Quando Pedro Álvares Cabral zarpou de Portugal, em 1500, trazia consigo Gaspar da Gama, navegador. Judeu de origem polonesa, foi obrigado a converter-se ao cristianismo, durante a Inquisição. Levado para Portugal em 1498, por Vasco da Gama, ganhou a confiança do governante português.
Foi Gaspar da Gama que alertou os judeus, convertidos ao cristianismo, sobre a importância que o novo território poderia ter em sua vida. Foi assim que um grupo de cristãos-novos, como eram chamados os conversos, encabeçados por Fernão de Noronha, obteve uma concessão do governo português para a colonização e exploração da nova terra. O mais antigo documento relativo a essa concessão, data de 1502.
O contrato definia que os arrendatários se encarregariam de mandar, anualmente, seis barcos para o Brasil, descobririam 300 léguas de novas terras, construiriam e manteriam fortificações nos territórios recém-descobertos. Em troca, era-lhes concedido o monopólio do país, isto é, o corte e a exportação de pau-brasil e de todas as demais mercadorias lucrativas.
Em 1503, o próprio Fernão de Noronha participou da primeira expedição, descobrindo, nesse mesmo ano, uma ilha próxima à costa setentrional do Brasil, que chamou de São João, mas que se tornou conhecida sob o nome de Ilha de Fernão de Noronha (atualmente Território de Fernando de Noronha). Colonizou, também, 50 léguas de terras na costa do Brasil.
Em reconhecimento pelos serviços prestados no passado e os que se esperavam no futuro, em consideração à descoberta da ilha e pela colonização das terras, D. Manuel, em decreto de 16 de janeiro de 1504, nomeou Fernão de Noronha "Cavaleiro da Coroa" e donatário da ilha por toda a vida, sendo o seu filho mais velho o herdeiro do direito da Capitania. Assim, ele foi o primeiro donatário do Brasil, apesar de que somente em 1532 foi implantado o sistema de Capitanias Hereditárias.
Com a implantação desse sistema a migração de cristãos-novos cresceu, pois os arrendatários não conseguiam colonos e foram obrigados a utilizar o único elemento de que dispunham. Mas não restam dúvidas de que foi somente a partir das perseguições iniciadas contra os conversos que a imigração aumentou significativamente.
Apesar da Inquisição ter atuado em Portugal desde 1447, quando D. Manuel forçou todos os judeus a se submeterem ao batismo, as restrições não os impediam de imigrar para a colônia. E aqui, cada vez mais, exerciam função preponderante, devido ao seu relacionamento com os indígenas e à exploração comercial do país.
Duarte Coelho, governador de Pernambuco, contratou judeus para montarem os engenhos açucareiros. A falta de colonos e as dificuldades enfrentadas pelos portugueses, na colonização e exploração do novo território, forçavam o governo central à tolerância maior para com cristãos-novos. Sua situação tornou-se mais difícil a partir de 1526, quando se estabeleceu em Portugal o Tribunal do Santo Ofício.
Vozes da colônia levantaram-se contra a instalação do Santo Ofício no Brasil. Tomé de Souza declarou que não seria possível mantê-lo sem o auxílio de um forte exército, pois os cristãos-novos estavam estabelecidos tão firmemente, que uma perseguição antijudaica poderia, inclusive, provocar distúrbios com a população local.
Símbolo de integração dos cristão-novos com a população local foi o casamento de João Ramalho, herói da colonização, com a índia Bartira, filha do poderoso cacique Tibiriçá. Seu relacionamento com os aborígines facilitou, e muito, o estabelecimento de portugueses na região de Santos e de São Paulo. Martim Afonso de Sousa, governador dessa Capitania, conferiu-lhe o título de governador militar de Piratininga. Foi João Ramalho quem impediu o ataque dos índios contra a frota de Martim Afonso, em 1532. João Ramalho nunca se declarou judeu, mas sempre se negou a praticar o cristianismo.
Durante o domínio holandês, a vida dos judeus ou cristãos-novos trouxe muitas transformações, entre as quais a liberdade religiosa. A criação da Companhia das Índias Ocidentais foi o início da penetração holandesa no país, através da Bahia, em 1624. Os holandeses adotaram imediatamente uma política de tolerância religiosa e proteção aos residentes da cidade. Com certeza havia judeus vindos na expedição holandesa, apesar de não se saber ao certo o número. Mas os holandeses foram expulsos da Bahia, em 1625. Em 1630 voltam a se instalar no Recife.
Em 1637 a Companhia das Índias Ocidentais nomeou Maurício de Nassau governador do Brasil Holandês, em Pernambuco. Foi o período de maior prosperidade da comunidade judaica no Brasil, estimulando a vinda de judeus da Holanda.
Os judeus exerciam várias profissões. O engenheiro Baltazar d’Afonseca construiu uma ponte para unir a ilha Maurício ao Recife (1640). Porém, a ocupação mais importante dos judeus, sem dúvida nenhuma, era o comércio de ultramar, de importância vital para a colônia. Nos meados do século XVII, há várias resoluções do Governo para que se paguem letras de câmbio a comerciantes judeus por mercadorias remetidas ao Supremo Conselho da Colônia.
A imigração de judeus vindos da Holanda marcou a primeira estruturação da comunidade judaica no Brasil. Foram esses imigrantes que organizaram a comunidade do Recife segundo o modelo de Amsterdã, sob o nome de Tzur Israel de 1640 a 1654. Havia uma escola, chamada Etz Hayim – Árvore da Vida, um cemitério e uma sociedade beneficente. Para manter a disciplina foi decretado que poderia haver apenas uma comunidade em cada local e que cada nova congregação deveria receber a aprovação do Recife.
Com a saída dos holandeses, em 1654, a vida judaica se desestruturou, as relações comerciais definharam e muitos judeus abandonaram o país, emigrando para outras colônias da Holanda, como Suriname e Curaçau. E recomeçaram as perseguições aos judeus e aos cristãos-novos.
Antes mesmo da expulsão dos holandeses, muitos judeus haviam abandonado a região, transferindo-se para o Rio de Janeiro e São Paulo. A atuação da Inquisição mostrou-se negativa para o próprio governo. O confisco dos engenhos açucareiros provocou o estancamento da economia.
Com tantas perseguições, os judeus e os cristãos-novos se perderam como grupo distante, porém sua tradição ficou marcada em vários segmentos e valores do povo brasileiro, como as lutas pelo liberalismo.
Um de seus maiores expoentes foi Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, que lutou para conseguir libertar o Brasil do jugo português. Hipólito José da Costa Pereira Fagundes de Mendonça, brasileiro de origem cristã-nova, foi funcionário português, porém teve que abandonar o Brasil devido a suas idéias liberais (1774-1823).
As lutas pela independência se estendem por todo o Brasil. A primeira loja maçônica (supõe-se que os fundadores também tinham origem cristã-nova) fundou-se em 1807, na Bahia. Suas atividades, suas idéias tiveram influência em todas as lutas revolucionárias dentro do Brasil, inclusive na revolução de 1820. Logo após a proclamação da Independência, D. Pedro I redigiu a nova Constituição que dava total liberdade de culto. Constituiu-se, então, a primeira congregação religiosa judaica no Brasil, em Belém, em 1822.
As primeiras comunidades judaicas do Brasil moderno estabeleceram-se no norte do país, durante o governo de Pedro II. Até 1812, a imigração era proibida e, alguns anos mais tarde, o arrendamento de terras a não-católicos também. Posteriormente, com o implemento da colonização em grande escala, o governo brasileiro favoreceu a vinda de italianos, alemães e espanhóis. Com eles, vieram também vários judeus, originários, principalmente da Alemanha, Hungria e países do oeste europeu.
As primeiras manifestações de uma vida social judaica criaram-se a partir da vida dos judeus sefaraditas, de Marrocos, que se estabeleceram em Belém, Bahia, Manaus e outros lugares ao norte. Após longa luta para integrarem-se economicamente, esses grupos prosperaram e criaram comunidades bem organizadas, de prestígio e com vários membros atuando dentro da vida política brasileira.
As duas comunidades – a da região amazônica e a do Rio de Janeiro – não mantinham entre si quaisquer relações de grupo e apresentavam, aliás, características diferentes.
A coletividade amazônica era mais estável. Os judeus marroquinos vinham pelo extremo norte do Brasil com a intenção de ali se radicarem, tendo, em conseqüência, alargado com o tempo o seu campo de atividades, especialmente no setor de navegação e exploração de seringais, afora a sua participação nas atividades públicas e no exercício de cargos oficiais.
Já no sul, os judeus, originários do oeste europeu, vinham com o objetivo de tentar uma vida normal. Muitos dedicando-se, no Rio de Janeiro e em Estados vizinhos, às ocupações comerciais.
Do Rio de Janeiro e de Belém, os judeus se espalharam por todo o país, principalmente em São Paulo e em Minas Gerais, onde muitas famílias brasileiras, como os Moretzon, Isacson, Prado, Schneider, Figueiredo, são de origem judaica.
Na última década do século XIX e durante a primeira do século XX, a imigração judaica cresceu de vulto, multiplicando-se os países de procedência e também as regiões em que os imigrantes passavam a fixar-se no Brasil. Enquanto, até então, os imigrantes judeus provinham quase exclusivamente do norte da África e do Ocidente europeu, já agora passaram a chegar também levas de judeus do Mediterrâneo oriental – Grécia, Turquia, Síria, Líbano e Palestina – bem como da Rússia e países vizinhos. Localizavam-se de preferência na zona sudeste do país – Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais – mas também se disseminando, em pequenos núcleos, por muitos outros Estados, tanto do sul como do nordeste.
O quadro das principais concentrações israelitas do Brasil, no ano de 1910 – às vésperas do início da vida judaica organizada no país – pode ser apresentado nestes termos sucintos: no extremo norte – o agrupamento da Amazônia, datando de 1822, isolado e conservador, de origem norte-africana ; no extremo sul – o conjunto de colônias judaicas do Rio Grande do Sul, com imigrantes de origem russa; e no sudeste – o eixo Rio de Janeiro-São Paulo, com numerosos núcleos satélites, resultantes de uma imigração cosmopolita.
A imigração judaica ao Brasil, nos anos de 1900 a 1920, é calculada ao redor de 200 pessoas. Após a Primeira Guerra Mundial, o número de imigrantes judeus aumentou muito, e calcula-se que, entre 1920 e 1930, entraram no país cerca de 30 mil judeus. A maior parte dessa corrente migratória provinha da Bessarábia, .Romênia e Polônia e era conseqüente à desorganização econômica vigente naqueles países.
Durante a Primeira Guerra Mundial surgiram as primeiras instituições judaicas ashquenazitas e sionistas. Em Porto Alegre, foi fundado o jornal em idish, Di Menshheit, provavelmente o primeiro no gênero, no país. Em 1916, no Rio de Janeiro, fundou-se a Sociedade de Assistência das Senhoras Israelitas, cujo objetivo é a beneficência. Mais tarde, outras similares foram fundadas em todo o país.
No ano de 1933, a vida judaica penetrou em nova fase, devido ao regime restritivo à imigração, instituído em 1931. Sobreveio no mesmo ano de 1933 o movimento nazista, cujo espectro acabou atingindo as plagas do Brasil.
Freada a liberdade de reunião, a vida social judaica ficou por vários anos reduzida a atividades religiosas e beneficentes, cabendo mencionar a este respeito o valioso concurso trazido pelos imigrantes judeu-alemães, que começaram a afluir ao Brasil depois de 1933, os quais, com muita eficiência, organizaram suas próprias instituições.
Terminada a Segunda Guerra Mundial, em 1945, os ideais democráticos voltaram a dominar o país, dando azo a que se reanimasse a vida coletiva dos judeus do Brasil. As sinagogas foram surgindo conforme o aumento da imigração. Após o Holocausto, as ondas migratórias cresceram e o número de instituições judaicas multiplicou-se.
Na década de 80 havia cerca de 170.000 judeus no Brasil, sendo 70.000 em São Paulo, cerca de 60.000 no Rio de Janeiro e o restante distribuído em diversas cidades do território nacional.
Existem comunidades judaicas desde o extremo norte até o extremo sul. As da Amazônia e Pará, embora em pequeno número, guardam tradição secular. Recife, Salvador, Curitiba, Belo Horizonte contam com centros comunitários bem desenvolvidos. Existem comunidades menores em Niterói, Nilópolis, Petrópolis, Campos, Juiz de Fora, Santos, Campinas, Sorocaba, Franca, Ponta Grossa, Passo Fundo, Pelotas, Santa Maria, Cruz Alta, Santana do Livramento e Uruguaiana. Nas cidades de Fortaleza e Maceió vivem apenas algumas famílias.
O incremento demográfico dos judeus no país não é devido somente à imigração. Nos últimos decênios restringe-se mais ao crescimento interno, concorrendo para tanto a convivência comunitária.
A coletividade judaica do Brasil é hoje, numericamente, a segunda na América Latina, cuja maior comunidade, 350.000, vive na Argentina.
As primeiras sinagogas no Brasil funcionaram, inicialmente, para os serviços religiosos diários, em salas alugadas, até que se tornava possível a construção de uma sede própria. Nas comunidades maiores, por ocasião da celebração das datas mais importantes, tais como Rosh Ha-Shaná e Yom Kipur, alugavam-se especialmente salões espaçosos para acolher todos os fiéis. Convém salientar que, embora ligados a sua fé e a suas tradições, nem todos os judeus professam a religião. Muitos dos primeiros imigrantes aqui chegados, mesmo os que provinham de regiões onde em regra se recebia uma educação religiosa intensiva, só compareciam à sinagoga em ocasiões extremamente solenes, como seja para recitar as orações em memória dos mortos – o Izkor ou o Kadish.
Marcando o início da vida associativa, fundou-se no Rio de Janeiro, em 1910, a primeira sinagoga congregando elementos ashkenazim, denominada Centro Israelita do Rio de Janeiro. Posteriormente, na Praça 11 de Junho, onde estavam concentrados os judeus da referida origem, surgiram, sucessivamente, as sinagogas Beth Jacob, Beth Israel, Mahzikei Hadas, Adas Israel e Ezras Israel. A comunidade sefaradita já possuía sua sinagoga desde 1846. Nas comunidades do interior do Brasil, desde o Norte até o Sul, o início da vida associativa se processava do mesmo modo. Ainda hoje, apesar de no Rio de Janeiro e em São Paulo já se terem construído grandes sinagogas em vários bairros, funcionam "minyanim" em locais alugados, e nas grandes datas, que congregam maior número de fiéis, celebram se orações em sinagogas provisoriamente montadas. Também no interior ocorre o mesmo fato.
O culto nas sinagogas do Brasil segue, na sua maioria, o rito ortodoxo. Verificam-se, todavia, certas nuanças diferenciais entre os sefaradim e ashkenazim. Com a chegada dos judeus alemães foram instaladas, primeiro no Rio de Janeiro, depois em São Paulo, e ultimamente em Porto Alegre, as sinagogas de corrente-liberal.
A aproximação mútua entre a coletividade judaica e a população geral se manifesta através de mostras de solidariedade e reconhecimento, tanto por parte do povo como das autoridades do país. Convém citar como exemplo os seguintes fatos:
No Rio de Janeiro existem escolas públicas com os nomes de Anne Frank, Estado de Israel, David José Perez, este homenageado pelos relevantes serviços prestados como educador, e Wolff K. Klabin, como reconhecimento pelo muito que realizou como homem de empresa, no campo da beneficência e filantropia; ruas com nome de Theodor Herzl e Stefan Zweig, praças com nome de David Ben Gurion e Haím Weizmann, e um busto em jardim público, na Glória, em homenagem a Lasar Segall.
Em São Paulo existe a Avenida Albert Einstein, ruas com nome do Estado de Israel, Alexandre Levy , Embaixador Horácio Lefer, Heróis de Varsóvia, Theodor Herzl e Combatentes do Gueto. Em Santos há uma rua com o nome de Estado de Israel.
Em Porto Alegre, encontram-se a Praça Theodor Herzl, a Rua Estado de Israel e o Colégio Anne Frank, e o Monumento aos Farrapos que foi doado à cidade pela coletividade judaica.
Em várias outras cidades do país, logradouros públicos levam o nome do Estado de Israel e de figuras judaicas eminentes.
Fonte: Jewish-Christian Relations
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