A. Catequese
A catequese foi sempre considerada pela Igreja como uma de suas tarefas prioritárias. Através da catequese, a Igreja transmite de modo orgânico os princípios da fé, sua tradição e a prática que deve acompanhar esta fé. Por isso, a catequese é também o meio privilegiado de preservar idéias e práticas tornando-as cada vez mais conformes com o evangelho.
A catequese é fonte de vida, partilha e comunicação das experiências de Deus, feita pelos homens e pelo povo de Deus através dos tempos que encontramos na Escritura e na Tradição. Não é um simples saber ou conhecimento do Novo Testamento. Trata-se da experiência, visão e espírito bíblico do Deus que se revela na história e que se dá a conhecer.
A transmissão desta experiência de Deus na história coloca-nos diante do povo de Israel. Ela se faz através das Escrituras e do próprio povo judeu que nos deu Jesus Cristo.
Raízes e herança judaica
As primeiras comunidades judeu-cristãs se formaram através de Jesus e de seu povo. Delas recebemos um patrimônio pelo qual nos tornamos responsáveis.
● O Novo Testamento está profundamente marcado por suas relações com o Antigo Testamento. Um dos princípios orientadores da catequese é lembrar que o Antigo Testamento é primeiramente Escritura judaica, comum a judeus e cristãos.
● Jesus, Maria e os primeiros discípulos eram judeus. Foram os primeiros a aceitar Jesus como Messias. Jesus nasceu, viveu e morreu como judeu.
● O judaísmo no tempo de Jesus não era uma unidade homogênea, mas bastante complexa. O conhecimento dessa complexidade evitará a perpetuação de diversos preconceitos, estereótipos de espírito antijudaico. Perceber as divergências religiosas entre saduceus, zelotas, essênios, fariseus. Aprofundar sobretudo o conhecimento do fariseu a partir da tradição judaica, e não somente da apresentação que se faz no Novo Testamento surgido num contexto polêmico. Descobrir a importância dos mestres judeus no tempo de Jesus, o seu respeito pela Escritura. A busca e a interpretação das mesmas Escrituras. O midrash e sua utilização pelos mestres, a tradição oral e o método pedagógico próprio do ensino nas sinagogas. Situar Jesus Mestre no contexto dos mestres de seu tempo, para melhor descobrir sua pedagogia e assim melhor transmitir sua mensagem.
● Ressaltam-se a importância da sinagoga e seu 1ugar na vida judaica desde o tempo de Jesus, a liturgia sinagogal e as festas judaicas vividas por Jesus e pelo povo judeu hoje, o sábado e a santificação do tempo, as raízes da liturgia cristã radicadas na liturgia judaica.
● O judaísmo não terminou em 70 com a destruição do Templo. Foi o que pensaram os cristãos durante séculos. Os cristãos do século XX convivem com o povo judeu e com o Estado de Israel.
O respeito pelas Escrituras
Para o judeu, a Bíblia é o livro por excelência, sempre atual e presente pela mensagem que traz para a vida religiosa, ritual e social, em sua concepção de Deus, do homem e do mundo.
Até o exílio de Babilônia, a vida e a prática religiosa do povo judeu estavam centralizadas no Templo de Jerusalém. No exílio, toda a vida judaica organizou-se em torno da Palavra e, posteriormente, fez-se a sistematização das Escrituras. No tempo de Jesus, já era conhecida na ordem que encontramos hoje: Toráh – Pentateuco, os 5 livros de Moisés; Nebiím – Profetas e Ketubím – Escritos.
As iniciais de Toráh, Nebiím e Ketubim formam o TaNaK. De todos os livros bíblicos, a Toráh ocupa o lugar mais eminente na tradição e na liturgia judaica.
A Toráh é a parte mais antiga da Bíblia e teria sido escrita por Moisés. Contém as verdades fundamentais sobre Deus e sobre o homem. Constitui um caminho para a vida religiosa e moral do indivíduo , é a garantia de unidade e perenidade do povo judeu.
Durante todos os séculos, a Torá foi lida, estudada e comentada. Além de ser um código legal, é para os judeus uma fonte de vida onde jorra o modelo de sua história e suas leis, que alimentam sua fidelidade ao Deus Único.
Nebiím (profetas) é formado por duas partes: os primeiros profetas, que compreendem os livros de Josué, Juizes, I e II de Samuel, I e II Reis, constituindo as narrativas que seguem a Torá e a conquista da Terra até a destruição do Templo de Jerusalém (586 a.C.), e os posteriores Profetas: Isaías, Jeremias, Ezequiel e os 12 ou menores profetas. Os profetas menores são formados pelos 12 livros colocados na Bíblia hebraica depois do livro de Ezequiel.
Ketubím, terceira parte da Bíblia, em termo grego Hagiógrafos. Abrange os Salmos, Provérbios. Jó, Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, Coélet, Ester, Daniel, Esdras, Neemias e Crônicas.
Quando Jesus fala aos discípulos sobre os acontecimentos, ele diz: "Isto é o que vos dizia quando ainda estava convosco. Era necessário que se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés (Toráh), nos Profetas (Nebiím) e nos Salmos (Escritos)".
Tradição oral – Toráh oral
A Toráh é o centro de onde tudo se irradia e para o qual toda a vida judaica converge. Consciente de tudo o que ela significa, o povo judeu desenvolveu uma verdadeira veneração pela Toráh.
A Toráh é doutrina, ensinamento, instrução, direção e também lei. É doutrina essencialmente voltada para a prática, é Revelação enquanto expressão da vontade divina a ser realizada e obedecida, caminho de justiça, de santidade, de verdade que leva à vida. Ao lado da Escritura, Toráh escrita, temos a Toráh oral que tem a mesma autoridade. Foi codificada aos poucos pela literatura rabínica.
De acordo com a posição tradicional judaica, se a Toráh escrita data diretamente de Moisés e contém uma revelação recebida no Sinai, a mesma coisa se afirma da Toráh oral. Sua função é dupla: de um lado ela completa, de outro ela interpreta e aplica a Toráh escrita. O problema da aplicação da Toráh escrita não cessa de se colocar em todas as épocas.
A tradição oral – tradição interpretativa – foi transmitida pelos mestres oralmente desde o exílio. Essas interpretações foram recolhidas por escrito, durante os séculos II a VIII d.C., dando nascimento às obras que conhecemos como Talmud e Midrash.
O Talmud inclui dois diferentes elementos: a Halakáh (lei) e a Hagadáh (narração). A Halakáh reúne os estatutos da oração oral, enriquecidos pelas discussões das escolas da Palestina e da Babilônia, para alcançar as fórmulas definitivas da Lei. A Hagadáh, partindo também do texto bíblico, ensina por meio de lendas, alegorias, reflexões de moral e reminiscências históricas. A palavra Talmud referia-se, no princípio, somente à Guemará; posteriormente o nome veio a ser aplicado a ambos: Mishnáh e Guemará e têm a seguinte relação entre si: a primeira é o texto e a segunda o comentário. O Talmud consiste de sessenta e três livros legais, éticos e históricos escritos pelos antigos rabis.
A palavra Midrash significa "interpretação" e designa a exegese bíblica baseada no método de "drash", que é uma análise minuciosa e microscópica do texto bíblico, verso por verso, e às vezes, letra por letra. Esta análise se aplicava tanto a textos jurídico-religiosos como folclóricos ou históricos. No primeiro caso se trata de Midrash Halakáh e no segundo, de Midrash Hagadáh. Essas foram as duas formas mais antigas da exposição midráshica, que deram origem às duas grandes categorias em que se divide o Talmud, Halakáh e Hagadáh.
O modo de interpretar e fazer "midrash" era comum aos tempos de Jesus. Através de parábolas, pequenas histórias, fatos, citação da Escritura, explicava-se o que Deus e a vontade divina esperavam e convocavam o povo a realizar. Nos Evangelhos, vamos encontrar inúmeras parábolas de midrash hagádico e também comentários haláhicos.
Judaísmo no tempo de Jesus
O judaísmo no tempo de Jesus não era uma realidade homogênea. Os estudos históricos e interpretativos do Novo Testamento descobrem, cada vez mais, que os evangelhos são testemunhos de diversas comunidades que floresceram em realidades diferentes. Para compreender o nascimento das Escrituras nas comunidades cristãs, é preciso hoje recorrer à história e tradição judaicas. Não podemos mais falar dos judeus sem perguntar como os judeus se compreendiam e como viviam nos primeiros séculos de nossa era.
A complexidade da vida judaica no tempo de Jesus é atestada pelos próprios evangelhos. Neles encontramos diversas categorias ou grupos de judeus: escribas, doutores da lei, saduceus, zelotas, fariseus e, implicitamente, o modo de vida dos essênios. O que une estes diferentes judeus é a Toráh, e o que os torna distintos é o modo de expressá-la e portanto de vivê-la.
● Saduceus – Em sua maioria, pertenciam à aristocracia sacerdotal, famílias ricas da aristocracia, dirigentes do povo. Sua autoridade se relacionava sobretudo com o que dizia respeito ao culto do Templo em Jerusalém. Colaboravam com os romanos, pois gozavam de muitos privilégios e, por isso, mantinham e lutavam pelo "status quo". Temiam todo movimento ou manifestação de transformação social, econômica, política ou religiosa. Desde o tempo dos Macabeus, eram inimigos dos fariseus. Este grupo desapareceu no ano 70 com a destruição do Templo. No plano religioso, só aceitavam a Toráh escrita. Não acreditavam na ressurreição e nem nutriam o ideal messiânico.
● Herodianos – O nome vem de Herodes, o Grande. Eram membros da casa de Herodes e de sua corte. Faziam parte da administração estatal. Apoiavam a dinastia de Herodes e, por isso, eram mais numerosos na Galiléia. Eram próximos dos saduceus pelos interesses e privilégios. No entanto, no que se refere ao imposto sonegado a Roma, estavam próximos dos zelotas, pois alimentavam o ideal de libertação da Galiléia do jugo romano. Faziam alianças de diversos tipos. Procuravam aproximar-se dos fariseus, pois tinham consciência da influência popular de que estes gozavam.
● Essênios – De um modo geral, contrastavam com todo o conjunto da vida de Israel. Viviam separados, em oposição aos outros grupos. Possuíam uma organização comunitária muito rígida, de espiritualidade apocalíptica, com a idéia de representar o verdadeiro Israel. Não tinham propriedade privada. Tudo era comum: casas, terras, rebanhos, roupas. Um membro eleito era responsável pelo recebimento de todo o lucro e pela compra do que era necessário à comunidade. O comércio era proibido entre eles. Recusavam-se a fabricar armas, e sua lei fundamental era viver em paz e do produto do próprio trabalho, evitando tudo o que pudesse fazer mal a outrem.
Muitas comunidades de essênios viveram próximo de aldeias ou nos desertos. O sinal exterior característico era uma túnica branca dada a todo neófito que se interessava pela comunidade.
Até bem pouco tempo, os essênios eram conhecidos somente pelos historiadores antigos. A partir de 1947, com as descobertas de Qumrã, grutas que ficam às margens do mar Morto, eles se tornaram mais conhecidos. Nestas grutas, foram encontrados muitos documentos da comunidade, manuscritos que revelam o modo de vida dos essênios.
● Fariseus – A origem dos fariseus parece datar da época dos Macabeus (1Mc 2,42; 7,13). No entanto, o movimento tem suas raízes no exílio e na volta do exílio, com Esdras e Neemias (Ne 8,7-8). Foi a partir desta época que a profissão do escriba passou a ser exercida, não somente pelos sacerdotes, mas também por leigos. Ligados, portanto, aos leigos, estudando e ensinando a Toráh, estes escribas aos poucos começaram a exercer a mesma função de liderança espiritual até então reservada aos sacerdotes. No início, eram pouco numerosos. Os fariseus são homens do povo: trabalhadores rurais, artesãos e comerciantes etc...
Convencidos de que Deus deu a Toráh a todo o povo e não somente aos descendentes de Levi (Ex 19,6), deduziram que não era necessário ser sacerdote para conhecer, ensinar e praticar toda a Toráh. Um doutor da lei leigo ou um filho de prosélito (convertido) vale mais do que um sumo sacerdote que ignora e não cumpre a Toráh.
No tempo de Jesus, os fariseus representavam as crenças, práticas religiosas e atitudes sociais da maioria dos judeus. Eram recrutados em todos os meios sociais, mas particularmente nos meios modestos das aldeias, onde a presença de uma sinagoga e, mais tarde, de uma escola permitiam estudar a Toráh aos pés de um mestre.
Havia um período de formação. Primeiro estudar a Toráh com o mestre, aprender a praticar a Toráh de modo a estar sempre em estado de pureza ritual: observar o sábado, as festas, orar, pagar o dízimo, comer somente o permitido e se portar em tudo como judeu-modelo. Após esta iniciação, a pessoa era admitida nas "haburot " (amigos, companheiros), confraria farisaica. As "haburot" eram abertas a todos, mas só se recebiam como membros os que levavam vida digna de membro do "povo de sacerdotes, nação santa", que deveria ser todo Israel.
Mas não podemos considerar os fariseus um grupo homogêneo. Há mesmo duas tendências opostas que dividem os fariseus. Duas grandes escolas: Shamai e Hillel. A escola de Shamai representa uma tendência rígida, menos humana e mais aristocrática. Até o ano de 41 d.C., antes do rei Agripa, os shamaítas vindos de famílias ricas foram mais fortes e tiveram influência junto aos saduceus. Os sacerdotes que pertenciam ao farisaísmo vinham, em sua maioria, da escola de Shamai. Após 70, eles sobreviveram por algum tempo em Lod, mas foi a tendência de Hillel que se impôs no final do século I d.C.
A escola de Hillel é mais humana e próxima do ensinamento de Jesus. A "regra de ouro" que encontramos em Lc 6,31: "Não faças ao outro o que não queres que façam a ti", aparece também na tradição judaica como sendo de Hillel. Paulo foi discípulo de Gamaliel I que, por sua vez, era discípulo de Hillel.
Geralmente, os fariseus admitiam o princípio de evolução em suas decisões legais, ao passo que os saduceus eram incapazes de adaptação a um ambiente em fase de evolução. Os fariseus eram assim, em geral, brandos em suas interpretações, enquanto os saduceus se apegavam à letra do texto escrito. Os fariseus colocavam a vida da nação dentro de uma estrutura haláhica expressa na Lei oral que consideravam não menos vital que a Lei escrita (a Bíblia). Sua doutrina aspirava a cobrir a vida inteira da comunidade, tocando portanto nos fundamentos teológicos da vida, nas questões de destino, de bem e de mal, de imortalidade da alma e de escatologia.
Os próprios evangelhos são testemunho da importância dos fariseus. E a idéia que temos do fariseu se tornou o modo mais comum de transmitirmos nossas idéias sobre os judeus e o judaísmo.
Nos evangelhos, os fariseus vêm assimilados aos saduceus, sumo sacerdotes e escribas, dando do fariseu uma idéia homogênea que se transformou em sinônimo de hipócrita, legalista, rigorista. Este modo de considerar o fariseu como maior adversário de Jesus, talvez não venha do contexto histórico vivido por Jesus, e sim das comunidades cristãs e judeu-cristãs, após a destruição do Templo e da Revolta Judaica de 135. A partir desta época os fariseus assumiram a organização e a direção espiritual do judaísmo.
● Zelotas – Procuravam implantar o Reino de Deus através de ações concretas. Representavam o nacionalismo judeu mais rigoroso. O nome zelota vem de "zelo pela lei", apoiados no ideal que remonta ao profeta Elias. Na grande maioria, pertenciam às camadas rurais mais pobres. Combatiam a dominação romana que criava uma realidade injusta. Vários autores indicam o início do movimento zelota com Judas, galileu, logo após a morte de Herodes, quando a Judéia foi transformada em província romana.
Consideravam o político e religioso intrinsecamente ligados; por isso, através da luta armada, cooperavam com a "vinda do Reino de Deus". Estavam dispostos a atacar e matar não só os romanos e estrangeiros, mas também os judeus colaboracionistas.
A conversão consistia na solidariedade, disponibilidade total e, se preciso fosse, até o martírio.
● Sinagoga – A origem da sinagoga permanece ainda obscura. A opinião mais provável é que ela começou a existir em Babilônia, durante o exílio, como substitutivo do serviço do Templo, ou talvez como imediata necessidade para os exilados se reencontrarem. Introduzida por Esdras na Palestina, logo se difundiu por toda a Erets Yisraêl. Alguns eruditos já defenderam a tese de que ela foi criação palestinense, inclusive anterior ao Templo, no tempo da reforma de Josias. A existência de sinagogas no século III a.C., no Egito, é documentada por inscrições e papiros. As descobertas de Delos são os testemunhos mais remotos. De qualquer sorte, a instituição sinagogal cresceu com o tempo e conheceu várias formas de existência. É o centro religioso, cultural e social da coletividade judaica. A palavra, que é de origem grega, significa reunião e é sinônima da palavra `ibrit: Kneçet.
Contudo, no tempo de Jesus, vemos que elas estão em pleno florescimento também em Israel, desempenhando um papel importante mesmo na liturgia do Templo.
Após a destruição do Templo em 70 e o fim do culto dos sacrifícios, a sinagoga tornou-se o "lugar" da vida religiosa, social e intelectual dos judeus até nossos dias.
● O sábado – Shabat – O Shabat começa na sexta-feira à tarde e termina no sábado à tarde. A partir do Decálogo e do conjunto da Lei judaica, este dia é um dia que não se trabalha. É um dia de repouso, de louvor ao Deus Único, Criador.
Antes que chegue a tarde de sexta-feira, tudo deve estar preparado. Em casa a mesa é posta, a mãe de família acende as velas do sábado com a "bênção da luz", e o pai pronunciará a bênção do vinho. Na sinagoga o ofício é celebrado com salmos e hinos próprios para acolher o sábado, e a bênção do vinho "Qidush" também é cantada. De volta a casa, as famílias se reúnem para a refeição preparada com carinho especial e onde se encontram entre amigos. O dia de sábado é reservado para a oração, estudo, visita aos doentes e aos amigos.
No ofício matutino da sinagoga, é lida a Toráh que é retirada solenemente do seu lugar especial – Arca Santa. Juntamente com a Toráh é lido um trecho dos profetas, às vezes seguido de homilia.
Na tradição judaica, o Shabat é sinal da Aliança entre Deus e a Criação. Sendo Israel o povo da Aliança, o sábado é o sinal por excelência desta Aliança entre Deus e Israel (Ex 31,13).
Para o judeu, guardar o sábado é testemunhar no meio dos homens o elo que os une a Deus que é proclamado como:
– Fonte de vida e de liberdade para o homem (Dt 5,15).
– Criador do Universo (Ex 31,17).
– Igualdade de todos os homens. Todos são filhos de Deus e portanto devem neste dia formar uma unidade diante do Criador (Dt 5,14).
O cristão conhece o Shabat pelos evangelhos. Jesus freqüentava a sinagoga aos sábados (cf. Lc 4,16-20; 6,6, e outros).
● Calendário judaico – O primeiro traço com que deparamos, analisando o calendário judaico, é a sua origem, ao mesmo tempo solar e lunar. De fato, o ano é solar e os meses são lunares. A duração do ano está determinada pelo tempo de evolução da terra ao redor do sol, ou seja, 365 dias e um quarto. Compreende também doze meses; visto porém serem lunares, e somarem portanto, ao todo 354 dias e meio, aparece uma diferença de 11 dias entre a extensão do ano solar e a do lunar. Para acertar o equilíbrio entre ambos, recorre-se ao ano de 13 meses, entremeado dos anos comuns. A proporção é de 7 anos de `ibur para um ciclo de 19 anos comuns, ao cabo dos quais a diferença é sanada. A duração do mês judaico é determinada pelo tempo que leva a lua em fazer a evolução ao redor da terra, isto é, 29 dias e meio. Como era preciso dar ao mês uma duração mais definida, por motivos práticos, facilmente explicáveis, atribuíram-se 29 dias a alguns e 30 a outros. Deste modo há no ano judaico cinco meses de 29 dias, cinco de 30, e dois cuja duração varia de ano para ano. O mês começa com a lua nova, e o primeiro dia chama-se Rôsh Hôdesh. Para os atos religiosos, os hebreus adotaram uma contagem, criando o calendário conforme cálculos baseados na Bíblia, que situariam a criação do mundo, 3.760 anos a.C.
B. Convivência
O encontro do judeu com o cristão não se efetua a partir do zero. Os séculos colocaram no caminho do diálogo muitos ressentimentos, suspeitas e mitos que precisam ser superados.
I. O primeiro obstáculo a ser removido são os mitos, pois o próprio judeu para muitos continua sendo um mito. Há mitos que tratam o judeu como sendo um ser irreal, atribuindo-lhe qualidades acima dos outros povos, e há os mitos negativos que fazem do judeu um aliado do diabo. No folclore medieval, o judeu era visto como tendo um pacto com o diabo, levando o crédulo à inferência de que batendo no judeu estava praticando um ato meritório de fustigar o diabo.
Para que haja diálogo precisamos, revendo os mitos, encontrar O OUTRO antes de tudo COMO SER HUMANO. Como em qualquer agrupamento humano, podem ser encontrados entre os judeus os praticantes e os apáticos, os inteligentes e os retardados, os honestos e os desonestos, os politicamente ativos e os alienados etc.
Assim sendo, na primeira fase da convivência deixemos que a realidade confronte o mito. Vide sugestões concretas para o debate no Item A – A luta contra o preconceito.
II. Se quisermos abordar a convivência de judeus e cristãos, teremos que enfrentar também uma suspeita: os judeus desconfiam que o diálogo religioso é travado pelos cristãos com a meta de convertê-los. Esta suspeita não é infundada, pois no passado o diálogo era em geral mantido com esta intenção. Não há verdadeiro diálogo, se o outro é visto como um candidato à conversão. Como a meta é a convivência, cabe evitar a doutrinação e o monólogo e substituí-los por um interesse genuíno nas diferenças e semelhanças das duas tradições. Uma lista de perguntas no Item B – Conhecendo o judaísmo – serve para provocar indagações que de fato reflitam a curiosidade dos interlocutores.
III. O reconhecimento mútuo, em nível de religiões, requer entre outros quesitos as seguintes posturas: para a convivência, é necessário compreender que os judeus consideram o Antigo Testamento não como um prefácio do Novo. Seria de grande proveito para o diálogo, se os interlocutores abordassem o texto "deixando o texto falar". Obviamente cada um dos leitores da Bíblia vem ao texto com uma série de associações de sua doutrina; trata-se de sua tradição da leitura do texto. Esta tradição interessante, e valiosa em si, muitas vezes abafa uma leitura renovada do texto. Propõe-se uma atitude sem idéias predeterminadas ao ler o texto do Antigo Testamento; sugere-se que o façamos com os olhos de quem o encontra pela primeira vez. Isto possibilitará o diálogo.
Em uma segunda fase nada impede de comparar como cada grupo compreendeu e interpretou um determinado texto à luz de sua tradição de ler as Escrituras.
Ao abordar textos, deve-se levar em conta um perigo que decorre da utilização cristã do Antigo Testamento, na sua polêmica do passado contra o judaísmo. Ao apresentar o "Velho" Testamento como uma preparação para o Novo, foi freqüente o hábito de contrastar os dois testamentos sempre com o intuito de mostrar a altura espiritual alcançada pelo Novo. Um ataque freqüente foi, por exemplo, que o Deus do "Velho" Testamento é o Deus da Justiça, enquanto o do Novo Testamento é o Deus do Amor. Justiça sem amor certamente se transformaria em tirania, como amor sem justiça não seria mais do que sentimentalismo. A verdade é que os que escreveram o Novo Testamento também souberam invocar a ira divina sobre os pecadores, enquanto os que escreveram a Bíblia hebraica também souberam falar com ternura do Amor divino. Há alguma exposição mais nobre do Amor de Deus do que o livro de Jonas, o Cântico dos Cânticos, o livro de Oséias e muitos dos Salmos?
Para compreender o judaísmo, uma outra necessidade seria o estudo da criatividade literária dos judeus nos primeiros cinco séculos da era cristã, literatura esta quase completamente ignorada pelos cristãos. Seria de grande vantagem corrigir a visão errônea de que o judaísmo na época de Jesus era "legalismo sem alma". O judaísmo conservou toda a sua vitalidade na época da Mishnáh (séc. I e II), do Talmud (séc. III a V) e dos Midrashim. Existem criações espirituais de valor, interpretações e correntes das mais variadas. O item C sugere o estudo de algumas fontes.
IV. Por esta razão, ao contrastar as duas religiões, deve-se tentar reconhecer o judaísmo como sendo uma religião completa, com sua própria criatividade, com seus aspectos espirituais originais, e isto requer uma nova postura para a convivência.
Um destes quesitos se refere à culpa dos judeus. Tendo os judeus de hoje sido absolvidos pelo Concílio Vaticano II da culpa de "deicídio", não mais se pode considerar os judeus como amaldiçoados. Contudo o sofrimento judaico neste século requer uma nova explicação. O Item D ousa sugerir uma fonte bíblica que merece ser estudada.
V. Um último requisito para uma convivência necessita ser abordado: o Antigo Testamento foi usado indevidamente contra os judeus. Dentro da polêmica do passado, as denúncias das transgressões do povo foram mantidas como referentes aos judeus, enquanto as mensagens positivas do futuro de Israel foram tomadas como referentes à Igreja. Com isto ficaram para os judeus as acusações, mas não as promessas.
Item A – A luta contra o preconceito
Alguém do grupo conhece um judeu? Em que medida os presentes que não conhecem judeus têm idéias preconcebidas? Há preconceitos na nossa sociedade? Estereótipos quanto a japoneses, negros etc. poderiam ser analisados.
Debate: Em que medida a malhação de Judas, tradição folclórica (conscientemente ou inconscientemente) ajuda a fortalecer preconceitos, violência, contra os judeus? Sensibilizar o grupo para o uso de palavras que levam uma carga preconceituosa em nossa língua.
Exemplos: O verbo judiar, trabalho de negro, negro com alma de branco, judeu errante etc.
Item B – Conhecendo o judaísmo
Sugestões – Visitar uma sinagoga. Planejar um Sêder. Explicar o que é a Toráh (rolo ainda hoje escrito a mão, lido na sinagoga). Analisar uma reza judaica.
Dar exemplos de organizações de judeus que ajudam judeus. Exemplos de contribuições de judeus para a cidade, o estado e o país. Contribuições de judeus à humanidade.
Por que os judeus que chegaram ao Brasil começaram como comerciantes?
Por que os judeus não acreditam em Jesus?
O Estado de Israel é como o Vaticano?
Por que há necessidade de um Estado de Israel?
Qual a diferença entre israelita e israelense?
Qual a diferença entre israelita e judeu?
O judaísmo crê em outro mundo?
Quais são os ideais proféticos de Justiça Social?
O Universal e o Nacional no judaísmo?
Estas perguntas não formam uma seqüência, ou um curso, elas são aqui enumeradas unicamente para sugerir outras indagações.
Item C – Fontes de estudos sobre a Mishnáh e o Talmud
Existe uma obra chamada Ética dos pais, que inclui dezenas de frases dos mais variados mestres da Mishnáh. Foi traduzida ao português e oferece amplo panorama do pensamento da época. Também as biografias de cada sábio mencionado oferecem inspiração. Há várias obras com frases do Talmud, mas deve-se levar em conta que na imensa literatura talmúdica, que é muito democrática, há opiniões das mais variadas e nem todos os pronunciamentos são normativos do judaísmo.
Item D – Sofrimento
Propomos o estudo do livro de Jó, onde o sofrimento é abordado sem que haja culpa.
Propomos que em algum momento se aborde o Holocausto com seus 6 milhões de vítimas. Há muitos livros que contam a coragem e os sofrimentos tanto de judeus, como de não-judeus, que se arriscaram para salvar vidas.
Projetos futuros:
Há no campo pedagógico um vasto trabalho a ser realizado.
Há necessidade de criar bibliografias de material existente.
Existe material audiovisual sobre a vida dos judeus de hoje, costumes, objetos rituais etc., mas este material precisa ser coletado e distribuído.
Deve-se criar cursos para preparar o diálogo nos seminários.
Impõe-se uma exegese que ajude a colocar os textos de épocas anteriores sob a perspectiva histórica, mostrando o contexto de afirmações polêmicas, e que se façam correções de textos usados para ensino.
Muitos projetos estão começando a se delinear.
C. Casamentos mistos
Em primeiro lugar, é importante definir "casamento misto". O termo se refere ao matrimônio entre duas pessoas de credos diferentes, cada uma das quais decidiu manter sua própria religião. Se um dos noivos se converteu anteriormente ao credo do outro, o casamento não é considerado "misto".
Por que o judaísmo é oficialmente e quase universalmente contrário a casamentos mistos?
É ponto pacífico que todos os rabinos ortodoxos ou de orientação tradicional são unanimemente contra os casamentos mistos. É oportuno mencionar que também a maioria dos rabinos reformistas tem a maior relutância em celebrar tais cerimônias.
Por quê? Qual o motivo dessa oposição?
Existem duas razões. A primeira é mais importante: a probabilidade de insucesso de tais casamentos. Psicólogos, sociólogos e orientadores de casais concordam que quanto mais duas pessoas têm em comum, tanto maior é sua chance de felicidade conjugal; e quanto mais diferem em aspectos socioculturais, tanto menor é a probabilidade de serem felizes como marido e mulher.
Clarence Louba, um conhecido professor de psicologia no Antioch College, disse certa vez: "Em todo casamento, existirão algumas diferenças consideráveis de interesses, atitudes e convicções. Mas um casamento não suporta um número elevado demais dessas diferenças. Diferenças ideológicas, religiosas e raciais estão entre as que mais atingem o relacionamento conjugal. Quando os cônjuges provêm de diferentes ambientes socioeconômicos, políticos ou religiosos, surge uma infinidade de possíveis fontes de atrito".
Isto é mais do que mera teoria. Roland Gittelsohn, em seu texto Fire in my Bones, cita estatísticas da Hungria que mostram uma taxa de divórcio três a quatro vezes maior, em casos de casamentos mistos, do que quando marido e mulher pertencem à mesma fé. Existem inúmeros outros estudos a respeito do assunto, os quais não discutiremos aqui. Mas a conclusão é clara: o convívio conjugal já é suficientemente difícil e complexo; acrescentar divergências religiosas aos problemas cotidianos só pode gerar maiores tensões e conflitos.
A segunda razão relaciona-se à sobrevivência judaica. Esta é uma questão na qual não podemos ser transigentes, pois sabemos que os casamentos mistos levarão, em última análise, ao completo desaparecimento do judaísmo e do povo judeu do palco da história.
Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos revela que, entre a geração de imigrantes, a porcentagem de casamentos mistos é da ordem insignificante de l%. Na segunda geração, a dos filhos destes imigrantes, a porcentagem eleva-se a 18%. E na terceira geração, alcança 40%. Ou seja, houve um aumento de 39% na taxa de casamentos mistos em apenas três gerações. No Brasil, embora não haja estatísticas oficiais, a proporção é a mesma. A tendência é inequívoca. Duas em cada cinco famílias da terceira geração são resultado de um casamento misto.
E os filhos desses casamentos? Se pudéssemos supor que a maioria destas crianças seria criada dentro do judaísmo, não estaríamos preocupados. Mas, infelizmente, não é o caso. Através de outras pesquisas, verifica-se que em 73% das famílias resultantes de casamentos mistos, os filhos não são judeus. Em outros 10% dos casos, apenas um filho é judeu, os restantes não. Somente em 17% das famílias mistas, todos os filhos são judeus. E é preciso acrescentar que, mesmo neste último caso, não se averiguou o grau ou a profundidade da identificação religiosa dessas crianças; foi simplesmente registrada a afirmação dos pais de que seus filhos são judeus. O mesmo fenômeno se verifica também do lado cristão.
O que se deduz de tudo isto? Primeiro, a taxa de casamentos mistos, que já é alarmante entre os judeus, tende a aumentar ainda mais. E segundo, na melhor das hipóteses, somente umas duzentas crianças, entre cada mil nascidas de tais casamentos, têm um mínimo de identidade judaica.
Isto não é mais tema para discussões teóricas. É uma ameaça real que não pode ser ignorada e que justifica plenamente nossa firme oposição aos casamentos mistos.
A família é o melhor meio para perpetuar os valores universais e as tradições religiosas. Acreditamos que todas as religiões são igualmente válidas. Porque Deus é um só. Mas existem caminhos diversos para se chegar a ele. E é preciso manter-se num deles, seja lá qual for, a fim de não se perder. Nunca atingiremos o universal obliterando nossas diferenças. Cabe à família judaica preservar o judaísmo, e à família cristã preservar o cristianismo.
Este dever é igualmente reconhecido pela Igreja Católica, a qual define como "misto" o matrimônio "entre duas pessoas batizadas, das quais uma tenha sido batizada na Igreja Católica ou nela recebida depois do batismo, e que não tenha dela saído por um ato formal, e a outra pertencente a uma igreja ou comunidade eclesial que não esteja em plena comunhão com a Igreja Católica" (cânon 1124).
O Código de Direito Canônico de 1917 adotava uma atitude de desconfiança total perante os matrimônios mistos: "...severissimamente a Igreja proíbe, em toda a parte..." (cânon 1060). O motivo fundamental dessa proibição era o perigo que tais casamentos poderiam representar para a fé da parte católica.
A maior compreensão dos princípios do ecumenismo cristão – sobretudo a partir do Concílio Vaticano II – modificou, em grande parte, esta atitude. É importante observar, entretanto, que esse abrandamento de atitude não se estende ao caso de "disparidade de culto", quando um dos cônjuges é batizado e o outro não. "No caso do casamento entre batizados, o qual é um verdadeiro sacramento, se estabelece uma certa comunhão de bens espirituais que, pelo contrário, falta no matrimônio contraído por cônjuges, dos quais um é batizado e o outro não recebeu o batismo. Não obstante tudo isto, não se deve minorar as dificuldades que subsistem mesmo nos matrimônios mistos entre batizados" (Motu Proprio "Matrimonia Mixta", Proêmio).
A razão básica da objeção da Igreja Católica aos casamentos mistos é idêntica à objeção por parte da Sinagoga: o matrimônio misto constitui, objetivamente, um obstáculo à completa fusão espiritual entre os cônjuges, pois entre eles existirá sempre algo bem importante que não é comum a ambos: a religião.
De acordo com as normas em vigor, a Igreja Católica só permite o casamento misto ("misto" no sentido restrito, isto é, entre dois batizados) se for concedida uma licença do bispo local. Para obter tal licença, é necessário que "a parte católica declare estar preparada a afastar os perigos de defecção da fé e prometa sinceramente fazer todo o possível a fim de que toda a prole seja batizada e educada na Igreja Católica" (cânon 1125,1°). Esta exigência é reiterada nas Normas Complementares da CNBB (1978).
O Motu Proprio "Matrimonia Mixta" aboliu as penas estabelecidas no Código de 1917 contra os católicos que tentassem casar num outro rito religioso ou com o pacto de educarem os filhos fora do catolicismo. Isto não significa, porém, que tais atos sejam agora considerados lícitos pela Igreja Católica. Muito pelo contrário, o Código de 1983 manda que "os pais (...) que confiam seus filhos para serem batizados ou educados numa religião acatólica sejam punidos com censura ou outra justa pena" (cânon 1366).
Em suma, tanto os judeus como os católicos afirmam a importância da unidade e unicidade religiosa da família, seja qual for a religião. Assumindo uma posição contra os casamentos mistos, estamos não só fortalecendo nossos respectivos credos, como também revigorando a instituição da família em nossos dias.
Fonte: Jewish-Christian Relations
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