Povo
Os termos "hebreu", "israelita" e "judeu" têm sido usados historicamente como sinônimos. A Bíblia se refere a Abraão como `Ivri (hebreu), porque ele migrou do outro lado (da margem leste) do rio Eufrates, e "`ivri" significa literalmente "do outro lado". Israel, também chamado Jacob, era o neto de Abraão. Seus descendentes passaram a ser conhecidos como "filhos de Israel", ou "israelitas". A palavra "judeu" deriva de Judá, a maior das Doze Tribos que habitavam a região. E assim, o povo é chamado até hoje de "judeu"; sua fé – judaísmo; seu idioma – hebreu ou hebraico; e sua terra – Israel.
Esse povo, Israel, teve início como uma família, a família de Abraão, o Hebreu, que viveu aproximadamente 3800 anos atrás. O credo monoteísta adotado por Abraão e a "Aliança com Deus" firmada por ele e reafirmada pelos seus descendentes, marcaram essa família como adeptos de uma nova fé.
À medida que a família foi crescendo em número e novos membros foram se juntando a ela, aceitando a Toráh, a Lei de Deus, como sua Constituição Divina, e tomando posse da terra que lhes havia sido prometida pelo Soberano do Universo, essa "família global" adquiriu as características de uma nação: um povo falando a mesma língua, habitando uma região geográfica específica, compartilhando memórias comuns e um destino comum.
Como base em sua origem, os judeus em toda parte consideram-se, até hoje, como membros de uma grande família. A condição de membro provém da mãe, ou seja, toda criança nascida de mãe judia pertence automaticamente à família. Porém, a família judaica nunca se restringiu à hereditariedade biológica. Ela sempre foi aberta a todos. Qualquer indivíduo que deseja aderir à fé desta família pode ser "adotado" por ela. Convertendo-se ao judaísmo, ele se torna um "filho de Israel", compartilhando plenamente a herança e os privilégios da família, bem como seus fardos e tribulações. Ao aceitar os deveres religiosos do presente e assumir um compromisso espiritual para o futuro, o convertido se vincula também ao passado coletivo da família judaica.
Apesar da particularidade do povo judeu, o universalismo permeia toda a fé judaica, refletindo-se em suas formulações teológicas ("Pois minha casa chamar-se-á Casa de Orações para todos os povos", Isaías 56,7; "O Senhor torne esta mulher que entra em tua casa [Rute, a moabita] semelhante a Raquel e a Léa, que fundaram a Casa de Israel", Rute 4,11; "Para que se conheçam na terra os seus caminhos e em todas as nações a sua salvação", Salmos 72,17). Embora, devido às contingências históricas, este universalismo nem sempre possa ter sido sublinhado, a família judaica continua tendo um caráter universal, que se evidencia na própria diversidade étnica e cultural dos seus adeptos. Existem judeus de toda espécie, brancos e negros, orientais e ocidentais, falando uma infinidade de idiomas diferentes.
Mesmo assim, os judeus se consideram verdadeiros irmãos, unidos por fortes laços de afinidade, talvez mais místicos do que racionais. Os historiadores e sociólogos nunca conseguiram encaixar os judeus em nenhuma das categorias convencionais. Os judeus obviamente não constituem uma raça, pois raça é uma designação biológica; eles não são apenas adeptos de uma religião, embora certamente o sejam; eles não são apenas uma nação, embora também o sejam. O problema é geralmente resolvido através do termo "povo".
Mesmo sendo um povo pequeno, os judeus nunca se afastaram da civilização. Pelo contrário, a história judaica está interligada com a de todas as nações e impérios do mundo. E apesar de serem tantas vezes desprezados, rejeitados, oprimidos e perseguidos ao longo dos séculos, os judeus e o judaísmo desencadearam grandes transformações e avanços revolucionários nas religiões ocidentais, na Ciência e na Filosofia.
Para que um povo numericamente insignificante tenha persistido tanto tempo no cenário da história universal, sobrevivendo a tantas tentativas de aniquilamento, deve haver algo de diferente ou especial. O judeu acredita que este "algo especial" é a Aliança entre Israel e Deus. De acordo com a Bíblia, "Deus escolheu o povo judeu dentre todos os povos da terra". O judeu aceita este status com humildade e gratidão, consciente de que tal distinção traz consigo uma enorme responsabilidade. Se os judeus foram escolhidos, é também porque escolheram servir a Deus. E o serviço a Deus assume diversas formas: estudar a Torá, observar fielmente os mandamentos, lutar pelos direitos humanos e por uma sociedade mais justa.
Os judeus acham que a missão divina da qual foram incumbidos constitui a própria razão da nossa existência. E tal missão não é fazer com que os outros povos se tornem judeus, mas sim fazer com que todos os povos do mundo, independentemente de suas respectivas crenças, reconheçam a soberania de Deus e aceitem os valores humanos que nos foram revelados por ele. "O dever do judeu", disse Eliel Wiesel, "não é fazer deste mundo um mundo mais judaico. O dever do judeu é fazer deste mundo um mundo mais humano".
Somente nestes termos os judeus podem encontrar uma explicação plausível para a sobrevivência do povo judeu diante de tantos obstáculos e ameaças à sua própria existência. E é nestes termos que conseguem descobrir o sentido mais profundo da história do povo de Israel : seu sofrimento, sua dispersão, suas realizações, sua força moral e seu retorno a Sion.
Terra
O vínculo entre o povo judeu e a terra de Israel nasceu na época de Abraão, quando Deus prometeu o território de Canaã ao Patriarca e seus descendentes, conforme relata o Livro do Gênese.
O êxodo dos israelitas do Egito, após um longo período de escravidão e opressão, e sua jornada até a Terra Prometida constituem o cumprimento histórico da Promessa Divina. Somente no solo de Israel, no local escolhido por Deus (o monte Moriá em Jerusalém), poderia ser construído o Santuário permanente do povo judeu; somente no solo de Israel os judeus poderiam realizar plenamente seu potencial como povo; somente no solo de Israel poderia se concretizar a promessa de Deus – desde que os filhos de Israel se mostrassem dignos das bênçãos divinas, obedecendo fielmente aos mandamentos e mantendo-se leais ao Pacto com Deus. Atendendo ao chamado divino, tornando-se um "Povo Santo", sua terra seria então uma "Terra Santa".
Após estabelecerem-se pela primeira vez na terra de Canaã há 3200 anos, os israelitas foram repetidamente subjugados por invasores. No século VI antes da Era Comum, os babilônios destruíram o Primeiro Templo e exilaram a maior parte dos judeus. No ano 70 da Era Comum, quando os israelitas já haviam voltado e reconstruído seu Santuário, o Segundo Templo foi destruído pelos romanos, e novamente os judeus foram dispersos pelo mundo afora. Foi então que começou a Diáspora.
Entretanto, onde quer que estivessem, os judeus nunca abandonaram a esperança de regressar à sua terra e restabelecer sua independência como nação. Não passava um dia sem que a Terra Santa estivesse presente em seus pensamentos, em seus sonhos, em suas orações. Através dos séculos, a terra foi conquistada sucessivamente pelos bizantinos, pelos árabes, pelos cruzados, pelos turcos e, finalmente, pelo exército britânico durante a Primeira Guerra Mundial.
Ao longo de todo esse tempo, alguns judeus às vezes voltavam individualmente à Terra Santa. Porém, uma campanha organizada visando um retorno em massa e o restabelecimento do Estado Judeu só começou a tomar forma no fim do século XIX. A essa campanha deu-se o nome de Sionismo: um movimento pela libertação nacional e pela cristalização da identidade nacional de um povo obrigado durante tantos séculos, a migrar de país em país.
Embora nem todos os judeus tenham participado ativamente desse movimento, todo judeu sempre esteve voltado para o ideal de Sion. Neste sentido, todo judeu sempre foi, e continua sendo, um sionista. Porque o anseio de retomar a Sion e reconstruir Jerusalém está inextricavelmente incorporado à fé judaica. Não se trata apenas de um desejo nacionalista, mas sim de um sentimento profundamente religioso, que traz consigo a perspectiva de uma futura era messiânica, uma era de paz para Israel e para toda a humanidade.
Bem, se o retorno à Terra Santa é parte essencial de todas as nossas rezas e rituais, se no dia mais sagrado do calendário judaico, Yom Kipur, o Dia do Perdão, terminamos nossas preces clamando "No ano vindouro em Jerusalém!" – não é de se estranhar o impacto emocional causado pela reconstrução do Estado de Israel e o restabelecimento de sua capital única e indivisível em Jerusalém. Mesmo para os judeus da Diáspora, que estão plenamente integrados na vida de suas respectivas pátrias e são totalmente leais a elas, a identificação espiritual com a causa de Israel é uma realidade constante e inabalável.
Israel é hoje uma nação dentro das mais nobres tradições democráticas. Uma nação que apresenta a marca inconfundível dos valores judaicos e da cultura judaica, garantindo ao mesmo tempo plena liberdade e igualdade de direitos a todos os seus cidadãos muçulmanos, cristãos, ou de qualquer outro credo. Uma nação na qual se refugiaram quase um milhão de judeus europeus, sobreviventes do Holocausto nazista, e mais de meio milhão de judeus vindos de países árabes, onde a vida se tornou intolerável para eles: Egito, Síria, Iraque, Argélia, Marrocos e Tunísia. Ainda hoje existem países onde as minorias judaicas sofrem discriminações e são proibidas de emigrar. Só nos resta esperar que todas as comunidades oprimidas conquistem em breve sua liberdade, comunidades judaicas e não-judaicas.
Que outra nação no mundo contemporâneo fala o mesmo idioma, professa a mesma fé e habita a mesma região de 3000 anos atrás? Não é difícil entender o apego emocional dos judeus à terra de Israel. É uma terra que lhes pertence não só por direito, mas, acima de tudo, porque constitui a concretização de uma profecia bíblica que é o esteio da história, da lei e da fé judaica.
Fé
Nenhum ensaio sobre o povo judeu seria completo sem algumas considerações sobre Deus, sobre o conceito judaico de Deus.
"Escuta, ó Israel, o Eterno é nosso Deus, o Eterno é Único" (Deuteronômio 6,4). Com estas palavras, nós, judeus, declaramos nossa fé na existência de um Deus Único e Indivisível, Criador do universo e de tudo. que nele existe. Numa ruptura radical com o politeísmo e a idolatria de sua época, Abraão, o Hebreu, foi o primeiro a expressar efetivamente esse credo monoteísta, tornando-se assim o Patriarca da fé judaica.
Não que Abraão tenha sido o primeiro ser humano a conscientizar-se dessa verdade espiritual. Segundo os pesquisadores, outros indivíduos antes dele já haviam manifestado uma crença semelhante. Porém, Abraão é considerado o fundador do monoteísmo porque, ao contrário dos anteriores – cujo monoteísmo foi um grande oásis num deserto espiritual, que se ressecou e desapareceu com sua morte –, Abraão dedicou o resto dos seus dias à propagação dessa fé. Ele a transmitiu ao seu filho Isaac; e Isaac por sua vez a transmitiu ao seu filho Jacó (Israel); e este aos seus doze filhos, chefes das Doze Tribos; e daí em diante o monoteísmo ingressou na corrente da história de Israel e de toda a humanidade.
A aceitação da existência de Deus é uma questão de fé. Deus é infinito e o homem é finito. Declaramos com fervor nossa fé num Ser Supremo, qualitativa e quantitativamente Único, porque sentimos sua presença na ordem do universo, no milagre da própria vida. Os avanços tecnológicos do homem e sua crescente capacidade de dominar o mundo físico, longe de gerarem em nós alguma dúvida quanto ao papel divino, aumentam ainda mais a nossa fé. Porque, no fundo, todas estas conquistas humanas são provas das múltiplas bênçãos dispensadas pelo Criador às suas criaturas. E não importa o quanto possa ser explicado cientificamente, chega um ponto em que nos deparamos com o mistério. Nas palavras de Abraham Joshua Heschel: "Este Mistério é Deus: impenetrável e indefinível".
Nas premissas fundamentais da teologia judaica – isto é, que Deus existe, que ele criou o mundo, que ele se revelou aos filhos de Israel e a toda a humanidade no monte Sinai – embora pertençam a uma esfera espiritual e seus mecanismos sejam desconhecidos, não há nada que possa ser qualificado de irracional. Na formulação do judaísmo, razão e fé não são antagônicas, mas sim, complementam-se mutuamente. Uma preenche as limitações da outra.
Segundo a concepção judaica, Deus não tem atributos físicos. As expressões bíblicas "a face de Deus", "a mão de Deus", "o olhar de Deus" são termos usados simbolicamente para traduzir numa linguagem assimilável pelo homem, aquilo que está além da nossa compreensão ("antropomorfismo"). São os atributos espirituais de Deus – sua justiça, sua bondade, sua misericórdia, sua compaixão, seu amor – que o caracterizam como Soberano do Universo, e nos estimulam a seguir uma conduta ética e moral digna daquele a cuja imagem fomos criados.
A fé judaica não termina com a Criação. É aí que ela começa. Ela reconhece que Deus continua a desempenhar um papel no universo que ele criou, orientando o comportamento de suas criaturas.
No cerne da doutrina judaica está a Revelação de Deus e a promulgação dos seus mandamentos no monte Sinai, após o êxodo dos israelitas do cativeiro no Egito. As leis de Deus estão expressas na Torá, escrita por Moisés sob inspiração divina. Além do Pentateuco (os cinco Livros de Moisés), a vontade de Deus se manifestou também através da Lei oral revelada a Moisés e comunicada verbalmente por ele aos líderes religiosos do povo de Israel. Esta "Torá oral" que esclarece e interpreta os mandamentos contidos na "Torá escrita", foi transmitida de geração em geração até o século II da Era Comum, quando foi compilada e codificada, sendo mais tarde incorporada no Talmud. Num sentido mais amplo, o termo "Torá" inclui também os livros dos Profetas, os Provérbios, os Salmos, o conjunto das Escrituras Sagradas e a vasta literatura rabínica.
Embora a Torá se dirija principalmente aos filhos de Israel, ela contém diretrizes para todos os homens, de todos os credos. As leis rituais, relacionadas com a prática religiosa, constituem apenas uma parcela dos seus preceitos. Os mandamentos da Torá, suas regras e estatutos, abrangem todos os aspectos da vida e do comportamento humano, especialmente a ética e a moralidade. São leis "vivas" constantemente reinterpretadas e atualizadas em função do mundo contemporâneo.
A Toráh é a constituição do povo judeu. É o alicerce da fé judaica. É o que torna o judeu verdadeiramente judeu.
Israel: Povo, Terra e Fé. Uma filosofia existencial de vida, que exige a perfeição ética de cada um de nós.
Correntes ideológicas
O judaísmo ortodoxo baseia-se na imutabilidade da Halakáh, a lei judaica. Uma lei que é divina em origem e conteúdo. O judaísmo reformista fundamenta-se na mudança. Seu próprio nome implica um judaísmo em desenvolvimento, progressivo e dinâmico. Mais um processo do que um programa, mais uma abordagem do que um credo ou dogma. É a transformação da forma visando o objetivo maior de preservar o conteúdo. O judaísmo conservador procura ser um meio-termo entre os dois. Vivendo com o passado, mas não no passado. Halakáh como ponto de partida, com a abertura necessária que possibilita sua aplicação no mundo contemporâneo.
No fundo, trata-se apenas de enfoques diferentes. Nada mais. Não devemos nunca esquecer que existe um único judaísmo, com diversas interpretações.
No Brasil, os movimentos reformista e conservador caem dentro de uma mesma categoria mais abrangente, denominada "liberal" ou "progressista". Quando falamos em judaísmo progressista, não estamos nos referindo a um novo tipo de judaísmo, mas sim a uma interpretação que reconhece e ressalta o caráter dinâmico da religião judaica. A corrente progressista dá uma ênfase maior àquela característica que é inerente ao judaísmo em geral: o princípio da progressão gradativa nos conceitos e nas formas da religião judaica. Mesmo assim, o judaísmo liberal tem suas raízes no passado e reconhece plenamente a validade e a dignidade da milenar tradição judaica.
Na verdade, a tradição judaica sempre foi interpretativa e progressista. Houve apenas um período entre os séculos XV e XVIII, quando se tentou "congelar" o judaísmo. A lei judaica foi então codificada no Shulehan Aruk, tornando-se rígida. Ser judeu era seguir aquilo que estava escrito nos livros.
Quando teve início a emancipação judaica, no século XIX, e os judeus começaram a sair do gueto, essa tradição inflexível deixou de satisfazê-los. Foi então que um grupo de judeus, inicialmente liderados por leigos, resolveu que estava na hora de "descongelar" a tradição. Este foi o princípio do movimento reformista.
Essa idéia de adaptar o judaísmo às necessidades contemporâneas não era nada de novo para o povo judeu. Controvérsias entre escolas "conservadoras" e "inovadores" já existiam desde os primórdios da nossa história. E, em todos os casos, o princípio predominante era sempre a liberdade de interpretação. Na verdade, nenhuma forma de judaísmo, em nossos dias, segue exatamente as leis conforme constam na Torá. Os ortodoxos interpretam o judaísmo de um modo; os liberais interpretam de outro.
O movimento progressista reafirma o direito e o dever de acelerar o processo de transformação sempre que ela se fizer necessária. Se determinados costumes e práticas deixaram de ser significativos, eles não têm mais razão de ser, e agarrar-se a eles mecanicamente é pôr em perigo a própria sobrevivência do judaísmo.
Os liberais insistem em que as alterações na Lei sejam feitas por aquela geração que sente necessidade delas, ao invés de esperar décadas ou séculos até que ocorra alguma modificação perceptível. As gerações de hoje podem e devem manter o judaísmo vivo, atualizando-o e adaptando-o às necessidades espirituais dos nossos dias. É perfeitamente possível ser judeu autenticamente religioso no Brasil, por exemplo, sem ser forçado a se enquadrar em moldes religiosos antiquados.
Os movimentos liberais – no Brasil em particular e na Diáspora em geral – proporcionam a milhares de judeus a possibilidade de preservar sua condição religiosa judaica sem ter que observar rigorosamente as minúcias da prática ortodoxa. Neste sentido, as correntes liberais tentam fazer uma contribuição vital à sobrevivência do judaísmo.
Muitas das inovações introduzidas na sinagoga pelo movimento reformista europeu e norte-americano foram aos poucos sendo adotadas pelas congregações liberais no Brasil: o uso de instrumentos musicais e coros para acompanhar o serviço religioso; e recitação de várias orações em vez do hebraico original; e a prédica semanal.
É importante observar que todas estas inovações são no campo do ritual e da liturgia. Nos pontos fundamentais do judaísmo, entretanto, existe muito pouca divergência real entre ortodoxos e liberais. Todos os judeus religiosos, sejam eles ortodoxos ou liberais, aceitam os conceitos tradicionais sobre Deus, o papel do homem no esquema divino, o papel do Povo de Israel na História, a importância e centralidade da sinagoga na vida judaica. Todos os judeus religiosos compartilham os mesmos valores éticos, todos têm o mesmo Shabat e os mesmos feriados.
O judaísmo liberal não é uma desculpa para sair do judaísmo, é um esforço para entrar. O judeu que não se prende à Halakáh, à lei judaica, tem que lutar para definir sua própria condição judaica. A ortodoxia pode ser fácil quando o indivíduo obedece cegamente às regras do judaísmo sem questionar. O judeu liberal, por outro lado, tem que optar entre várias alternativas, e muitas vezes tais opções não são nada fáceis! Um judeu progressista esclarecido e consciente não santifica o passado simplesmente por ser o passado; ele tenta tomar a tradição significativa no mundo de hoje. Dentro de cada área da observância judaica, ele tem a responsabilidade de analisar as exigências da tradição judaica e exercer sua autonomia, aceitando ou rejeitando com base nos seus próprios conhecimentos e no seu compromisso individual.
Por exemplo, os fundadores do movimento reformista consideravam desnecessário seguir Kashrut, as leis alimentares bíblicas, porque – segundo eles – essas normas haviam sido estabelecidas em outra época, sob influência totalmente estranha ao contexto social e espiritual do período da Reforma. Hoje, entretanto, um número crescente de judeus liberais no Brasil está observando a Kashrut por razões de identificação judaica. Trata-se, porém, de uma escolha pessoal e não de uma imposição legal.
Quanto à Shabat, a maioria dos judeus progressistas não obedece as prescrições legais referentes ao dia do descanso. Para eles, observar o Shabat significa torná-lo um dia especial, diferente dos outros dias da semana: acendendo velas, recitando a bênção sobre o vinho (Qidush), servindo o pão especial (Haláh), reunindo a família para uma refeição festiva, assistindo aos serviços religiosos sexta-feira à noite e/ou sábado de manhã.
Em resumo: o judaísmo liberal não é uma espécie diferente de judaísmo. É judaísmo: histórico, clássico, tradicional – porém determinado a se manter sempre contemporâneo, determinado a inspirar o povo judeu a cumprir sua missão como "uma luz para as nações", um modelo de comportamento ético, um parceiro de Deus na construção de um mundo melhor. Aquilo que em hebraico chama-se tiqqún `olám, o aperfeiçoamento da obra da criação.
Os antigos profetas de Israel jamais esconderam o fato de que se preocupavam menos com cerimônias e rituais, e muito mais com a proteção aos fracos, aos pobres, aos desamparados, aos oprimidos. Para eles, a maior prova de fé era a ação. E este é o enfoque do judaísmo, seja ele liberal ou ortodoxo: contribuir judaicamente para a criação de uma sociedade mais digna, mais justa, mais humana.
Fonte: Jewish-Christian Relations
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