No dia 27 de fevereiro de 1981, por iniciativa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, formou-se pela primeira vez uma Comissão Nacional de Diálogo Religioso Católico-judaico. A Comissão se reúne mensalmente em São Paulo, com cinco porta-vozes ativos de cada lado.
Em 1982, a pedido da CNBB, elaboramos um esboço contendo "Orientações para a Igreja Católica no Brasil em seu Relacionamento com os Judeus". Foi com base nesse esboço que a Comissão elaborou um documento final que, aprovado, foi publicado no Comunicado Mensal da CNBB, em outubro de 1983. Entre outros pontos, as Orientações destacam a necessidade de um "diálogo inspirado por sadio desejo de conhecimento recíproco e mutua compreensão.
Para facilitar esta mútua compreensão, a Linha 5 da CNBB, de Ecumenismo e Diálogo Religioso, julgou oportuno que nossa Comissão desenvolvesse um Guia com o propósito de implementar as orientações e sugestões acima mencionadas, e ajudar os católicos no Brasil a conhecerem melhor os anseios históricos, religiosos e nacionais do povo judeu. Este Guia, juntamente com dois outros – Guia ecumênico (recentemente revisado) e o Guia ecumênico popular (Estudos da CNBB n.° 21 e n.° 28) – constituem os primeiros de uma série planejada para reforçar o diálogo da Igreja com os não-cristãos.
A importância deste Guia é óbvia. O judaísmo, como berço do cristianismo, é geralmente desconhecido. Há muitos preconceitos a respeito. E aos olhos de muitos cristãos, o judeu é alvo de proselitismo. Pior ainda, mesmo depois do lamentável e horrível Holocausto sofrido pelo povo judeu neste século, continuam movimentos e atitudes anti-semitas no mundo inteiro.
Nosso texto, longe de pretender ser todo-abrangente, aborda a história do diálogo inter-religioso, os fundamentos teológicos da fé judaica, as correntes ideológicas no judaísmo contemporâneo, a catequese católica em relação aos judeus, os meios de promover a aproximação, o assunto dos casamentos mistos, questões sociais de interesse mútuo e o momento histórico que atualmente o país está vivendo. Foi também incluída uma bibliografia, como incentivo para estudos mais aprofundados.
Vinte anos atrás, os bispos da Igreja Católica Romana, reunidos no Concílio Ecumênico Vaticano II, repudiaram a acusação de deicídio contra os judeus e condenaram formalmente o anti-semitismo. Sua declaração histórica, "Nostra Aetate", n. 4, afirmava: "A Igreja (...) deplora os ódios, as perseguições, as manifestações anti-semitas dirigidas contra os judeus em qualquer época e por qualquer pessoa". Um registro valioso dos passos que levaram à promulgação deste documento está contido em Os protocolos do Concílio Vaticano II: sobre os judeus da autoria do Padre Humberto Porto.
Desde o Concílio Ecumênico Vaticano II, as barreiras de desconfiança mútua foram gradativamente se dissolvendo. De 1965 até hoje, estabeleceram-se mais contatos positivos do que em todos os 1900 anos anteriores. O papa João Paulo II, em recente encontro com uma delegação judaica, declarou: "Estou convencido – e fico feliz por afirmar isto – de que as relações entre judeus e católicos melhoraram radicalmente nestes últimos anos. Onde havia ignorância, e portanto preconceito, hoje há crescente estima e respeito recíproco".
Somos todos herdeiros do Vaticano II. O Concílio alterou irreversivelmente a maneira pela qual nos enxergamos uns aos outros. Publicamos este Guia em comemoração ao 20° aniversário de "Nostra Aetate", conscientes dos resultados positivos alcançados nestas duas décadas e determinados a prosseguir a caminhada rumo a um futuro de fraternidade, harmonia e paz.
Comissão Nacional de Diálogo Religioso Católico-judaico
Fonte: Jewish-Christian Relations
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