segunda-feira, 30 de junho de 1986

Guia para o Diálogo Católico Judaico - Documentos Oficiais

Vaticano
l. Declaração "Nostra Aetate" do Concílio Vaticano II sobre as relações da Igreja com as Religiões não-cristãs

A Religião Judaica, n. 4
Perscrutando o Mistério da Igreja, este Sacrossanto Concílio recorda o vínculo pelo qual o povo do Novo Testamento está espiritualmente ligado à estirpe de Abraão.

Pois a Igreja de Cristo reconhece que os primórdios da fé e de sua eleição já se encontram nos Patriarcas, em Moisés e nos Profetas, segundo o mistério salvífico de Deus. Confessa como todos os fiéis cristãos, filhos de Abraão, segundo a fé, estavam incluídos no chamamento do mesmo Patriarca e que a salvação da Igreja estava misteriosamente prefigurada no êxodo do povo eleito da terra da escravidão. Por isso não pode a Igreja esquecer que por meio daquele povo, com o qual em sua indizível misericórdia Deus se dignou estabelecer a Antiga Aliança, ela recebeu a Revelação do Antigo Testamento e se alimenta pela raiz de boa oliveira na qual, como ramos de zambujeiro, foram enxertados os povos. Pois crê a Igreja que Cristo, nossa Paz mediante a cruz, reconciliou os judeus e os povos e a ambos unificou em si mesmo.

Tem a Igreja sempre ante os olhos as palavras do Apóstolo Paulo a respeito de seus consangüíneos ‘de quem é a adoção dos filhos, a glória, a aliança, a legislação, o culto de Deus e as promessas, de quem são os Patriarcas e de quem descende segundo a carne o Cristo’ (Rm 9,4-5), filho da Virgem Maria.

Lembremos também que do povo judeu nasceram os Apóstolos, fundamentos e colunas da Igreja, como igualmente muitos daqueles primeiros discípulos que anunciaram ao mundo o Evangelho de Cristo.

Testemunho é a Sagrada Escritura de que Jerusalém não conheceu o tempo de sua visitação e que os judeus em grande número não aceitaram o Evangelho, sendo que não poucos opuseram obstáculos à sua difusão. Segundo o Apóstolo, no entanto, os judeus ainda são amados por causa de seus pais, porque dos dons e da sua vocação Deus não se arrepende. Juntamente com os Profetas e o mesmo Apóstolo, a Igreja espera por aquele dia, só de Deus conhecido, em que todos os povos em uma só voz aclamarão o Senhor e ‘se submeterão num mesmo espírito’ (Sf 3,9).

Sendo pois tão grande o patrimônio espiritual comum aos cristãos e judeus, este Sacrossanto Concílio quer fomentar e recomendar, a ambas as partes, mútuo conhecimento e apreço. Poderá ele ser obtido principalmente pelos estudos bíblicos e diálogos fraternos.

Se bem que os principais dos judeus, com seus seguidores, insistiram na morte de Cristo, aquilo contudo que se perpetrou em sua Paixão não pode ser indistintamente imputado a todos os judeus que então viviam, nem aos de hoje. Embora a Igreja seja o novo povo de Deus, os judeus, no entanto, não devem ser apresentados nem como condenados por Deus, nem como amaldiçoados, como se isso decorresse das Sagradas Escrituras. Haja por isso cuidado, da parte de todos, para que, tanto na catequese como na pregação da Palavra de Deus, não se ensine algo que não se coadune com a verdade evangélica e com o espírito de Cristo.

Alem disso, a Igreja que reprova toda perseguição contra qualquer homem, lembrada do comum patrimônio com os judeus, não por motivos políticos, mas impelida pelo santo amor evangélico, lamenta os ódios, as perseguições, as manifestações anti-semíticas, em qualquer tempo e por qualquer pessoa, dirigidos contra os judeus.

Do resto, a Igreja sempre teve e tem por bem ensinar que Cristo, por causa dos pecados de todos os homens, sofreu voluntariamente e por imenso amor se sujeitou à morte, para que todos conseguissem a salvação. Cabe pois à Igreja pregadora anunciar a cruz de Cristo como sinal do amor universal de Deus e fonte de toda a graça.

A Cruz de Cristo. – Por causa das perseguições bimilenares em países chamados cristãos a Cruz de Cristo se tornou para os judeus um sinal que provoca reação de temor e de amargura.

2. Orientações e sugestões para a aplicação da Declaração conciliar sobre as relações da Igreja com as Religiões não-cristãs ("Nostra Aetate" n. 4)

Datada de 28 de outubro de 1965, a Declaração "Nostra Aetate" sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs, do Concílio do Vaticano II – n. 4 –, representa uma virada importante na história das relações entre judeus e católicos.

A iniciativa conciliar inscreveu-se, aliás, numa conjuntura profundamente modificada pela recordação das perseguições e das chacinas de judeus, que se verificaram na Europa imediatamente antes e durante a Segunda Guerra Mundial.

Embora o cristianismo tenha nascido no judaísmo e dele tenha recebido alguns elementos essenciais da sua fé e do seu culto, entre ambos cavou-se cada vez mais o abismo, de sorte que se chegou quase a uma incompreensão de parte a parte.

Após dois milênios, marcados muito freqüentemente por um ignorar-se e, não poucas vezes, por hostilidades, a Declaração "Nostra Aetate" proporcionava a ocasião para empreender ou para prosseguir um diálogo em vista a um melhor conhecimento recíproco.

Durante os nove anos já transcorridos desde então, foram tomadas numerosas iniciativas em diversos países, as quais permitiram aquilatar melhor os condicionamentos em que podem ser entabuladas e desenvolver-se novas relações entre judeus e cristãos. Parece ter chegado o momento de apresentar, segundo as orientações do mesmo Concílio, algumas sugestões concretas, fruto da experiência, com a esperança de que elas possam servir para ajudar a tornarem-se realidade, na vida da Igreja, as intenções expostas pelo documento conciliar.

Sempre sobre a base deste mesmo documento, lembraremos aqui simplesmente os laços espirituais e as relações históricas que ligam a Igreja ao judaísmo, condenando como oposto ao próprio espírito do cristianismo todas as formas de anti-semitismo e de discriminação que a dignidade da pessoa humana, só por si, já seria bastante para condenar. E mais ainda; esses laços e relações impõem a obrigação de uma melhor compreensão recíproca e de uma estima mútua renovada. De maneira positiva, pois isso importa, em particular, que os cristãos procurem conhecer melhor as componentes fundamentais da tradição religiosa do judaísmo e alcançar o conhecimento daqueles traços essenciais pelos quais os mesmos judeus se definem a si mesmos na realidade vivida.

Na linha de tais considerações de princípio, nós proporemos apenas algumas primeiras aplicações práticas em diversos domínios essenciais da vida da Igreja, com o intuito de se instaurarem ou de se desenvolverem, de um modo são, as relações entre os católicos e os seus irmãos judeus.

a) O Diálogo
As relações entre judeus, e cristãos, na verdade, quando porventura as houve, quase não passaram, em geral, de um monólogo; importante, doravante, é que se chegue a estabelecer um verdadeiro diálogo.

O diálogo pressupõe sempre o desejo de se conhecer reciprocamente e de aprofundar tal conhecimento. Ele constitui, de fato, um meio privilegiado para favorecer um melhor conhecimento mútuo e, particularmente no caso do diálogo entre judeus e cristãos, para aprofundar mais as riquezas da própria tradição. É condição do diálogo, porém, o respeito da sua fé e das suas convicções religiosas.

Em virtude da sua missão divina, a Igreja, por sua natureza, deve anunciar Jesus Cristo ao mundo (Dec. "Ad Gentes", n. 2). A fim de evitar que o dar testemunho de Jesus Cristo se apresente aos judeus como uma agressão, os católicos hão de ter o cuidado de viver e anunciar a própria fé com o mais rigoroso respeito pela liberdade religiosa de outrem, conforme ela foi ensinada pelo mesmo Concílio Vaticano II (Declaração "Dignitatis Humanae"). Hão de eles esforçar-se igualmente por compreender as dificuldades que experimenta a alma judia, precisamente porque impregnada de uma noção muito elevada e muito pura de transcendência divina, perante o mistério do Verbo Encarnado.

Se é verdade que nesse domínio reina ainda um clima de suspeição muito difundido, causado por um passado deplorável, os cristãos, por seu turno, hão de saber reconhecer a sua parte de responsabilidade nisso e daí tirar as conseqüências práticas para o futuro.

Para além de colóquios fraternais, há de ser encorajado também o encontro entre pessoas competentes, com o fim de estudarem os múltiplos problemas ligados às convicções fundamentais do judaísmo e do cristianismo. Uma grande abertura de espírito, um saber desconfiar dos próprios preconceitos e tato, são qualidades indispensáveis para não ferir, mesmo involuntariamente, os seus interlocutores.

Naquelas circunstâncias em que isso seja possível e desejável, de parte a parte, pode favorecer-se um encontro comum diante de Deus, na oração e na meditação silenciosa, tão eficaz para fazer brotar aquela humildade e aquela abertura de espírito e do coração necessária para o conhecimento profundo de si próprio e dos outros. Poder-se-á fazer isso em referência a grandes causas como as da justiça e da paz.

b) A Liturgia
Ter-se-ão presentes os laços que existem entre a liturgia cristã e a liturgia judaica. A comunidade de vida no serviço de Deus e da humanidade, por amor do mesmo Deus, tal como este serviço se realiza na liturgia, caracteriza tanto a liturgia judaica como a cristã. Assim, para as relações judaico-cristãs, importa tomar conhecimento dos elementos comuns da vida litúrgica (fórmulas, ritos etc.) onde a Bíblia tem um lugar essencial.

Hão de ser envidados esforços para compreender melhor aquilo que, no Antigo Testamento, mantém um valor próprio e perpétuo (cf. Const. "Dei Verbum", nn. 14-15), não estando tal valor obliterado pela ulterior interpretação do Novo Testamento que lhe confere o seu significado pleno, ao mesmo tempo que, reciprocamente, aí encontra luz e explicação (cf. ibid., n. 16). Isto é tanto mais importante, quanto é certo que a reforma litúrgica põe os cristãos cada vez mais assiduamente em contato com os textos do Antigo Testamento.

Nos comentários dos textos bíblicos, sem minimizar nunca os elementos originais do cristianismo, procurar-se-á pôr em relevo a continuidade da nossa fé com a Antiga Aliança, na linha das promessas. Nós acreditamos que estas se cumpriram já, quando da primeira vinda de Cristo; no entanto, não é menos verdade que nós estamos ainda na expectativa do seu perfeito cumprimento quando se der o retorno glorioso do mesmo Cristo no fim dos tempos.

Pelo que diz respeito às leituras litúrgicas há de ter-se o cuidado de dar na homilia uma interpretação exata às mesmas, sobretudo quando se tratar de passagens que pareçam colocar o povo judeu, como tal, sob uma luz desfavorável. E far-se-á diligência por instruir o povo cristão de tal maneira, que ele possa chegar a compreender todos os textos no seu verdadeiro sentido e no seu significado para o crente dos nossos dias.

As comissões encarregadas das traduções litúrgicas hão de atender especialmente à maneira de verter para o vernáculo aquelas expressões e passagens que possam vir a ser entendidas de modo tendencioso por cristãos insuficientemente informados. É por demais evidente que nunca se pode mudar o texto bíblico; pode, contudo, ter-se o cuidado, numa tradução destinada ao uso litúrgico, de tornar-se explícita a significação de um texto, tendo para isso em consideração os estudos dos exegetas.

As observações que precedem aplicam-se igualmente às introduções às leituras bíblicas, bem como à ‘Oração Universal’ (‘Oração dos Fiéis’) e aos comentários inseridos nos missais destinados aos fiéis.

c) Ensino e educação
Se bem que reste ainda um vasto trabalho a realizar, já se conseguiu nos últimos anos decorridos chegar a uma melhor compreensão do judaísmo em si mesmo e na sua relação com o cristianismo, graças aos ensinamentos da Igreja e aos estudos e investigações de pessoas versadas na matéria, bem como ao diálogo que já foi possível estabelecer. Aqui, neste ponto, merecem ser recordados os dados seguintes:

– É o mesmo Deus, "inspirador e autor dos livros dos dois Testamentos" (Const. "Dei Verbum", n. 16), que fala na Antiga e na Nova Aliança.

– O judaísmo do tempo de Cristo e dos Apóstolos era uma realidade complexa, que englobava um mundo de tendências e de valores espirituais, religiosos, sociais e culturais.

– O Antigo Testamento e a tradição judaica baseada sobre este não devem ser opostos ao Novo Testamento, de tal maneira que pareçam apresentar apenas uma religião só da justiça, do temor e do legalismo, sem incluir o apelo ao amor de Deus e do próximo (cf. Dt 6,5; Lv 19,18; Mt 22,34-40).

– Jesus, assim como os seus Apóstolos e um grande número dos primeiros discípulos, nasceu do povo judeu. Ele próprio, ao revelar-se como Messias e Filho de Deus (cf. Mt 16,16) e como o portador de uma nova mensagem, a do Evangelho, apresentou-se como vindo para realizar e para completar a Revelação anterior. E muito embora o ensinamento de Cristo tenha um caráter de profunda novidade, ele apóia-se muitas vezes na doutrina do Antigo Testamento. O Novo Testamento é profundamente marcado pela sua relação com o Antigo. Como declarou o Concílio Vaticano II: "Deus, inspirador e autor dos livros dos dois Testamentos, dispôs tão sabiamente as coisas, que o Novo Testamento está latente no Antigo, e o Antigo está patente no Novo" (Const. "Dei Verbum", n. 16). Além disto, o mesmo Jesus adotou métodos de ensinar análogos aos dos rabis do seu tempo.

– Pelo que diz respeito ao processo e à morte de Jesus, o Concílio recordou que "aquilo que na sua paixão se perpetrou não pode ser imputado indistintamente a todos os judeus que então viviam, nem aos judeus do nosso tempo" (Decl. "Nostra Aetate", n. 4).

– A história do judaísmo não terminou com a destruição de Jerusalém, mas prosseguiu e foi cultivando uma tradição religiosa, cujo alcance – cremos nós – tendo-se tornado de significado profundamente diferente depois de Cristo, permanece todavia rico de valores religiosos.

– Com os profetas e o Apóstolo Paulo, "A Igreja espera por aquele dia só de Deus conhecido, em que todos os povos invocarão o Senhor com uma só voz e o servirão debaixo dum mesmo jugo" (Sf 3,9)  (Decl. "Nostra Aetate"  n. 4).
A informação respeitante a estas questões concerne a todos os níveis de ensino e de educação do cristão. Entre os meios de informação revestem-se de particular importância os que seguem: manuais de catequese

  compêndios de história, meios de comunicação social (imprensa, rádio, cinema e televisão).
O uso eficaz destes meios pressupõe uma formação aprofundada dos professores e educadores, nas escolas normais, seminários e universidades.
Procurar-se-á estimular a investigação dos especialistas sobre estes problemas que dizem respeito ao judaísmo e às relações judaico-cristãs, em particular nos campos da exegese, da teologia, da história e da sociologia. Os institutos superiores católicos de investigação, se possível em ligação com outros institutos cristãos análogos, assim como os especialistas, são convidados a dar a sua contribuição para a solução de tais problemas. Onde isso for possível, criar-se-ão cadeiras de estudos judaicos e estimular-se-á a colaboração com os mestres judeus.

d) Ação social em comum
A tradição judaica e cristã, fundada na Palavra de Deus, reflete a noção consciente do valor da pessoa humana, imagem de Deus. O amor de um mesmo Deus deve traduzir-se numa ação efetiva em favor dos homens. No espírito dos profetas, judeus e cristãos, hão de colaborar de bom grado nas diligências em prol da justiça social e da paz, em nível local, nacional e internacional.
Uma tal ação em comum pode favorecer também, em grande escala, um conhecimento e uma estima recíprocos.

Conclusão
O Concílio Vaticano II indicou o caminho a seguir na promoção de uma fraternidade profunda entre judeus e cristãos. No entanto, resta ainda uma longa estrada a percorrer.

O problema das relações entre judeus e cristãos diz respeito à Igreja como tal, por isso mesmo que "ao perscrutar o seu próprio mistério", ela se encontra frente a frente com o mistério de Israel. Este tem, pois, toda a sua importância, mesmo naquelas regiões onde não existem comunidades judaicas. Este problema tem igualmente um aspecto ecumênico: o retorno dos cristãos às fontes e às origens da sua fé, enxertada na Antiga Aliança, contribui para a busca da unidade em Cristo, pedra angular.

Neste campo, poderão os bispos, dentro do enquadramento da disciplina geral da Igreja e da doutrina comumente professada pelo seu magistério, tomar as oportunas iniciativas pastorais. Assim, poderão, por exemplo, em nível nacional ou regional, criar comissões ou secretariados apropriados, ou nomear uma pessoa competente como encarregada de promover a atuação das diretrizes conciliares e das sugestões que ali são apresentadas.

No plano da Igreja Universal, o Santo Padre instituiu, por deliberação emanada a 22 de outubro de 1974, anexa ao Secretariado para a Unidade dos Cristãos esta Comissão para as relações religiosas com o judaísmo. Criada precisamente com o fim de promover e estimular as relações entre os judeus e católicos, em colaboração eventual com outros cristãos, esta Comissão Especial, dentro dos limites da sua competência, está à disposição de todos os organismos interessados, para lhes fornecer informações e para os ajudar a desempenharem-se da própria tarefa em conformidade com as diretrizes da Santa Sé. A Comissão deseja desenvolver tal colaboração, a fim de serem efetivamente postas em prática e com acerto as orientações do Concílio.
Dado em Roma, no dia 1° de dezembro de 1974.
João, Cardeal WillebrandsPresidente da Comissão
P. Pedro-Maria de Contenson, O.P.Secretário

3. Notas para uma correta apresentação dos judeus e do judaísmo na pregação e na catequese da Igreja Católica

Considerações preliminares
O papa João Paulo II dizia, a 6 de março de 1982, aos delegados das conferências episcopais e a outros peritos, reunidos em Roma, para estudar as relações entre a Igreja e o Judaísmo:
"...estais preocupados, durante vossa sessão, com o ensino católico e a catequese em relação aos judeus e ao judaísmo (...) Seria necessário conseguir que este ensino nos diferentes níveis de formação religiosa, na catequese dada às crianças e aos adolescentes, apresentasse os judeus e o judaísmo, não somente de maneira honesta e objetiva, sem nenhum preconceito e sem ofender a ninguém, mas também, e mais ainda, com uma viva consciência da herança comum a judeus e cristãos".

Neste texto de tão denso conteúdo, o Santo Padre inspirou-se visivelmente na Declaração Conciliar Nostra Aetate, n. 4, onde está escrito:
"Tenham todo cuidado na catequese e na pregação da Palavra de Deus de nada ensinar que não seja conforme à verdade do Evangelho e ao espírito de Cristo", bem como nas palavras : – "Por causa de um tão grande patrimônio espiritual, comum aos cristãos e judeus, o Concílio quer estimular e recomendar entre eles, o conhecimento e a estima mútua...".

Do mesmo modo, as orientações e sugestões para a aplicação da Declaração conciliar "Nostra Aetate", n. 4 terminam seu capítulo III, intitulado "Ensino e Educação", onde se enumera uma série de dados concretos a serem postos em prática – por esta recomendação:
"A informação a respeito destas questões refere-se a todos os níveis do ensino e da educação cristã.
Entre os meios de informação têm particular importância os que seguem:
● Manuais de Catequese;
● Livros de história;
● Meios de comunicação social (imprensa, rádio, cinema, televisão).
O uso eficaz destes meios pressupõe uma formação profunda dos professores e educadores, nas escolas normais, nos seminários e nas universidades", (AAS 77, 1975, p. 73)".

Os parágrafos que seguem se propõem responder a este fim.

I. Ensino religioso e judaísmo
1. Na Declaração "Nostra Aetate" n. 4, o Concílio fala do laço que une espiritualmente cristãos e judeus e do grande patrimônio espiritual, comum a uns e outros, e afirma ainda:
"a Igreja reconhece que a origem de sua fé e de sua eleição se encontra, segundo o desígnio de Deus, nos Patriarcas, em Moisés e nos Profetas".

2. Em razão destas relações únicas que existem entre o cristianismo e o judaísmo, "unidos ao nível de sua própria identidade" (João Paulo II, 6 de março de 1982), relações fundadas no desígnio do Deus da Aliança (ibid.), os judeus e o judaísmo não deveriam mais ocupar um lugar ocasional e marginal na catequese e na pregação, mas sua presença indispensável deve aí ser integrada, de modo orgânico.

3. Este interesse pelo judaísmo no ensino católico não tem apenas um fundamento histórico ou arqueológico. Como dizia o Santo Padre, no seu discurso já citado, e depois de ter novamente mencionado o patrimônio comum entre a Igreja e o Judaísmo, que é considerável:
– Fazer o inventário deste patrimônio em si mesmo, tendo, também, em conta a fé e a vida religiosa do povo judeu, tais quais são professadas e vividas, ainda hoje (o grifo é nosso), pode ajudar a melhor compreender certos aspectos da vida da Igreja. Trata-se, portanto, de uma preocupação pastoral para a realidade viva, em estreitas relações com a Igreja. O Santo Padre apresentou esta realidade permanente do povo judeu com uma notável fórmula teológica, na sua alocução aos representantes da Comunidade Judaica da Alemanha Federal, em Mogúncia, no dia 17 de novembro de 1980: "...o Povo de Deus da Antiga Aliança que jamais foi revogada...".

4. É preciso lembrar já aqui, o texto no qual as "Orientações e sugestões" procuraram definir a condição fundamental do diálogo: "o respeito ao outro tal e qual ele é, e o conhecimento (dos componentes fundamentais) da tradição religiosa do judaísmo..." e ainda a aprendizagem dos "traços essenciais (pelos quais) os judeus se definem, eles mesmos na sua realidade religiosa vivida" (Intr.).

5. A singularidade e a dificuldade do ensino cristão referente aos judeus e ao judaísmo consistem sobretudo no fato de exigirem, ao mesmo tempo, os termos de vários pares, nos quais se exprime o relacionamento entre as duas economias do Antigo e do Novo Testamento:
● Promessa e realização,
● Singularidade e universalidade,
● Unidade e exemplaridade.
Importa que o teólogo ou o catequista que trata destes assuntos tenha o cuidado de mostrar na prática do seu ensinamento, o que segue:
● A promessa e sua realização se esclarecem mutuamente;
● A novidade está na transformação do que era antes;
● A singularidade do Povo do Antigo Testamento não é exclusiva e está aberta, na visão de Deus, a uma extensão universal;
● A unicidade deste mesmo povo judeu é em vista de uma exemplaridade.

6. Finalmente, "neste campo, a imprecisão e a mediocridade prejudicariam grandemente o diálogo judeu-cristão" (João Paulo II, discurso de 6 de março de 1982). Mas, elas prejudicariam sobretudo, em se tratando de ensino e educação, à "própria identidade" cristã (ibid.).

7. "Em virtude de sua missão divina, a Igreja" que é "auxílio geral de salvação" e na qual somente se encontra "toda a plenitude dos meios de salvação" (Unitatis Redintegratio 3) "por natureza deve anunciar Jesus Cristo ao mundo" (Orientações e sugestões I). Com efeito, nós cremos que por ele vamos ao Pai (cf. Jo 14,6) e "a vida eterna consiste em que conheçam a ti, o Único Deus verdadeiro, e Jesus Cristo, teu Enviado" (Jo 17,3).
Jesus afirma (Jo 10,16) que "haverá um só rebanho e um só pastor". Igreja e Judaísmo não podem pois ser apresentados como dois caminhos paralelos de salvação. E a Igreja deve testemunhar o Cristo Redentor a todos, no mais rigoroso respeito à liberdade religiosa, tal como esta foi ensinada pelo Concílio Vaticano II (Declaração "Dignitatis Humanae") – (Orientações e sugestões I).

8. A urgência e a importância de um ensino preciso, objetivo e rigorosamente exato sobre o judaísmo, para nossos fiéis, se deduz também, do perigo de um anti-semitismo sempre em vias de reaparecer sob diferentes aspectos.
Não se trata apenas de desenraizar em nossos fiéis os restos de um anti-semitismo que se encontram ainda aqui e acolá, porém bem mais, suscitar neles, através deste esforço educativo, um conhecimento exato do "laço" (cf. "Nostra Aetate", n. 4) absolutamente único que, como Igreja nos religa aos judeus e ao judaísmo. Aprende-se assim a apreciá-los e a amá-los, eles que foram escolhidos por Deus, para preparar a vinda do Cristo e que conservaram tudo aquilo que lhes foi progressivamente revelado e dado, no decorrer desta preparação, apesar de sua dificuldade de nele reconhecer seu Messias.


II. Relações entre Antigo e Novo Testamento
Continua-se a usar no texto a expressão Antigo Testamento porque ela é tradicional (cf. já 2Cor 3,14), também porque "Antigo" não significa "abolido" nem "ultrapassado". Em todo caso é o valor permanente do AT como fonte da Revelação cristã que se quer sublinhar aqui (cf. "Dei Verbum" 3).

1. Trata-se de apresentar a unidade da Revelação bíblica (AT e NT) e do plano divino, antes de falar de cada um dos acontecimentos da história, para sublinhar que, cada acontecimento não tem sentido senão quando considerado dentro da totalidade desta história, da criação à plenitude. Esta história abrange todo o gênero humano e particularmente os homens de fé. É assim que o sentido definitivo da eleição de Israel não aparece senão à luz de sua realização total (Rm 9,11) e que a eleição em Jesus Cristo é ainda melhor compreendida em referência ao anúncio e à promessa (cf. Hb 4,1-1l).

2. Trata-se de acontecimentos singulares concernentes a uma nação singular, mas que na visão de Deus que revela seu propósito, são destinados a receber um significado universal e exemplar.
Trata-se, além disto, de apresentar os acontecimentos do AT não como acontecimentos que dizem respeito apenas aos judeus, mas que se relacionam também a nós pessoalmente. Abraão é verdadeiramente o pai de nossa fé (cf. Rm 4,11-12; Cânon Rom.: patriarchae nostri Abrahae). E foi dito (em 1Cor 10,1): "Nossos pais estiveram todos sob a nuvem, todos passaram através do mar". Os patriarcas e os profetas e outras personalidades do AT foram e serão sempre venerados como santos na tradição litúrgica da Igreja oriental, assim como na Igreja latina.

3. Da unidade do plano divino decorre o problema da ligação entre o AT e o NT. A Igreja, já nos tempos apostólicos (cf. lCor 10,11; Hb 10,1), e depois constantemente na sua tradição, resolveu este problema, sobretudo, por meio da tipologia, o que sublinha o valor primordial que o AT deve ter na visão cristã. Entretanto, a tipologia suscita entre muita gente mal-estar. E aí está, talvez, o indício de um problema não resolvido.

4. No uso, pois, da tipologia, da qual recebemos o ensinamento e a prática da Liturgia e dos Padres da Igreja, se terá cuidado em evitar toda transição do AT ao NT que seria considerada unicamente como uma ruptura. A Igreja, na espontaneidade do Espírito que a anima, condenou rigorosamente a atitude de Marcião
- personagem de tendência gnóstica do séc. II que rejeitava o AT, e uma parte do Novo, como obra de um deus mau, um demiurgo. A Igreja reagiu vigorosamente contra esta heresia (cf. Irineu) - e sempre se opôs a seu dualismo.

5. É importante também sublinhar que a interpretação tipológica consiste em ler o AT como preparação e, sob certos aspectos, esboço e anúncio do NT (cf., por exemplo, Hb 5,5-10 etc.). O Cristo é, desde então, a referência-chave das Escrituras: "O rochedo era o Cristo" (lCor 10,4).

6. É verdade, portanto, e é preciso também sublinhá-lo, que a Igreja e os cristãos, lêem o AT à luz do acontecimento do Cristo, morto e ressuscitado. Sob esse título há uma leitura cristã do AT que não coincide, necessariamente, com a leitura judaica. Identidade cristã e identidade judaica devem assim ser cuidadosamente distintas na sua leitura respectiva da Bíblia. Mas isto nada tira do valor do AT na Igreja. Não impede, tampouco, que os cristãos possam, por sua vez, aproveitar com discernimento as tradições da leitura judaica.

7. A leitura tipológica não faz senão manifestar as insondáveis riquezas do AT, seu conteúdo inesgotável e o mistério do qual ele é pleno, e não deve fazer esquecer que ele guarda seu valor próprio de Revelação que o NT freqüentemente retomará (cf. Mc 12,29-3l). Por outro lado o NT pode ser lido à luz do AT. A catequese cristã primitiva recorre a este processo constantemente (cf., por exemplo, lCor 5,6-8; 10,1-11).

8. A tipologia significa ainda caminhada para o cumprimento do plano divino quando "Deus será tudo em todos" (lCor 15,28). Isto vale também para a Igreja que, já realizada no Cristo, nem por isso deixa de esperar sua perfeição definitiva como Corpo de Cristo. O fato de que o Corpo de Cristo tende ainda para sua estrutura perfeita (cf. Ef 4,12-13) nada tira do valor do ser cristão. Também a vocação dos patriarcas e o êxodo do Egito não perdem sua importância e valor próprios no plano de Deus, pelo fato de serem ao mesmo tempo etapas intermediárias (cf., por exemplo, "Nostra Aetate" n. 4).

9. O êxodo, por exemplo, representa uma experiência de salvação e de libertação que não termina nela mesma, mas que traz em si, além de seu sentido próprio, a capacidade de se desenvolver ulteriormente. A salvação e a libertação estão já cumpridas em Cristo e se realizam gradualmente pelos sacramentos da Igreja. É assim que se prepara o cumprimento do plano de Deus que espera sua consumação definitiva com a volta de Jesus como Messias, pela qual rezamos cada dia. O Reino, por cujo advento também rezamos diariamente, será por fim instalado. Então a salvação e a libertação terão transformado no Cristo os eleitos e a totalidade da criação (cf. Rm 8,19-23).

10. Além disso, sublinhando a dimensão escatológica do cristianismo, se chega a maior conscientização de que, quando o povo de Deus da Antiga e da Nova Aliança considera o futuro, está tendendo para fins análogos: a vinda ou a volta do Messias – embora a partir de dois pontos de vista diferentes. E, se perceberá mais claramente que a pessoa do Messias, a respeito da qual o povo de Deus está dividido, é também um ponto de convergência para ele (cf. Subsídios para o Ecumenismo da Diocese de Roma n. 140). Pode-se dizer, assim, que judeus e cristãos se encontram numa esperança comparável, firmada na mesma promessa feita a Abraão (cf. Gn 12,1-3; Hb 6,13-18).

11. Atentos ao mesmo Deus que falou, presos à mesma palavra, temos a testemunhar uma mesma memória e uma esperança comum naquele que é o Mestre da história. Incumbe-nos assim tomar nossa responsabilidade de preparar o mundo para a verdade do Messias trabalhando juntos pela justiça social, o respeito pelos direitos da pessoa humana e das nações, para a reconciliação social e internacional. A isto somos impelidos, judeus e cristãos, pelo preceito do amor ao próximo e por uma esperança comum do Reino de Deus e pela grande herança dos Profetas. Transmitida bem cedo pela catequese, uma tal concepção educaria de maneira concreta, os jovens cristãos para encontros de cooperação com os judeus, ultrapassando o simples diálogo (cf. Orientações, IV).


III. Raízes judaicas do cristianismo
12. Jesus era judeu e judeu permaneceu. Seu ministério foi voluntariamente restrito às "ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mt 15,24). Jesus era inteiramente um homem do seu tempo e do seu meio judeu palestinense do século I, de que partilhou as angústias e esperanças. Isto sublinha a realidade da Encarnação e o sentido profundo da História da Salvação, como nos foi revelado na Bíblia (cf. Rm 1,3-4; Gl 4,4-5).

13. As ligações de Jesus com a lei bíblica e suas interpretações mais ou menos tradicionais são, sem dúvida, complexas e ele deu provas de uma grande liberdade a respeito delas (cf. as antíteses do Sermão da Montanha: Mt 5,21-48, levando-se em conta as dificuldades exegéticas; atitude de Jesus em face da observância rigorosa do Shabbat: Mc 3,1-6 etc.).

Mas, não há dúvida de que ele quer se submeter à Lei (cf. Gl 4,4), que ele foi circuncidado e apresentado ao Templo como qualquer outro judeu de sua época (cf. Lc 2,21.22-24) e que ele foi formado para observá-la. Jesus respeitava a Lei (cf. Mt 5,17-20) e convidava a obedecer-lhe (cf. Mt 8,4). O ritmo de sua vida era marcado pela observância das peregrinações por ocasião das grandes festas, desde a infância (cf. Lc 2,41-50; Jo 2,13-17, etc.). Já se observou, muitas vezes, a importância do ciclo das festas judaicas no Evangelho de João (cf. 2,13; 5,1; 7,2.10.37; 10,22; 11,55; l2,1; 13,1; 18,28; 19,31; etc.).

14. Importa notar também que Jesus ensina freqüentemente nas sinagogas (cf. Mt 4,23; 9,35; Lc 4,15-18; Jo 18,20 etc.) e no Templo (cf. Jo 18,20 etc.) que ele freqüentava como também seus discípulos mesmo depois da Ressurreição (cf., por exemplo, At 2,46; 3,1; 21,26; etc.). Jesus quis inserir no contexto do culto na sinagoga o anúncio de sua messianidade (cf. Lc 4,16-21). Jesus quis sobretudo realizar o ato supremo do dom de si no quadro da liturgia doméstica da Páscoa, ou pelo menos, no quadro da festividade pascal (cf. Mc 14,1.12 e passim; Jo 18,28). Estes dados permitem-nos compreender melhor o caráter de "memorial" da Eucaristia.

15. Assim, o Filho de Deus se encarnou num povo e numa família humana (cf. Gl 4,4; Rm 9,5). Isto não diminui em nada, pelo contrário, o fato de ter ele nascido por todos os homens (ao redor de seu berço, vemos pastores judeus e magos pagãos - cf. Lc 2,8-20; Mt 2,1-12), e ter morrido por todos (ao pé da cruz encontramos ainda judeus, Maria e João – Jo 19,25-27, e pagãos como o centurião - Mc 15,39 e passim). E assim ele fez de dois povos um na sua carne (cf. Ef 2,14-17). Por aí se explica como com a Ecclesia ex gentibus houve, na Palestina e fora, uma Ecclesia ex circumcisione de que fala, por exemplo, Eusébio (H. E. IV, 5).

16. Seus contatos com os fariseu não foram nem sempre nem totalmente polêmicos. São numerosos os exemplos:
● São fariseus que previnem Jesus contra o perigo que ele corre (Lc 13,3l);
● Fariseus são elogiados por Jesus como o "escriba" de Mc 12,34;
● Jesus come com fariseus (Lc 7,36; 14,1).

17. Jesus partilha doutrinas farisaicas com a maioria dos judeus palestinos de então, por exemplo: a ressurreição dos corpos; as formas de piedade: esmola, oração, jejum (cf. Mt 6,1-18) e o hábito litúrgico de se dirigir a Deus como Pai; a prioridade do mandamento do amor de Deus e do próximo (cf. Mc 12,28-34). O mesmo se dá com Paulo (cf., por exemplo, At 23,8) que sempre teve como título de glória sua pertença ao grupo dos fariseus (cf. At 23,6; 26,5; Fl 3,5).

18. Paulo, também, como aliás o próprio Jesus, utilizou métodos de leitura e de interpretação da Escritura e de ensino aos discípulos, comuns aos fariseus de seu tempo. É o caso do uso das parábolas no ministério de Jesus, como também do método de Jesus e Paulo apoiando uma conclusão numa citação da Escritura.

19. É preciso ainda notar que os fariseus não são mencionados nos relatos da Paixão. Gamaliel I (cf. At 5,34-39) toma a defesa dos Apóstolos em uma reunião do Sinédrio. Uma apresentação exclusivamente negativa dos fariseus corre o risco de ser inexata e injusta (cf. Orientações, nota l; cf. AAS, loc. cit. p. 76). E se há nos evangelhos e em outros livros do NT toda espécie de referências desfavoráveis aos fariseus, é preciso vê-las contra o pano de fundo de um movimento complexo e diversificado. As críticas contra diferentes tipos de fariseus não faltam aliás nas fontes rabínicas (cf. Talmud de Babilônia, Tratado Sotah, 22b etc.). O "farisaísmo", no sentido pejorativo, pode ser encontrado em qualquer religião. Pode-se também sublinhar que, se Jesus se mostrou severo com os fariseus é porque ele sentiu maior proximidade com eles, do que com outros grupos judeus contemporâneos (cf. supra n. 17).

20. Tudo isto deveria ajudar a melhor compreender a afirmação de são Paulo (Rm 11,16ss.) sobre a "raiz" e os "ramos". A Igreja e o cristianismo, em toda a sua novidade, encontram sua origem no meio judaico do século I de nossa era, e mais profundamente ainda no "desígnio de Deus" ("Nostra Aetate", n. 4), realizado nos Patriarcas, Moisés e os Profetas (ibid.) até sua consumação em Jesus Cristo.


IV. Os judeus no Novo Testamento
21. As "Orientações..." já diziam (nota l) que "a fórmula os judeus em são João designa, às vezes, segundo os contextos, os chefes dos judeus ou os adversários de Jesus, expressões que traduzem o pensamento do evangelista e evitam parecer pôr em causa o povo judeu como tal". Uma apresentação objetiva do papel do povo judeu no NT deve levar em consideração os seguintes dados:

A. Os evangelhos são o fruto de um trabalho redacional longo e complicado. A Constituição dogmática "Dei Verbum", seguindo a Instrução "Sancta Mater Ecclesia" da Pontifícia Comissão Bíblica, distingue três etapas: "Os autores sagrados compuseram os quatro Evangelhos escolhendo certas coisas das muitas, transmitidas ou oralmente ou já por escrito, fazendo síntese de outras, ou expondo-as de acordo com a situação das Igrejas, guardando, enfim, a forma de proclamação, com o intuito de assim nos comunicar sempre coisas verdadeiras e autênticas relativas a Jesus" (n. 19).

Não se pode excluir que certas referências hostis ou pouco favoráveis aos judeus tenham como contexto histórico os conflitos entre a Igreja nascente e a comunidade judaica. Certas polêmicas refletem condições de relacionamento entre judeus e cristãos, bastante posteriores a Jesus.
Esta constatação é capital quando se deseja explicitar melhor o sentido de certas passagens do Evangelho para os cristãos de hoje.

É preciso levar em consideração tudo isto quando se prepara o catecismo e as homilias para as últimas semanas da Quaresma e da Semana Santa (cf. já ‘Orientações’ II, e agora ‘Subsídios para o ecumenismo da Diocese de Roma’, 1982, 144b).

B. É claro, por outra parte, que houve conflito entre Jesus e certas categorias de judeus de seu tempo, entre estes certamente os fariseus, e isto desde o começo de seu ministério (cf. Mc 2,1-11.15-24; 3,6; etc.).

C. Além disso, há o fato doloroso que a maioria do povo judeu e suas autoridades não acreditaram em Jesus, fato que não é apenas histórico, mas que tem um alcance teológico, do qual são Paulo se esforça por desvendar o sentido (Rm cap. 9-11).

D. Este fato, acentuado na medida e na proporção em que a missão cristã se desenvolvia, sobretudo entre os pagãos, levou a uma ruptura inevitável entre o Judaísmo e a jovem Igreja, então irredutivelmente separados e divergentes no plano mesmo da fé. Esta situação se reflete na redação dos textos do NT e em particular dos evangelhos. Não é questão de diminuir ou dissimular esta ruptura, o que apenas prejudicaria a identidade de uns e outros. Contudo: ela não suprime o "laço" espiritual de que fala o Concílio ("Nostra Aetate", n. 4). Propõe-se aqui elaborar algumas dimensões deste "laço".

E. Refletindo sobre este fato, à luz da Escritura, especialmente dos capítulos citados da Carta aos Romanos, os cristãos não devem jamais esquecer que a fé é dom de Deus (cf. Rm 9,12) e que não se julga a consciência de outrem. A exortação de são Paulo para ninguém se "orgulhar" (Rm 11,18) com relação à "raiz" (ibidem) toma aqui todo o seu relevo.

F. Não se pode colocar no mesmo plano os judeus que conheceram a Jesus e não creram nele, ou que se opuseram à pregação dos Apóstolos, e os judeus que vieram depois e os de hoje. Se a responsabilidade daqueles na sua atitude para com Jesus permanece um mistério de Deus (cf. Rm 11,25), estes estão em situação inteiramente diferente.

O Concílio Vaticano II (Declaração "Dignitatis Humanae" sobre a liberdade religiosa) ensina que "todos os homens devem ser imunes de qualquer coação (...) de tal sorte que em assuntos religiosos a ninguém se obrigue a agir contra a própria consciência, nem se impeça de agir (...) de acordo com ela..." (n. 2). Esta é uma das bases sobre as quais se apóia o diálogo judeu-cristão, preconizado pelo Concílio.

22. A questão delicada da responsabilidade da morte de Cristo deve ser vista dentro da ótica da Declaração conciliar "Nostra Aetate" n. 4 e das "Orientações e sugestões" (§ III).

"O que foi cometido durante a Paixão não pode ser imputado nem indistintamente a todos os judeus daquela época, nem aos de hoje" ainda que "autoridades judaicas com seus adeptos tenham forçado a morte de Cristo". E ainda: "O Cristo, em virtude de seu imenso amor, submeteu-se voluntariamente à paixão e morte, por causa dos pecados de todos os homens e para que todos os homens alcancem a salvação", ("Nostra Aetate", n. 4). O Catecismo do Concílio de Trento ensina, além disso, que os cristãos pecadores são mais culpados da morte do Cristo do que os poucos judeus que nela tomaram parte. Estes, na verdade "não sabiam o que estavam fazendo" (Lc 23,34), enquanto nós o sabemos e muito bem (Pars I, caput V, Quaest. XI).

Na mesma linha e pela mesma razão, "os judeus não podem ser apresentados como condenados por Deus nem como amaldiçoados, como se isto decorresse da Sagrada Escritura" ("Nostra Aetate", n. 4), muito embora seja exato que "a Igreja é o novo Povo de Deus" (ibid.).


V. A liturgia
23. Judeus e cristãos fazem da Bíblia a substância de sua liturgia: para a proclamação da Palavra de Deus, a resposta a esta Palavra, a oração de louvor e de intercessão pelos vivos e mortos e o apelo à misericórdia divina. A liturgia da Palavra, na sua estrutura própria, tem origem no judaísmo. A Liturgia das Horas e outros textos e formulários litúrgicos têm seus paralelos no judaísmo, inclusive as fórmulas de nossas orações mais veneráveis, como o Pai-nosso. As orações eucarísticas igualmente se inspiram em modelos de tradição judaica. Como o diz João Paulo II (alocução de 6 de maio de 1982): "A fé e a vida religiosa do povo judeu, tais como são professadas e vividas ainda hoje, (podem) ajudar a compreender melhor certos aspectos da vida da Igreja. É o caso da liturgia...".

24. Isto é particularmente visível nas grandes festas do ano litúrgico, como a Páscoa. Cristãos e judeus celebram a Páscoa: Páscoa da história voltada para o futuro entre os judeus; Páscoa já realizada na morte e na ressurreição do Cristo, para os cristãos, embora sempre à espera da consumação definitiva (cf. supra 9). É ainda o "memorial" que nos vem da tradição judaica, com um conteúdo específico, diferente em cada caso. Há, por conseguinte, de parte a parte, dinamismo semelhante; para os cristãos ele dá sentido à celebração eucarística (cf. antífona "O Sacrum Convivium"), celebração pascal e, como tal, atualização do passado, vivida, porém, na espera "até que ele venha" (1Cor 11,26).


VI. Judaísmo e cristianismo na história
25. A história de Israel não acaba no ano 70 (cf. Orientações II). Ela continuou em particular em uma numerosa Diáspora que permitiu Israel levar ao mundo inteiro o testemunho – muitas vezes heróico – de sua fidelidade ao Deus único, e de "exaltá-lo diante de todos os viventes" (Tb 13,4) conservando a lembrança da terra de seus antepassados no mais profundo de suas esperanças (Seder pascal).

Os cristãos são convidados a compreender este laço religioso que mergulha suas raízes na tradição bíblica, sem por isso fazer sua uma interpretação religiosa particular desta relação (cf. Declaração da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, 20 de novembro de 1975). No que se refere à existência do Estado de Israel e suas opções políticas, estas devem ser consideradas sob uma ótica que em si não é religiosa, mas se referem aos princípios comuns do direito internacional.

A permanência de Israel (quando tantos povos antigos desapareceram sem deixar traços) é um fato histórico e um sinal a ser interpretado no plano de Deus. É preciso no entanto se desvencilhar da concepção tradicional de povo punido conservado como argumento vivo para a apologética cristã. Ele permanece o povo escolhido, a "boa oliveira, na qual foram enxertados os ramos da oliveira selvagem que são os gentios" (João Paulo II, 6 de março de 1982, com alusão a Rm 11,17-24).

É bom lembrar o quanto foi negativo o balanço das relações entre judeus e cristãos durante dois milênios. E sublinhar o quanto esta permanência de Israel se acompanha de uma criatividade espiritual contínua no período rabínico, na Idade Média, e no período moderno, a partir de um patrimônio que nos foi comum por muito tempo, de modo que, "a fé e a vida religiosa do povo judeu como são vividas ainda hoje (podem) ajudar a melhor compreender certos aspectos da vida da Igreja" (João Paulo II, 6 de março de 1982). A catequese deveria, por outra parte, ajudar a compreender o significado que tem, para os judeus, sua exterminação durante os anos 1939-1945 e suas conseqüências.

26. A educação e a catequese devem se ocupar do problema do racismo, sempre ativo em suas diferentes formas de anti-semitismo. O Concílio o apresentou assim: "Além disso, a Igreja não pode esquecer o patrimônio que ela tem em comum com os judeus, e, impelida, não por motivos políticos, mas pela caridade religiosa do Evangelho, deplora os ódios, as perseguições e todas as manifestações de anti-semitismo, quaisquer que sejam a época e os seus autores, dirigidas contra os judeus" ("Nostra Aetate", n. 4).

E as "Orientações" comentam: "Os elos espirituais e as relações históricas que prendem a Igreja ao Judaísmo, condenam como oposto ao próprio espírito do cristianismo toda forma de anti-semitismo e de discriminação que, aliás, a dignidade da pessoa humana, por si só, basta para condenar" (Orientações, preâmbulo).


VII. Conclusão
27. O ensino religioso, a catequese, a pregação devem preparar não somente para a objetividade, a justiça e a tolerância, mas também para a compreensão e o diálogo. Nossas duas tradições são tão próximas que não se podem ignorar. É preciso estimular um conhecimento mútuo em todos os níveis. Constata-se, em particular uma dolorosa ignorância da história e das tradições do judaísmo, do qual apenas os aspectos negativos e, muitas vezes, caricaturais parecem fazer parte da bagagem comum de muitos cristãos. É isto que estas notas gostariam de remediar. Assim, o texto do Concílio e as "Orientações" serão mais fácil e fielmente postos em prática.

(Maio de 1985)
Johannes Card. Willebrands – Presidente
Pierre Duprey – Vice-Presidente
Jorge Mejia – Secretário CELAM


Encontro Católico-judeu em Bogotá, 19 a 21 de agosto de 1985

Conclusões
Refletindo sobre diversos aspectos do Diálogo e sobre os progressos realizados após 20 anos da "Nostra Aetate", e depois de nos termos redescoberto como irmãos, com nossas diferenças e nossos elementos comuns, refletimos também sobre o trabalho a prosseguir.

Eis os pontos que mais nos interessaram e que devem marcar as prioridades de trabalho, em nossos futuros diálogos.
1. Princípios básicos
Neste encontro foram reafirmados os princípios básicos de nossas relações:
● Caminhamos na busca do sentido atual de nossa fé.
● As duas comunidades, cristã e judaica, têm uma missão divina, tanto na ordem religiosa como na social.
● A Revelação que nos é comum tem um conteúdo moral e exige de nós uma resposta atual a partir da própria vida de crentes.
● Queremos tomar mais evidente e palpável nossa visão comum bíblica do homem em sua relação com Deus e com os irmãos, ultrapassando os aspectos secularizados do ambiente em que se encontram católicos e judeus. Por isso, reafirmamos a dignidade de qualquer pessoa ou grupo, considerando essa dignidade o fundamento indispensável para a defesa dos direitos humanos.
● É de capital importância o reconhecimento do outro em sua alteridade, no respeito mútuo de nossas diferenças e na preservação de nossas respectivas identidades. Para tanto, exige-se verdade e sinceridade no diálogo.
● Reconhecemos a necessidade de um mútuo apoio entre judeus e católicos, sobretudo nos momentos difíceis.

2. Urgências
Precisamos refletir juntos de modo profundo sobre estes assuntos que nos parecem fundamentais para nossas duas comunidades em diálogo:
● Primeiramente, nossa fé comum no Deus Onipotente.
O mundo secular de hoje não pode esquecer sua presença. Ante a crise profunda e geral de nosso continente é necessário voltar nossos esforços para a conversão do coração humano. Que as autoridades religiosas, católicas e judaicas, e cada um de seus membros se proponham resgatar os valores morais e éticos e iniciar uma campanha de moralização da América Latina.
● A missão do povo judeu hoje (teologia do povo judeu) independe da vinda de Jesus e do acontecimento Jesus.
● Considerar o problema da salvação do ponto de vista dos judeus e dos católicos, para os quais o único salvador é Jesus.

3. Realidade de nossas desconfianças
a) Da parte cristã
● Na prática, em muitos lugares, a pregação e o ensino católico continuam com a mentalidade pré-conciliar, atribuindo o deicídio indiscriminadamente a todos os judeus e considerando a dispersão dos judeus um castigo divino, conceitos estes já superados pelos pronunciamentos de Vaticano II, sobretudo a "Nostra Aetate".
● Nesse sentido, vários preconceitos ainda perduram, como o desprezo pela palavra judeu, preferindo usar o termo hebreu. Identifica-se o judeu com o FMI, com as finanças internacionais e com o norte-americano que oprime o latino-americano.
● Do mesmo modo se equipara o sionismo ao racismo e se afirma que o povo judeu busca o poder para dominar o mundo. É a chamada conspiração judaica.
● Entre os católicos não há uma posição clara e definida sobre o significado da terra e do Estado de Israel para os judeus. Sendo de capital importância, tanto para os judeus que habitam Israel como para os que vivem na Diáspora, é tema básico para o diálogo.
● Os judeus são muitas vezes excluídos de certas organizações e atividades não-judaicas.

b) Da parte judaica
● Ainda existe entre os judeus uma certa reserva com relação ao diálogo que poderia levar à conversão, conseqüência do proselitismo cristão.
● A nova atitude da Igreja é vista com desconfiança. Prevalecem temores e lembranças de épocas passadas, o que dificulta a participação da comunidade judaica em atividades de diálogo.
● Freqüentemente os judeus se isolam e participam pouco das atividades sociais em seus próprios países.

4. O diálogo
● É o principal caminho para se vencer os preconceitos, é a melhor maneira de se conhecer, de escutar e de adotar novas atitudes de respeito para com o outro.
● As relações humanas e o intercâmbio pessoal são básicos no diálogo, fundamentam a amizade e derrubam barreiras e preconceitos que nos separam.

a) Níveis
● Em nível nacional, como na reunião anual dos bispos de cada país, através de comissões episcopais ou em reuniões ecumênicas.
● Nas reuniões de tipo ecumênico com outros pastores cristãos que podem favorecer a aproximação, é importante a participação de rabinos para partilhar em clima de diálogo, de muitos aspectos comuns: a oração, a vida espiritual, o serviço social.
● Para incentivar o conhecimento e a mútua comunicação, seria necessário estabelecer grupos ecumênicos ou nacionais, comissões mistas católico-judaicas que se reuniriam periodicamente a fim de promover e intensificar as comunicações e o diálogo.
● As fraternidades cristão-judaicas são o ambiente ideal para refletir sobre assuntos de interesse comum. Convém, portanto, fortalecê-las, apoiá-las, onde já existem, e criá-las onde seja necessário.

b) Áreas
● Educação
• Inserir, nos respectivos currículos educativos, temas sobre religião judaica e religião cristã, tanto para as escolas judaicas como para as católicas. Para isso, elaborar e fornecer material adequado e didático.
• Para um mútuo conhecimento é importante a difusão de documentos, de temas e de problemáticas comuns, aproveitando-se os periódicos, revistas e outros. É um meio também de tornar mais conhecidas as atividades importantes que se realizam no interior das comunidades católica e judaica. Para os cristãos é fonte de enriquecimento e reflexão que se vem fazendo a partir das Sagradas Escrituras.
• Quanto à linguagem, é necessário suprimir palavras pejorativas no vocabulário católico, nos dicionários, nas publicações em geral e nas notas explicativas da Bíblia. Nesse caso, deve-se estudar uma maneira de narrar os acontecimentos do Novo Testamento, respeitando a verdade.
• Os católicos devem conhecer a situação real dos judeus, de seus grupos, de sua maneira de viver, e as obras sociais que eles realizam em diversos campos de nossa realidade cultural latino-americana.
• Os judeus, por sua vez, devem conhecer melhor a situação dos cristãos para não confundir o termo católico com outras denominações cristãs, com algumas das quais já tiveram atritos.
● Área religiosa
• Muito se pode fazer neste campo. Nossas liturgias e celebrações nos oferecem riquezas que podemos aproveitar num intercâmbio de mútuo serviço. As cerimônias, a oração, os encontros de tipo espiritual, as conferências, as reflexões sobre a Bíblia, a doutrina da Toráh. Celebrações conjuntas da Palavra de Deus em sinagogas e igrejas, assim como reflexões sobre o Holocausto, festas e outras atividades.
● Área social
• Considerando a realidade dos problemas sociais dos países latino-americanos, as comunidades têm excelente via de cooperação. Estabelecer pontes e serviços que ajudem a solução dos problemas. Por exemplo, um comércio mais justo, a promoção de desenvolvimento agrícola e industrial, um serviço prestado por peritos israelitas e norte-americanos, como ajuda aos que solicitarem.
• Além deste intercâmbio, há outros tipos como: atividades intercolegiais, esportes, teatro, música, arte etc.
● Família
• A doutrina teológica e espiritual que nos é comum pode nos servir de base para uma cooperação em vários níveis. No social: encontros amistosos de conhecimento mútuo, ceias, visitas etc...
• Temas que merecem ser tratados são igualmente as perspectivas teológicas, a problemática familiar, a grande riqueza espiritual comum e a responsabilidade que ambos têm em relação ao mundo de hoje.
5. Atividades
● Antes de tudo, trata-se de um aprimoramento espiritual de nossas respectivas comunidades. Que cada um cresça em "Espírito e em Verdade".
● Difusão nas comunidades dos diversos documentos que são publicados e pelos meios ao nosso alcance para um intercâmbio de documentos do Vaticano e dos estudos sobre o tema do diálogo.
● Publicação de um texto que contenha todos os documentos do Vaticano II e os posteriores, em relação aos judeus, assim como os documentos de algumas conferências episcopais.
● Incentivar o conhecimento e o estudo desses documentos, tanto por católicos como por judeus: Sacerdotes, Religiosos, Rabinos e membros das duas comunidades mediante diversos encontros.
● O fato de a comunidade judaica não ter documentos oficiais não impede a elaboração de algum material básico que sirva às comunidades locais, como já se vem fazendo nos Estados Unidos. Seria um material para facilitar o encontro, o diálogo e o mútuo conhecimento. Portanto e importante promover:
• Jornadas de estudo e oração.
• Encontros em diferentes níveis: catequese, teologia, educação etc...
• Maior participação comum de pessoas e instituições em tarefas sociais.
• Reconhecimento mútuo do conteúdo e dos valores de nossas liturgias.
• Trabalho intensivo através dos respectivos currículos para a formação religiosa em todos os níveis: escolas, colégios, seminários, universidades etc...
6. Documentos básicos
Declaração "Nostra Aetate" n. 4, do Concílio Vaticano II, de 1965.
Orientações e Sugestões para a aplicação do n. 4 da "Nostra Aetate", 1975.
Normas para uma correta apresentação dos judeus no ensino católico, 1985 (em inglês), e o que foi assumido pelo Documento de Puebla, nn. 1103, 1110, 1116, 1123.
● Embora os judeus não tenham o mesmo tipo de documentos, nem organismos que os publiquem no estilo católico, que os Institutos e Organizações comunitárias judias que se ocupam das relações cristão-judaicas em vários países e em vários níveis, elaborem um material que sirva como motivação e fundamentem o diálogo entre a comunidade judaica e apresentem seus pontos de vista aos cató1icos. Nestes casos, a Bíblia judaica e algumas reflexões de sábios judeus a respeito, são de grande utilidade.
BRASIL
l. Orientações para os católicos no relacionamento com os judeus no Brasil
Estas Orientações foram elaboradas pela Comissão Nacional de Diálogo Religioso Católico-judaica, a pedido da CNBB. Foram examinadas na CEP de 26 de outubro de 1983. Nesta mesma ocasião a CEP aprovou a sua publicação para o conhecimento e uso das igrejas locais no seu diálogo com a comunidade judaica.
1. A tomada de consciência das fontes e da história do judaísmo e do cristianismo, após quase vinte séculos de coexistência, especialmente marcados pelos acontecimentos que na Europa antecederam de perto e acompanharam a Segunda Guerra Mundial, evidencia a necessidade de aproximação entre judeus e cristãos. Esta aproximação há de consistir em diálogo inspirado por sadio desejo de conhecimento recíproco e mútua compreensão.
2. Condição indispensável para o diálogo é, da parte dos católicos, o reconhecimento da consciência que os judeus têm de ser um povo inconfundivelmente definido por elementos religiosos e étnicos.
3. O primeiro elemento constitutivo do povo judeu é a sua religião, que aos fiéis católicos não é lícito considerar simplesmente como uma das religiões que existem atualmente na terra. Na verdade, foi através do povo judeu que na história da humanidade se implantou a fé no Deus único ou monoteísmo.
4. Note-se outrossim que, segundo a Revelação bíblica, foi Deus mesmo quem constituiu o povo hebreu; o Senhor educou-o após ter selado com ele uma aliança (cf. Gn 17,7; Ex 24,1-8). Ao povo judeu devem-se os cinco livros da Lei, os Profetas e os demais livros sagrados que completam as Escrituras israelitas e que os cristãos adotam como parte integrante da Bíblia.
5. Não se pode considerar o judaísmo como realidade meramente social e histórica ou como relíquia de um passado já concluído, mas faz-se mister levar em conta a vitalidade do povo judeu, persistente através dos séculos, até hoje. São Paulo afirma que Israel tem o zelo de Deus (cf. Rm 10,2); Deus não repudia o seu povo (cf. Rm 11,ls); nem retira a bênção que outorgou ao povo eleito (cf. Rm 11,28s.). Ensina que os gentios, qual oliveira selvagem, foram enxertados na oliveira de escol que é Israel (cf. Rm 11,16-19); Israel continua a desempenhar um papel importante na história da salvação, papel que redundará na consumação do plano de Deus (cf. Rm 11,11-15.23).
6. Donde se vê quão condenável é qualquer tipo de anti-semitismo: seja banido da linguagem cristã todo adjetivo ou toda expressão depreciativa referente ao povo de Israel, como também sejam profligadas todas as campanhas de violência física ou moral contra os israelitas. O povo judeu não pode ser tido como deicida; o fato de facções judaicas terem pedido a morte de Jesus diante de Pilatos não implica nódoa para o povo judeu como tal. A causa da morte de Cristo, em última instância, há de ser procurada nos pecados da humanidade em geral. Ademais o amor cristão, que é extensivo a todos os homens sem distinção para poder imitar o amor do Pai celeste (cf. Mt 5,44-48), há de abraçar o povo judeu e procurar compreender sua história e seus anseios.
7. De modo especial, a catequese e a Liturgia evitarão juízos desfavoráveis a respeito dos judeus. É para desejar que tanto os cursos de formação doutrinária católica como as celebrações litúrgicas ponham em relevo os elementos comuns a judeus e cristãos. Assim, por exemplo, é preciso lembrar que o Novo Testamento é ininteligível sem o Antigo Testamento; as festas cristãs de Páscoa, Pentecostes e as orações da Liturgia, especialmente os Salmos, têm a sua origem na tradição judaica.
8. Não se estabeleça contraste entre judaísmo e cristianismo como se, por exemplo, aquele professasse a Religião do temor , ao passo que este a Religião do amor. Na verdade, encontra-se nos escritos sagrados de Israel a origem das expressões do grande amor entre Deus e os homens, cf. Dt 6,4s; 16-9; Sl 73 e 139; Os 11; Jr 31,2s.19-22; 33,6-9.
9. Aliás, convém lembrar que o Senhor Jesus, sua mãe Santíssima, os Apóstolos e as primeiras comunidades cristãs foram da estirpe de Abraão. O cristianismo se radica, pois, na linhagem de Israel.
10. Quanto à terra de Israel, faz-se oportuno recordar que o Senhor Deus quis dar a Abraão e à sua descendência, como fruto da promessa, a antiga terra de Canaã, que os judeus habitaram. A ocupação romana e as sucessivas invasões do país de Israel acarretaram duras vicissitudes para o povo disperso entre nações estrangeiras. É de se reconhecer o direito dos judeus a uma existência política tranqüila na sua terra de origem, sem que isto acarrete injustiça ou violência a outros povos. E, para a consciência do povo judeu, este direito se concretiza no Estado de Israel.
11. Por último, seja enfatizada a expectativa escatológica que vivifica simultaneamente judeus e cristãos, embora com diferentes características. Uns e outros aguardam a plenitude do Reino de Deus; este, para os cristãos, já começou com a vinda de Jesus Cristo, ao passo que os judeus ainda aguardam o Messias. Como quer que seja, a perspectiva escatológica suscita em judeus e cristãos a consciência de estarem em marcha, à semelhança do povo que saiu do Egito em demanda da terra onde "correriam leite e mel" (Ex 3,8).

2. Declaração da I Conferência Pan-americana de Relações Católico-judaicas,
(São Paulo, novembro de 1985)
I. Histórico
1. Realizou-se em São Paulo, de 3 a 5 de novembro de 1985, na sede da Associação Brasileira "Hebraica", a 1ª Conferência Pan-americana de Relações Católico-judaicas, promovida pelo American Jewish Committee (AJC) e pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com 96 participantes convidados, provenientes de diversos países da América do Sul, Central e do Norte, inclusive observadores da Europa.
2. A abertura solene da Conferência teve lugar no teatro de "A Hebraica", com o auditório lotado. A solenidade foi coordenada pelo Rabino Henry I. Sobel e Frei Leonardo Martin. Após o Hino Nacional Brasileiro, foram convocadas à mesa diversas autoridades religiosas, políticas e civis, entre as quais
Dom Carlo Furno, Núncio Apostólico no Brasil;
Mons. Jorge Mejia, do Vaticano, Secretário da Comissão da Santa Sé para as Relações com os Judeus;
Mons. Antonio Quarracino, da Argentina, Presidente do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM);
Padre Bernard Dupuy, Assessor da Arquidiocese de Paris para as Relações com os Judeus;
Dom Eugênio de Araújo Sales, Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro;
Dom José Freire Falcão, Arcebispo de Brasília; Dom Cláudio Colling, Arcebispo de Porto Alegre; Dom Benedito de Ulhôa Vieira, Vice-Presidente da CNBB;
Dom Aloísio Bohn, da Linha Ecumênica da CNBB;
Sr. Rachamim Timor, Embaixador de Israel no Brasil;
Sr. Bernard Dorin, Embaixador da França no Brasil; e
Sr. Hans Herzberg, Presidente da Congregação Israelita Paulista;
além dos oradores abaixo relacionados.

Leram-se a seguir os telegramas de Sua Santidade o Papa João Paulo II e do Presidente José Sarney.
Tomaram a palavra durante a solenidade:
Dom Paulo Evaristo Arns, Cardeal Arcebispo de São Paulo;
o Governador do Estado de São Paulo, André Franco Montoro;
Dom José Ivo Lorscheiter, Presidente da CNBB;
Rabino Dr. Marc H. Tanenbaum, Diretor de Assuntos Internacionais do AJC; e
o Prof. Dr. Fritz Pinkuss, Rabino-Mor Emérito da Congregação Israelita Paulista.

O Cardeal Jean-Marie Lustiger, Arcebispo de Paris, proferiu uma palestra sobre o tema "De Auschwitz a Jerusalém: do Desespero à Esperança".

O interlúdio musical esteve a cargo do Coral Baccarelli e do Coral da Congregação Israelita Paulista. A solenidade encerrou-se com Hatikvá, o Hino da Esperança do Povo Judeu.

3. Na primeira sessão de trabalho, foram apresentadas duas palestras:
  1. "Um Observador Judeu no Concílio Vaticano II" (Rabino Dr. Marc H. Tanenbaum, de New York);
  2. "O Impacto de Nostra Aetate na América Latina" (Padre Humberto Porto, da Comissão Nacional de Diálogo Religioso entre Judeus e Católicos e do Conselho de Fraternidade Cristão-judaica de São Paulo).
Mons. Antonio Quarracino, Bispo de Avellaneda (Argentina) e Presidente do CELAM, foi o moderador desta sessão, cujo enfoque foi o 20° aniversário da Declaração Nostra Aetate.

4. Em seguida, o Embaixador José Oswaldo de Meira Penna falou sobre "A importância da Tradição Judaico-cristã na Formação da Cultura Brasileira".

5. Na segunda sessão de trabalho, relataram-se as experiências sobre o relacionamento católico-judaico em diversos países:
  1. nos Estados Unidos (Dr. Eugene J. Fisher, de Washington D.C., Secretário Executivo do Departamento de Relações Católico-judaicas da NationaI Conference of Catholic Bishops);
  2. nos meios hispânicos nos Estados Unidos (Padre Carlos Mullins, Diretor de Comunicações do Departamento Pastoral Hispânico da Arquidiocese de New York);
  3. na França (Padre Bernard Dupuy, de Paris);
  4. d) no Brasil (Dr. Hugo Schlesinger, da Comissão Nacional de Diálogo Religioso entre Judeus e Católicos e do Conselho de Fraternidade Cristão-judaica de São Paulo;
  5. no Uruguai (Rabino Daniel Kripper, da Nueva Congregación Israelita e da Confraternidade Judio-Cristiana de Montevidéu);
  6. bem como uma síntese do trabalho católico-judaico na America Latina, apresentada pelo Padre Luis Eduardo Castaño, de Bogotá, Secretário Executivo do CELAM.
Os moderadores da sessão foram Dom Aloísio Sinésio Bohn, da CNBB, e Sr. Jacobo Kovadloff de New York, Diretor de Assuntos Sul-americanos do AJC.
6. Na terceira e última sessão de trabalho, foram debatidas várias propostas, visando uma Declaração da I Conferência Pan-americana de Relações Católico-judaicas:
  1. "Cinco Séculos da Presença Judaica nas Américas" (Dra. Anita Novinsky, Professora de História do Brasil na Universidade de São Paulo);
  2. "Preconceitos" (Frei Félix Neefjes OFM, Assessor de Ecumenismo e Diálogo Religioso da CNBB);
  3. "Direitos Humanos" (Rabino Roberto D. Graetz, da Associação Religiosa Israelita e do Conselho de Fraternidade Cristão-judaica do Rio de Janeiro);
  4. "Liberdade na Bíblia e Libertação" (Padre Wolfgang Grueri SDB, do Conselho de Fraternidade Cristão-judaica de Belo Horizonte);
  5. "Católicos e Judeus: Encarando o Holocausto Juntos" (Sra. Judith Hershcopf Banki, de New York, Diretora-assistente de Assuntos Inter-religiosos do AJC);
  6. "Liberdade Religiosa e Identidade Cultural" (Dom Estêvão Bettencourt OSB, do Conselho de Fraternidade Cristão-judaica do Rio de Janeiro);
  7. "Sionismo não é Racismo" (Dr. Oswaldo Aranha Filho, Brasil).
Os moderadores da sessão foram o Prof. Arnaldo Niskier, membro da Academia Brasileira de Letras, e Dom José Freire Falcão, Arcebispo de Brasília e Presidente da Seção de Ecumenismo do CELAM.
7. As comunicações apresentadas no ato de encerramento foram:
  1. "A Patologia do Ódio e a Civilização do Amor" (Dom Avelar Brandão Vilela, Cardeal Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil);
  2. "A CNBB e os Judeus" (Dom Luciano Mendes de Almeida, Secretário Geral da CNBB);
  3. "O Vaticano e os Judeus" (Mons. Jorge Mejia, do Vaticano);
  4. "Os Judeus, a CNBB e o Vaticano" (Rabino Henry I. Sobel, da Congregação Israelita Paulista e Coordenador da I Conferência Pan-americana de Relações Católico-judaicas);
  5. "Católicos e Judeus na Nova República" (Dr. Marco Maciel, Ministro da Educação, Brasil).
II. Resoluções
Ao final dos trabalhos, a I Conferência Pan-americana de Relações Católico-judaicas adotou as seguintes resoluções:
1. Rever e consequentemente divulgar a história da presença, atuação e destino dos judeus na América e no mundo todo, em termos científicos, sem a carga preconceituosa que caracterizou a historiografia até os dias de hoje.
2. Opor-se a tudo o que possa dificultar o relacionamento positivo entre judeus e católicos, utilizando todos os meios para um conhecimento mútuo sempre mais profundo e favorecendo experiências participativas na vida de nossas comunidades.
3. Continuar colocando a Igreja e a Sinagoga – as comunidades católica e judaica – como centros irradiadores da preservação e consagração definitiva dos Direitos Humanos Universais, louvando sua prática e denunciando a violação dos mesmos.
4. Cuidar, na linha da Bíblia, que o nosso diálogo, mais que em meras especulações, se firme na tomada de posição inspirada na fé, junto aos oprimidos, seja qual for sua pertença étnica ou religiosa.
5. Estudar juntos, no diálogo de reconciliação, os acontecimentos históricos da Shoá – o Holocausto –, tentativa nazista de destruir o povo judeu na Europa, e suas implicações teológicas. Com este intuito, revisar, desenvolver e implementar currículos educacionais sólidos e equilibrados sobre o Holocausto e suas implicações para os dias de hoje.
6. Reafirmar o sagrado princípio da liberdade religiosa, que assegura a todos o direito de fazer , em consciência sincera, sua opção religiosa, princípio de sua identidade cultural, sem coação da parte de qualquer instância, seja estatal, seja particular.
7. Reconhecer que o sionismo – como expressão do eterno anseio de libertação do povo judeu e de seu retorno a Sion, terra de suas origens – não está eivado de despotismo ou racismo, mas é sim força motivadora da sobrevivência do povo judeu.

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