascal ou Sêder com um objetivo bíblico e pastoral: conhecer as tradições dos irmãos judeus e sua vivência litúrgica no Sêder Pascal.

4. Grupos de estudos organizados por congregações e centros de estudos judaicos abertos para cristãos.

5. Grupos de estudantes e paroquianos que procuram, no contexto de Cursos Bíblicos ou Sessões de estudos, exposições e debates feitos por Rabinos ou membros da comunidade judaica, sobre sua liturgia, exegese, espiritualidade etc. São momentos privilegiados de troca, de esclarecimentos e de melhor conhecimento da origem e da experiência cristã, da Eucaristia, celebração da libertação e da formação da Igreja primitiva.

Para tanto são privilegiados os momentos das celebrações das festas, sobretudo da Páscoa, como já foi dito, mas também de Pentecostes com uma descoberta do sentida original tal como eram celebradas por Jesus Cristo, onde se encontra: vitalidade da Lei e da Aliança, fidelidade ao Deus Salvador e libertador, e onde se proclama sua bondade no dom da vida.

Objetivos para a sociedade
A procura de meios para a superação de crises que assolam a sociedade, ou de meios para contribuir na reconstrução da nação, como em nossos dias, deve envolver e comprometer todas as camadas da população e todas as comunidades religiosas. A preocupação na procura dos valores correspondentes à construção do Reino de Deus é comum a cristãos e judeus; fraternidade, justiça, amor, liberdade, são fundamentais na Revelação bíblica e comuns aos crentes no Deus de Abraão e da Aliança:

O compromisso social e político das comunidades pode e deve se inspirar na Palavra de Deus.
A luta pela justiça, pela defesa dos direitos humanos, é um terreno comum a quem tem a mesma visão bíblica do homem.

A título de ilustração lembremos:
● Por ocasião da XII Assembléia Geral dos Bispos do Brasil, quando um dos temas centrais era: Direitos do homem, num período conturbado da sociedade brasileira, em 1973, realizou-se um colóquio cristão-judaico sobre direitos humanos, promovido pelo Conselho de Fraternidade Cristã-judaica de São Paulo; os membros do Conselho foram recebidos pela Presidência da CNBB e levaram aos bispos uma posição de apoio em sua missão de defesa dos direitos humanos então menosprezados.

● Também por ocasião da morte, sob torturas, do jornalista judeu Vladimir Herzog, assim como do massacre dos desportistas israelenses nas Olimpíadas de Munique, foram realizadas celebrações religiosas em igrejas católicas, com participação de rabinos.

Estas atitudes não fazem parte de uma tática imediatista de conquista, mas estão ligadas a objetivos permanentes da sociedade: a construção, a partir da fraternidade, e a manutenção de uma sociedade assim construída, vigilante na prática da justiça, na defesa dos "órfãos e das viúvas", como o faziam os profetas.
Estas atitudes ocasionais, em situações que sempre podem voltar a ocorrer, visando à comunhão intensa entre as diversas comunidades não podem ser negligenciadas, e evitarão que se repitam holocaustos monstruosos e desumanos.

Formação nos cursos de Teologia e Catequese

O Concílio Vaticano II demonstrou a importância dos estudos, sobretudo nos níveis da Teologia e da Catequese. O texto assinado pelo cardeal Willebrands, então presidente da Comissão, relembra que o judaísmo não terminou com a destruição do Templo, mas continuou como realidade viva, com grande produção que se encontra no Talmud e outros livros clássicos, onde exegese, espiritualidade e liturgia se encontram.

Para que diversas idéias simplistas, e às vezes inexatas, criadoras de preconceitos, sejam abolidas, é importante que estes estudos sejam estimulados. Uma introdução ao judaísmo, como fonte e origem do cristianismo, é indispensável em qualquer escola de Teologia. Se a exegese cristã encontrou sua linha com grandes nomes como S. Jerônimo e os Padres da Igreja, a própria literatura de s. Justino nos mostra como eram freqüentes os contatos entre sábios cristãos e judeus (Diálogo com o judeu Trifão). E a exegese judia foi fazendo seu caminho, freqüentemente desconhecido pelos cristãos.

A Liturgia tem sua especial importância pois o quadro litúrgico cristão é essencialmente judaico, baseado nas festas como Páscoa e Pentecostes, e com suas celebrações com a Eucaristia e as bênçãos.

Aos poucos, formar-se-ão os especialistas também em nossa Igreja no Brasil. Mas é importante que estes estudos sejam fomentados nos Institutos de Estudos Religiosos, pois é a partir da pregação e das celebrações que podem ser evitados preconceitos, cujas conseqüências escapam às boas intenções.

Se o ideal é o estabelecimento de cursos sistemáticos, cadeiras de Teologia, de Bíblia etc., dada a carência de professores, podem-se organizar cursos intensivos, seminários, mesas redondas, contando-se com a colaboração de professores judeus e cristãos mais especializados; existem mesmo congregações religiosas que se propõem como objetivo o estudo e o diálogo com o judaísmo.

Para subsidiar estes cursos existe, em língua portuguesa, publicada por Editoras católicas, uma literatura especializada sobre judaísmo e o relacionamento da Igreja com o judaísmo.

Recomenda-se tanto aos estudiosos como aos professores, catequistas e agentes de pastoral, a busca destas publicações (ver Bibliografia básica anexa) bem como a sua divulgação entre os alunos, paroquianos e membros das comunidades.

Este material genuinamente brasileiro, preparado para incentivar o diálogo fraterno é, sem dúvida, mais um meio disponível e de fácil acesso destinado a favorecer a obtenção desses objetivos.

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