segunda-feira, 30 de junho de 1986

Guia para o Diálogo Católico Judaico - Historia das Relações da Igreja com o Judaísmo

A. Da convivência à polêmica
Desde o alvorecer de nossa era até quase o final do século II, o cristianismo só se manifestava nas estruturas de pensamento e de expressão da tradição judaica. No período pré-helenístico não conhecia outra fonte de inspiração. Antes que as peculiaridades de crença e de rito o destacassem do bojo da religião ancestral, aparentava uma seita judaica análoga a muitas outras. O primeiro passo histórico na direção da autonomia foi a pregação de Estêvão, chefe do grupo helenista. Com a dispersão do grupo pela Palestina e regiões vizinhas, desencadeia-se o processo missionário da Igreja, que vai atingir a bacia inteira do Mediterrâneo.

Mas daquele consórcio inicial resultou uma experiência única e original, a experiência amalgamadora do judeu-cristianismo, com seus diferentes níveis de estruturação e influência, que deram lugar à formação de várias modalidades concretas do fenômeno.

Podemos assinalar os traços principais do meio cultural onde se desenvolveu o judeu-cristianismo, ramificação da Igreja primitiva, que se caracterizava pela vinculação à lei ritual.

Três deles merecem aqui menção especial pelo seu significado característico: os métodos de exegese veterotestamentária, as representações apocalípticas e a organização do culto.

1. Os métodos de exegese veterotestamentária utilizados pelo judeu-cristianismo, foram extraídos do judaísmo corrente na época, notadamente o palestinense. Prova disso são os targumim judeu-cristãos, os midrashim cristãos e os comentários do Gênese.
O primeiro tipo de exegese revela um período bem arcaico do cristianismo. Mais do que a simples traduções, recorre-se a verdadeiras modificações do texto, fusões, acréscimos e supressões, evidenciando a presença de um método totalmente desconhecido nos meios helenísticos.
Aparece o segundo tipo de exegese nas obras cristãs mais antigas. Eram paráfrases do Antigo Testamento de cor nitidamente judaica.
Ocupam os comentários do Gênese parte considerável das obras exegéticas do judeu-cristianismo, o que comprova igualmente a importância atribuída na época a especulação judaica.

2. Em boa parte, a apocalíptica judeu-cristã valeu-se, nas suas representações, de elementos em voga no judaísmo. Nesta tarefa, serviram-lhe de meio de expressão os dados cosmológicos. Certos traços, como, por exemplo, os relativos aos anjos e aos demônios, passaram até para a tradição cristã.

3. De todos os pontos, o da organização do culto foi praticamente o que mais sulcou a vida da Igreja cristã.
As raízes da primeira liturgia cristã residiam nos costumes cultuais israelitas de estilo essênio, denotando porém o fundo primitivo da liturgia.

O livro dos Atos dos Apóstolos e os evangelhos deixam transparecer o fato de que a comunidade dos discípulos de Jesus aparecia como um partido religioso dentro da comunidade judaica. Era a seita ou o partido dos nazarenos (At 24,5; 24,14; 28,22), a saber, uma espécie de sinagoga à parte, como as havia então, ou um especial agrupamento doutrinal.

Reunia-se no templo (At 2,46). Guardava, ao menos na forma exterior, o uso dos sacrifícios judaicos (Mt 5,23). Pagava o tributo do templo (Mt l7,24-27). Submetia-se à jurisprudência sinagogal (Mc 13,9; Mt 10,17). Sustinha fundamentalmente a lei de Moisés (Mt 5,17-19). Numa palavra, foram os primeiros cristãos plena e inteiramente membros do povo de Israel.

Só entrou decisivamente o cristianismo em processo de desprendimento do meio hebreu, quando começou a se espraiar no mundo helenístico, para além das fronteiras palestinenses. Pouco a pouco, a partir de então, o judeu-cristianismo cedeu lugar ao cristianismo da gentilidade. Como era de se esperar, não tardou que daí irrompesse séria tensão no seio das comunidades existentes.

Existia no judaísmo uma ancestral tradição de fé na eminente intervenção de Deus. Esperava-se a qualquer momento a irrupção do poder divino e a instauração do seu reino sobre a terra. É quando se findaria definitivamente o tempo das dominações estrangeiras.

Motivos políticos e religiosos mesclavam-se inextricavelmente nesta acendrada esperança. No tempo dos Pompeus, já haviam as Odes de Salomão atiçado a chama, prenunciando a vinda de um rei messiânico. Os dirigentes do povo faziam questão de alentá-la de todas as maneiras na alma popular. Se nos pormenores as opiniões variam, por falta de um corpo doutrinário sobre o Messias, num ponto essencial todos se encontravam, qual seja, o de que os opressores estrangeiros seriam totalmente expulsos e o Deus único reinaria sobre Israel.

Com o desenvolvimento e a difusão do cristianismo, refluía fatalmente para o centro das preocupações o problema das suas relações com o judaísmo.

Desde os inícios da evangelização grega, admitiam os judeu-cristãos nas suas comunidades convertidos pagãos, sem os obrigarem ao rito da circuncisão. Este fato era interpretado pelo judaísmo como sendo uma verdadeira traição às tradições religiosas. Tal protesto judeu encontrou eco em alguns cristãos, vindos das seitas farisaicas, que propugnavam intransigentemente a tese da circuncisão para os gentios. Acendeu-se então o debate, a que o Concílio de Jerusalém, realizado por volta do ano 49, pôs um ponto final.

Pedro, em nome do Colégio Apostólico, e Tiago, representando o Conselho dos Anciãos, deliberaram em favor da não-obrigatoriedade do mencionado rito, adstringindo os convertidos do paganismo tão-somente aos preceitos noáquicos: abstenção de carnes sufocadas, de carnes imoladas aos ídolos e de fornicação. Paulo via vitoriosa a sua tese. A decisão apostólica representou um passo de capital importância rumo à cisão judeu-cristã.

Por outro lado, observamos que o nacionalismo judeu atingiu o paroxismo. Dois elementos particularmente entravam como ingrediente no zelotismo da época: o apego fanático às observâncias legais e a exasperação da expectativa escatológica. Ao mesmo tempo em que o farisaísmo batalhava pacificamente pela reforma moral ajustada aos termos da Torá, aplicava-se, por vez, o zelotismo em incitar o povo à revolução política armada. Entretanto, de ambos os lados arvorava-se a bandeira da libertação do domínio romano, qualificado como o inimigo de Deus, com o fito de implantar uma teocracia político-religiosa.

Ora, para a comunidade judia trabalhada pelo messianismo nacionalista, a recusa da circuncisão não podia deixar de ganhar interpretação acentuadamente negativa. Tachavam-na de traição política. Este fato causava gravames para a vida dos cristãos de origem semita. A pecha de traidores que se lhes imputava expunha-os a uma situação social totalmente insegura e vexatória. Atestam o livro dos Atos e as epístolas paulinas, de maneira às vezes patética, a oposição declarada e crescente de grupos judeu-cristãos aos discípulos de Jesus. Esta oposição, por volta do ano 58, lançou Paulo na prisão, em Jerusalém, e compeliu-o ao martírio em 67. Unânimes admitem hoje também os historiadores que a perseguição movida contra Pedro se vinculava ao mesmo clima de exaltação nacionalista.

O ponto culminante da crise se deu por ocasião da catástrofe da guerra judaica de 66 a 70. Por não se empenharem na sublevação e na luta, foram os judeu-cristãos alvo da mais acesa animosidade. Premidos de todos os lados, viram-se forçados a se retirarem de Jerusalém para a Jordânia oriental, espalhando-se pela zona fronteiriça síria. À frente deles encontrava-se Simeão, primo de Jesus, que sucedera a Tiago na sede de Jerusalém. Consuma-se a ruptura. Dessolidariza-se a Igreja do destino nacional de Israel. Deixa a Cidade Santa de ser o centro da cristandade nascente, que rompe sociologicamente com o meio judaico.

Em 70, Tito invade Jerusalém, massacra a população e arrasa o templo. Perde o judaísmo, a par de sua autonomia administrativa, o seu centro de culto, o templo, coração da vida religiosa de Israel e símbolo da unicidade de Deus. Após a invasão, converte-se o tributo do templo em contribuição para Júpiter Capitolino em Roma.

Com o término da guerra, esteve a reorganização do judaísmo a cargo dos doutores fariseus. Ao tempo em que esta tradição se desdobrava para guardar ciosamente o legado do passado, ia também passando por um certo endurecimento que se constatava na atitude entre cristãos e judeus. Reorganizado, mostrou-se o judaísmo mais intolerante. No ano 85, ordenou o rabi Gamaliel II que se introduzisse na oração oficial (Amidá) uma maldição reservada aos nazarenos e outros hereges, tornando com isso incômoda e descontínua a freqüência dos cristãos à sinagoga.

Alude o evangelho de João em dois lugares (Jo 9,22; 12,40) à excomunhão infligida aos discípulos de Cristo. Notamos que, a partir de então, a controvérsia entre judeus e cristãos revestiu o talhe de uma confrontação direta entre o evangelho e a tradição farisaica.

Tentaram ainda os cristãos retornar a Jerusalém. Mas esta Igreja dizimada já não exibia condições de se impor como Igreja-mãe para todos os cristãos da gentilidade. A direção transitou de Jerusalém para Roma. Daí para a frente, Igreja e Sinagoga trilham caminhos divergentes.


B. Da polêmica ao proselitismo
Até o século V o judaísmo manteve alto nível de atividade missionária, dando provas de excepcional vitalidade interior. O debate judeu-cristão, que se instalou durante todo esse período, não era nada acadêmico, e sim acirrada polêmica, fruto de intensa concorrência proselitista entre as duas comunidades. Este fenômeno desencadeou, de ambos os lados, inflamadas manifestações de hostilidade.

O judaísmo farisaico, em sua marcha através do mundo greco-romano, tornou-se uma religião missionária de primeira plana. Já nos tempos de Cristo despendia grandes esforços nesta tarefa, mostrando-se capaz de "percorrer mares e terras para fazer um prosélito" (Mt 23,l5). Agora que, apesar da divergência de alguns rabis quanto à oportunidade de novas conversões, se acentuava o dever missionário de Israel, ele passa a absorver praticamente todas as atividades da propaganda judaica.

Prosélito é o gentio que foi conquistado para o judaísmo e se deixou circuncidar. A distinção entre "prosélitos propriamente ditos" (prosélitos da justiça) e "semiprosélitos" (prosélitos da porta) foi introduzida bem posteriormente pelos rabis. Testemunhos judaicos, cristãos e pagãos atestam, à uma, a realidade e a eficácia do proselitismo. Embora a legislação imperial não concedesse ao judeu o direito de fazer propaganda da sua religião, – proibindo inclusive a circuncisão – parece que a autoridade habitualmente ignorava o fato. A interdição geral da circuncisão não incluía os judeus de nascimento. Severas penalidades eram aplicadas apenas aos não-judeus.

O cristianismo exerceu forte concorrência sobre o proselitismo judaico.

O sucesso do apostolado cristão no meio pagão da Diáspora representava uma realidade. Os chefes judeus logo se sentiram vivamente preocupados com o fato. O rabi Eliezer ben Hircanos não trepidou em levantar uma enorme e genérica suspeição sobre a sinceridade das conversões. Na revolta de Bar Kochba, descobriram-se espiões convertidos instalados nas academias judaicas.

O caráter nacional da religião judaica recomendava-a à simpatia dos pagãos. Mesmo com o desarraigamento de sua terra, este aspecto não foi obliterado de todo. Mas em suas aspirações universalistas o judaísmo ficava aquém do cristianismo.

Perante o mundo pagão a Igreja se definia como a gentilidade redimida. Abolira a circuncisão. Abrandara os rigores da observância ritual. Pregava um Salvador morto e ressuscitado, próximo do tipo traçado pelas religiões mistéricas do paganismo. Em geral, lograva o pagão familiarizar-se mais facilmente com o sistema religioso cristão. Juliano, o Apóstata, em seu desprezo pelo judaísmo, chegava a achar absurda a pretensão dos judeus, este "pequeno povo bárbaro", de querer impor ao mundo seu Deus nacional como o único Deus verdadeiro. Artesãos de incontáveis infortúnios na vida do povo judeu, os pagãos foram logo alvos de ódio e de desprezo. O judaísmo começou por voltar contra eles a sua animosidade.

Logo, porém, sentindo-se frustrado em seu ímpeto missionário, fez convergir estes sentimentos para os cristãos, seus concorrentes, bem mais aparelhados para a conquista espiritual do mundo greco-romano. A rivalidade missionária veio adensar ainda mais o clima de relações já carregado de tensões entre as duas comunidades judaica e cristã.

O esforço proselitista atingiu profundamente as relações entre judeus e cristãos. Com a sua ativação de ambas as partes, acelerou-se o processo de segregação mútua, fazendo rápidos progressos.

Insere-se aqui o papel exercido por Paulo de Tarso.

Desdobrando amplamente o seu pensamento, Paulo disseca o tema da rejeição de Israel, aduzindo que da parte de Deus não há infidelidade à Palavra, nem injustiça ou mudança imprevisível de conduta sem motivação razoável, mas simplesmente mistério de eleição; e sendo provisória, ela faz parte do plano de Deus para permitir o ingresso dos gentios. Segundo os comentadores cristãos, não se pode ler estas páginas e continuar-se anti-semita.

Por não se haverem lido ou por se haverem delas esquecido, muitos cristãos restaram sendo escandalosamente anti-semitas. A primeira e autêntica posição teológica da Igreja ante o judaísmo foi a doutrina paulina de separação e benevolência. Paulo lançou as bases do projeto fundamental da teologia cristã do judaísmo. Mas, ao correr dos séculos, os aspectos negativos receberam maior ênfase, e a tradição de fraternal benevolência veio a eclipsar-se, cedendo lugar a uma sistematização teológica do antijudaísmo cristão.

O sulco escavado entre as duas comunidades aprofundou-se ao ritmo da polêmica teológica. Os cristãos de progênie hebraica haviam herdado uma cultura e uma mentalidade bem diversas dos cristãos de origem gentia, e tachavam-nos de excessivamente pagãos. Estes últimos consideravam os de estirpe judaica demasiadamente hebreus. As divergências iam cristalizar-se sobretudo na esfera teológica. As sucessivas formulações do pensamento cristão ajudaram a dar corpo à figura estereotipada do judeu, atravessada feito enigma e desafio no caminho da crescente cristianização da sociedade sacral.

No intento de assegurar-se vida independente do judaísmo, buscou o cristianismo o esteio intelectual de uma autodefinição estrutural. O antijudaísmo teológico da tradição cristã entrou como um dos ingredientes de capital importância para que se efetuasse, com as devidas transposições equacionadas, a sua autonomia de berço. Na realidade, porém, nada há nas instituições fundamentais, permanentes, constitutivas da Igreja que não seja judaico na sua fonte.

A certa altura do debate judeu-cristão, os escritores eclesiásticos se defrontaram com um terrível dilema: precisavam, por um lado, manter contato com o judaísmo bíblico para conter o extremismo dos gnósticos, e, por outro, opor-se à "tentação judaica" que consistia, em suma, na idéia de viver segundo a letra da Escritura. A saída encontrada, já a conhecemos: a interpretação do Antigo Testamento por inteiro como um relato simbólico da vinda de Cristo.

E no próprio Antigo Testamento foram-se buscar as provas da "infidelidade judaica". Os teólogos cristãos relacionaram o caráter carnal desta infidelidade com a própria Toráh, lida e vivida literalisticamente. Dois dados de fé logo repontam em meio à reflexão teológica, comandando o rumo dos pensamentos e das atitudes. São eles: a certeza da salvação de Israel no final dos tempos e a providencial sobrevivência religiosa do judaísmo. Os escritores eclesiásticos justapõem essas duas afirmativas, condensando-as numa fórmula bastante densa e significativa, a saber: a Igreja encontrará sua plenitude na salvação derradeira do povo judeu.


C. A oficialização do cristianismo
A transição do império pagão para império cristão só acarretou desastrosas conseqüências para a vida dos judeus. A repressão antijudaica deixou as esferas nebulosas da discussão teológica e encarnou-se em concretas e práticas disposições jurídicas. A princípio, o edito de Tolerância englobava também os judeus. Podia o judaísmo continuar a ser "religio licita" em todo o império. Mas com o evolver dos acontecimentos logo se viu a antiga nação, que ao longo de dois milênios se tinha defendido contra todas as monarquias do mundo pagão, agrilhoada subitamente pelo anel de ferro do império cristão.

Dois anos apenas haviam decorrido desde as célebres conferências de Licínio e Constantino em Milão, motivadoras da liberdade total de culto, e já começavam a repontar as primeiras restrições governamentais. Não tardaria que o judaísmo de "religio licita" passasse, nos considerandos da lei, a ser considerado "nefaria secta". As medidas opositivas vieram sob a forma de cânones eclesiásticos. Esta, aliás, é a característica especial que revestiram. A sua originalidade propriamente residia, não no conteúdo temático, mas no fato de haverem transbordado dos quadros legais da sociedade civil e penetrado na área específica da legislação canônica da Igreja. O espírito e muitas vezes até a letra da codificação imperial no tocante aos judeus refletiam o espírito e a letra dos preceitos do direito eclesiástico.

O primeiro Concílio ecumênico de Nicéia (325), convocado e presidido por Constantino, quebrou mais um elo que estreitava as duas comunidades, cristã e judaica, ao fixar a celebração da Páscoa em data independente da tradição judaica.

Com a morte desse imperador (337) achou-se o judaísmo mais cerceado em seus direitos e garantias.

As primeiras legislações de Constantino e Teodósio I, compiladas no "Codex Theodosianus", cuja composição final data de 438, demonstraram certa insegurança na sua parte atinente aos judeus. A delimitação do culto e das atividades deles propriamente nada representava de original. Três concílios da Igreja ocuparam-se sucessivamente do problema judeu: o de Elvira (306), o de Antioquia (341) e o de Laodicéia (343-381). Os cânones por eles promulgados podem até ser tachados de benignos. Em matéria de legislação antijudaica nada superou o "Codex Justinianus" que pervadiu todos os setores da vida pública e particular dos judeus, incursionando até pela área teológica com a supressão da Mishnáh e a obrigatoriedade do uso da Bíblia grega LXX nas sinagogas.


D. Preconceitos e movimentos antijudaicos
No Ocidente instaurou-se na Idade Média uma situação de cristandade caracterizada pela simbiose entre a Igreja e a sociedade temporal. Por conseqüência, aqueles que não pertencessem visivelmente à Igreja, como eram os judeus, viam-se afastados do convívio social e confinados nos guetos.

O longo período que se segue caracteriza-se antes de tudo pela formação da "Repubblica christiana" que tentou introduzir sistematicamente no direito e nas instituições os princípios evangélicos. Inaugura-o o século VII, que só conhecia na Europa dois verdadeiros Estados: o Império bizantino e o Reino franco. Entre eles mediava um único traço de união: Roma. A feudalização do poder que desembocou no "Santo Império Romano", senhorial e teocrático, envolve o império e a Igreja.

Inocêncio III (1198-1216) marcou o ápice do poder espiritual e temporal da Igreja. A realeza medieval, por sua vez, conhece o seu apogeu no Ocidente com Luís IX (1226-1270). Viveram os judeus dias amargos e infelizes em meio ao equilíbrio desses dois poderes universais. As renovadas suspeitas de cumplicidade com o Islã agravaram assustadoramente os sentimentos antijudaicos e culminaram na terrível borrasca que desabou na alta Idade Média sobre as comunidades judaicas. Abre-se, porém, o cenário da história com um excepcional intermezzo de tolerância e de paz construtiva: a era dos imperadores carolíngios e saxônicos.

O Império Fatimida não tivera condições de conter a invasão turca, vindo da Ásia Central. Em 1071 Jerusalém caiu nas mãos dos turcomanos, o que provocou imediata reação no Ocidente. Os cristãos resolveram organizar as Cruzadas para reconquista dos lugares santos, mas elas deram o ensejo a intensas perseguições contra judeus, porque estes eram considerados em pé de igualdade com os muçulmanos.

O próprio movimento das Cruzadas que se estendeu até 1270 viria, por sua vez, operar no mundo de então uma reviravolta socioeconômica que, ao invés de ajudar, só iria desfavorecer a sorte dos judeus. Em dois planos principalmente foram eles mais duramente atingidos: no jurídico, com a teoria germânica da servidão judaica (Kammerknechtshaft); e no econômico, pelo envolvimento total dos judeus no jogo da usura.

Na Idade Média forjaram-se numerosos mitos antijudaicos os quais resultaram em preconceitos, ações e movimentos populares. Enumeraram-se entre eles os seguintes: o sacrifício ritual de crianças cristãs; a acusação do deicídio, a profanação da hóstia consagrada; a contaminação de poços e mananciais, que deu origem à peste negra; a lenda do judeu errante; e o mito racial. Todas estas acusações carecem de fundamento e nunca foram historicamente comprovadas. O papa Inocêncio IV (1243-1254) rebateu todas estas falsas acusações. Distinga-se sempre, a bem da verdade completa, a atitude da Igreja oficial e a da sociedade cristã da época, com diferentes níveis de responsabilidade.

A Inquisição que visava julgar e punir os hereges atingiu também os judeus, e particularmente os cristãos-novos. Na realidade histórica ela representou uma página sombria no relacionamento da Igreja com os judeus, agravando a discriminação e o separatismo religioso.


E. Transição aos tempos modernos
Irrompendo na penúltima década do século XVIII, veio a Revolução Francesa subverter por completo a situação da sociedade, ferindo gravemente o princípio de autoridade e levando as três camadas sociais, nobreza, clero e povo, a se entrebaterem.

O Antigo Regime revelara-se precário e inconsistente. Extremara-se o absolutismo dos príncipes. Jansenistas e galicanos ajudavam a solapar a autoridade religiosa.

A ocasião imediata que se encarregou de acender o estopim foi a frágil situação econômica da França em 1789.

O povo constituiu-se em assembléia constituinte, e passou a interpretar o papel principal de protagonista dos acontecimentos.

Vieram logo em seguida diversas restrições impostas ao clero católico, considerado classe privilegiada. Proclamam-se as novas liberdades. Em agosto de 1789, toma-se a medida fundamental com a "Déclaration des droits de l’homme". Entre os direitos contemplados figura o da liberdade religiosa.

Para euforia principalmente dos não-cristãos, proclamava-se a emancipação política de todas as religiões, não porque se recomeçasse a valorizá-los realmente, mas por simples gratuidade.

A "Declaração" promulgada representou uma das três grandes atitudes significativas, ao lado dos decretos de tolerância do Imperador José II e da "Declaration of Rights" dos Estados Unidos, em favor da liberdade e da igualdade de direitos civis dos judeus. Interessa-nos reconhecer aqui que o seu fruto foi uma realidade, correspondente a uma aspiração perfeitamente justa.

Napoleão propôs, que cada terceiro judeu ou judia fosse obrigado a se casar com um cristão. Outras medidas locais e regionais despontaram visando acabar com o separatismo judeu pelo amalgamamento com as populações não-judias. Em boa parte da Alemanha, a emancipação dos judeus constituiu um subproduto das conquistas napoleônicas. Mas, de uma forma geral, fora tão forte a sua vinculação ao expansionismo da filosofia liberal que, onde a influência dessas idéias não alcançou chegar, paralelamente não obtiveram também os judeus a liberação dos seus direitos de igualdade.

O poder das idéias liberais intensificou-se tão-somente no Ocidente. Não contavam as classes médias não-judaicas da Rússia, Polônia e Romênia, com poderio quase nenhum. Haviam-se enredado profundamente no atraso feudal e nos preconceitos raciais. Não conseguiam, por isso, lutar em prol da igualdade de direitos dos judeus.

Por mais que quisessem, não viam jeito os arautos do liberalismo de preencher literalmente o abismo que se cavava entre judeus e não-judeus. O triunfo da reação, no continente europeu, sob a Santa Aliança, tirara dos judeus muitos de seus direitos recém-adquiridos. O documento do batismo tornou-se novamente o passaporte obrigatório da civilização européia até que adviesse a "Primavera dos Povos" de 1848 imprimir novo impulso ao movimento de emancipação dos judeus.

Nos fins do século dezenove, autônomas na origem, várias correntes se conjugaram para encorpar a violência anti-semítica. Ao nacionalismo, para o qual o judeu é um estrangeiro, aliou-se o socialismo que tem o judeu como símbolo dos Rothschild e da riqueza.

Finalmente, na confluência de vários fatores econômicos, políticos e ideológicos, desembocamos na mais terrível deflagração do anti-semitismo com o nacional-socialismo nazista.


F. Pronunciamentos da Igreja antes do Holocausto
Nos idos de 1928, pronunciou-se o Santo Ofício de Roma, com firmeza, contra o anti-semitismo, nos seguintes termos:
"Uma vez que reprova toda espécie de ódio e animosidade entre os povos, a Sé Apostólica condena soberanamente o ódio contra o povo outrora escolhido por Deus, ódio esse hoje comumente designado com o nome de anti-semitismo".

Um ano antes da deflagração da Segunda Guerra Mundial, quase em tom profético, em discurso dirigido a visitantes belgas, defendeu o papa Pio XI (1922-1939) a absoluta inadmissibilidade do movimento anti-semita, interditando a participação nele de qualquer católico.

Comentando a expressão "Sacrificium Patriarchae nostrae Abrahae", diz textualmente o Chefe da Igreja haver total incompatibilidade entre o anti-semitismo e a realidade sublime contida naquelas palavras. Em seguida, qualifica o movimento anti-semita de "antipático", merecendo por isso a reprovação de todos os cristãos. E completa ilustrando a própria idéia com a proposição do "reconhecimento, a quem quer que seja, do direito de se defender e de usar dos meios de proteção que lhe sejam necessários, para sua tutela pessoal contra as ameaças aos seus legítimos interesses". "O anti-semitismo é inadmissível", remata o papa, porque "espiritualmente somos semitas".

Foi este pronunciamento a solene confirmação da atitude assumida em 1937, pelo mesmo Pontífice na encíclica "Mit brennender Sorge", em que se contrapõe frontalmente às teorias racistas de Hitler.
Outras posições, na mesma linha foram, adotadas pela Igreja nos anos subseqüentes.

A 13 de abril de 1938, em carta ao cardeal Baudrillart, estabeleceu a Congregação de Estudos a obrigação para todas as Universidades Católicas de incluir nos seus programas curriculares a refutação das teses do racismo, condensadas em 8 proposições remetidas às dioceses do mundo.

Devem-se mencionar também entre muitas outras iniciativas, a Carta Pastoral do episcopado alemão, publicada em agosto do mesmo ano, e a longa declaração do cardeal Van Roy, arcebispo de Malines, que recebeu carta de apoio e aprovação do arcebispo de Paris, o cardeal Verdier.

Pio XII (1939-1958) repisou a condenação do racismo, em suas alocuções e mensagens. Na Radiomensagem Natalícia de 1942 reprovou explicitamente o direito racista.


G. Do Holocausto a Seelisberg
Calcula-se que durante a Segunda Guerra Mundial morreram cinqüenta milhões de pessoas. Entre as diferentes minorias perseguidas encontravam-se os judeus, que, trazidos em vagões de carga de toda a Europa, foram eliminados em campos de concentração, verdadeiras fábricas de aniquilamento. Seis milhões de judeus, representando um terço do povo judeu no mundo, foram assim assassinados pelos nazistas.

As estatísticas citadas não deixam transparecer a tragédia de vidas humanas, dos sofrimentos e das dores que caracterizaram os anos de 1939-45. Muitos diários foram mantidos e publicados depois da guerra, muitas atrocidades, difíceis de se acreditar que tenham acontecido, foram perpetradas com a participação de centenas e milhares de cúmplices. Muitos dos carrascos nunca foram julgados pelos seus crimes.

Além das tragédias que nunca foram relatadas, dos danos psíquicos que jamais serão curados, o povo judeu viu desaparecer os seus centros de cultura, suas academias de estudos, seus líderes religiosos e suas fontes de vida intelectual no Leste Europeu, deixando a Europa como um verdadeiro "vale dos ossos secos", como descreveu Ezequiel, o profeta.

Após a guerra, apesar das dificuldades impostas pelos ingleses, que não permitiam a entrada de mais judeus no "Lar Nacional Judeu" por eles administrado, numerosos judeus chegaram à terra de Israel. Em 1947, as Nações Unidas decidiram a partilha da Palestina numa histórica sessão do Conselho de Segurança, presidida na ocasião pelo brasileiro Ministro Osvaldo Aranha. Em 5 de maio de 1948 foi declarada a independência do Estado de Israel, que logo teve que enfrentar uma guerra com todos os seus vizinhos.
São esses os fatos mais importantes na história judaica do período de 1939-48. Mas o que nos cabe relatar não são apenas os fatos, mas também a repercussão por eles causada.

O primeiro choque se deu num país considerado dos países mais civilizados do mundo, a Alemanha, que pôs em prática em pleno século XX, com requintes de crueldade, um plano de extermínio de um povo de forma tão metódica e precisa. Os sonhos acalentados no século XIX de que, por meio da ciência e do progresso tecnológico, se pudesse chegar a um mundo mais perfeito sem empecilhos para a felicidade, ruíram por terra. A confiança depositada no futuro foi seriamente abalada diante da disciplina de um estado totalitário que fez calar as consciências de milhões de pessoas.

A Igreja se pergunta hoje como foi possível um acontecimento tão brutal e desumano. Muitos líderes religiosos, diante das dimensões que tomou o aniquilamento em massa, perguntaram: "Onde estava Deus?"
Não entraremos aqui na controvérsia do que poderia ter sido feito para salvar mais vidas, quando se soube do que estava acontecendo nos campos de concentração com suas câmaras de gás e de torturas. O fato é que o mundo silenciou.

Após as terríveis experiências nazistas, surgiu a necessidade de pôr termo ao ódio anti-semita. Cristãos esclarecidos dedicaram-se ao estudo do mistério de Israel e da sua paixão através dos tempos.

Uma série de posicionamentos bem variados aflorou entre os russos e os americanos, que já estavam em plena guerra fria em 1947; em um raro momento de concordância, ambos votaram para que os judeus tivessem o seu Estado. O cristianismo se posicionou por meio do Vaticano e do Conselho Mundial de Igrejas, condenando o anti-semitismo.

Para acompanhar o desenvolvimento da posição que se cristalizou dentro da Igreja nos anos após a guerra, dois homens tiveram papel marcante na condenação do anti-semitismo pela Igreja. Um é judeu – Jules Isaac, nascido na França; outro é católico – cardeal Agostinho Bea, nascido na Alemanha.

Jules Isaac (1877-1963), nascido em Rennes, desde cedo se interessou por história, escreveu livros didáticos para os colegiais, ocupou cargos no Ministério da Educação da França, chegando a ser inspetor-chefe do ensino de História do país. Sua área de pesquisa fora a das causas da Primeira Guerra Mundial. Interessou-se também pela origem das superstições e preconceitos populares.

Durante a Segunda Guerra Mundial testemunhou a invasão alemã e conseguiu sobreviver, mas perdeu toda a sua família assassinada pelos nazistas. Foi o fundador do grupo chamado "Amitié Judeo-chretienne", que se tornaria o modelo de muitas organizações desse tipo.

Jules Isaac tomou parte ativa no encontro de Seelisberg, fornecendo bases históricas que levariam à revisão da atitude da Igreja para com o judaísmo. Baseados nos estudos bíblicos deste século chegou-se a uma primeira formulação em 1947, em Paris, do programa de retificação do ensino cristão a respeito do anti-semitismo.

São os chamados 10 Pontos de Seelisberg, fruto de um colóquio judeu-cristão.

l. Deve ser relembrado que um só e mesmo Deus nos fala no Antigo e no Novo Testamento.

2. Não se pode esquecer que Jesus nasceu de mãe judia, pertencia à família de Davi e ao povo de Israel, e que seu amor eterno abrange o seu povo e o mundo inteiro.

3. Recorde-se ainda que os primeiros discípulos, os Apóstolos, e os primeiros mártires eram judeus.

4. Tenha-se presente que o principal mandamento do cristianismo, o amor de Deus e do próximo, anunciado no Antigo Testamento e confirmado por Jesus, obriga igualmente, cristãos e judeus, em todas as relações humanas.

5. Deve-se evitar diminuir o judaísmo bíblico e pós-bíblico para exaltar o cristianismo.

6. Não se deve empregar a palavra "judeu" para designar exclusivamente os inimigos de Jesus, e as palavras "inimigos de Jesus" para designar o povo judeu em seu conjunto.

7. Não se deve apresentar a Paixão de Jesus, como se todos os judeus, ou somente os judeus, tivessem incorrido na odiosidade da crucificação. Não foram todos os judeus que pediram a morte de Jesus, nem foram somente judeus que se responsabilizaram por ela. A Cruz, que salva a humanidade, revela que Cristo morreu pelos pecados de todos. Pais e mestres cristãos deveriam ser alertados a respeito de sua grande responsabilidade na maneira de narrar os padecimentos de Jesus. Se o fazem de uma forma superficial, correm o risco de fomentar aversões no coração das crianças ou dos ouvintes. Numa mente simples, movida de um ardente amor compassivo pelo Salvador crucificado, o horror natural dos perseguidores de Jesus pode facilmente tornar-se, por motivos psicológicos, ódio indiscriminado pelo judeu de todos os tempos, inclusive de nossos dias.

8. Não se devem evocar as condenações bíblicas e o grito da multidão enraivecida: "Que seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos" (Mt 27,25) sem relembrar que esse grito não anulou as palavras de nosso Senhor, de conseqüências incomparavelmente maiores: "Pai, perdoa-lhes; eles não sabem o que fazem" (Lc 23,24).

9. É preciso evitar qualquer tentativa de mostrar os judeus como um povo reprovado, amaldiçoado e votado a um sofrimento perpétuo.

10. Deve ser mencionado que os primeiros membros da Igreja eram judeus.

Os que se reuniram em Seelisberg não podiam ainda imaginar que, com o correr dos anos, o Vaticano tomaria uma posição oficial frente ao anti-semitismo. Baseada nos eventos da Segunda Guerra Mundial, nos estudos históricos, bíblicos e teológicos, a Igreja preparou-se para um pronunciamento oficial.

É entre os arquitetos de tal pronunciamento que se destaca a atuação de um jesuíta, nascido na Alemanha. O fato de ser ele alemão representa, além do seu mérito como estudioso, a oportunidade de evitarmos neste capítulo o erro para o qual nos alerta o ponto 7 de Seelisberg, o de não imputarmos a todos os alemães a culpa do genocídio perpetrado pelos nazistas.

Augustin Bea (1881-1968), alemão nascido em Baden, que um dia iria tornar-se o reitor do Pontifício Instituto Bíblico e depois cardeal de Roma. Foi editor do periódico Bíblica (1930-1950), além de pertencer a uma dezena de organismos internacionais. Biblista de renome, ele dominava 9 idiomas, entre os quais o hebraico e o português.

Após a guerra, baseando-se em seus estudos bíblicos e teológicos desafiou a imagem convencional do judeu e do judaísmo e lutou para que fosse corrigida a interpretação que coloca a culpa da crucificação sobre os judeus.

Este seria o homem que, em contato com os papas que seguiram o papa Pio XII no Vaticano, seria escolhido mais tarde como presidente do Secretariado para a Unidade dos Cristãos. Seu papel no diálogo inter-religioso foi um dos mais marcantes.


H. Do Vaticano II até os nossos dias
Na década de 60 intensificaram-se visivelmente entre os cristãos os estudos bíblicos especializados do Antigo e do Novo Testamento, que levaram a encarar com renovado respeito a venerável tradição judaica, onde o cristianismo deita suas raízes históricas. Numa vida cristã ensinada e vivida em suas perspectivas bíblicas, deve Israel logicamente ocupar um lugar de relevo. No passado, muitos cristãos se ativeram insistentemente a preconceitos ideológicos e políticos por se encontrarem bem distanciados das fontes da revelação escriturística. O contato mais assíduo, metódico e científico, com as Escrituras não pode deixar de surtir efeitos benéficos para o relacionamento cristão-judaico.

A Igreja Católica, na constituição dogmática "Dei Verbum" do Concílio Vaticano II, asseverou que "não é através da Sagrada Escritura apenas que a Igreja deriva sua certeza a respeito de tudo que foi revelado" (n. 9). "Mas como a Sagrada Escritura deve ser também lida e interpretada naquele mesmo Espírito em que foi escrita, para apreender com exatidão o sentido dos textos sagrados, deve-se atender, com não menor diligência, ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura, levadas em conta a tradição viva da Igreja toda e a analogia da fé".

A mútua colaboração no domínio dos estudos bíblicos e rabínicos produziu bons frutos nos pontos comuns e nos divergentes.

Primeiramente, vem oferecendo esclarecimentos oportunos e preciosos sobre inúmeras questões doutrinais e científicas do patrimônio espiritual comum.

Em segundo lugar, leva a determinar com maior clareza as respectivas opiniões com todos os seus matizes peculiares, as semelhanças e as diferenças, o conteúdo de verdade e o revestimento exterior da linguagem, todos os ângulos, enfim, de uma confrontação corajosa e honesta.

A experiência efetivada em vários lugares e ocasiões é de molde a comprovar a validade do método e a encorajar ambas as partes na sua continuidade, através de trabalho consciencioso e perseverante.

Num campo de vida interna da Igreja Católica depressa se evidenciou a mudança de mentalidade; o da liturgia. Reformulou a autoridade papal o teor de determinadas preces em uso nos atos de culto da Igreja Católica. Entre essas reformulações figura a que eliminou o odioso apelativo de "pérfidos" dado outrora aos judeus. Na solene ação litúrgica da Sexta-feira Santa, comportava o ritual em voga, após as leituras e a homilia, uma série de "orações comunitárias", chamadas também pela rubrica de 1955 de "orações dos fiéis". Uma delas diz respeito aos judeus.

A fórmula primeira fazia alusão à assim chamada perfídia judaica, numa manifesta prova de intolerância. O papa João XXIII (1958-1963) compreendeu a infelicidade da expressão e eliminou-a. No pontificado de Paulo VI, a prece recebeu a seguinte forma:
"O Deus, que fizestes vossas promessas a Abraão e seus descendentes, escutai as preces da vossa Igreja. Que o povo da antiga aliança mereça alcançar a plenitude da vossa redenção".

Coube ao papa João XXIII enfrentar decisivamente a questão do relacionamento com o judaísmo, movido por especial interesse, fruto de sua inquebrantável convicção pessoal. Quando em 1959, anunciou a celebração do Concílio, teve a imediata intuição de que o labor de purificação da Igreja deveria comportar uma séria e ousada revisão das relações com os judeus.

Em vários países, já se diligenciavam esforços, no ensino cristão, com o fito de restaurar a verdadeira imagem do povo judeu. As autoridades eclesiásticas haviam denunciado o anti-semitismo. Fundavam-se ou reorganizavam-se associações de amizade cristão-judaica. Mas o movimento marchava ainda de modo irregular.

A tarefa de redigir um pronunciamento da assembléia conciliar foi confiada ao "Secretariado pela União dos Cristãos", dirigido pelo cardeal Bea.

Este purpurado desenvolveu extraordinária atividade no período conciliar, presidindo os trabalhos de redação de cinco esquemas, apresentando quatro relatórios, sendo três deles sobre o problema judeu, e fazendo dezoito intervenções, durante as sessões, sempre com profundeza doutrinal, constante preocupação ecumênica e profundo realismo humano. Muito lhe deve a Igreja na preparação do documento sobre as relações com os não-cristãos.

Em 1961, apresentou um projeto de sete páginas contendo as idéias principais da atual declaração conciliar. Revisto inúmeras vezes, foi o texto concluído em 1962, e devia ser proposto em junho do mesmo ano à Comissão Central, mas inquietantes rumores de agitação arrebentaram nos países árabes. O texto foi retirado de discussão. Começa a sua acidentada história. Foi dos que mais sofreu reações e pressões exteriores. Vista de fora, escalona-se a trajetória desse documento por uma série de episódios, em que as paixões políticas, as coações e os temores, pesaram tanto que, em determinados momentos, ameaçaram até eclipsar o próprio objeto da declaração. Alguns governos do Oriente Médio receavam, sem fundamento, significasse o documento conciliar da Igreja o reconhecimento político do Estado de Israel.

A 19 de novembro de 1963, o cardeal Bea apresentou o texto no decurso da duodécima sessão conciliar. Na ocasião, sublinhou tratar-se essencialmente de questão no plano religioso e de se dirigir aos católicos de forma explícita com a finalidade de lhes ensinar a atitude que, à imitação de Cristo, devem adotar relativamente aos judeus. A discussão geral abrangeu todo o período conciliar que vai da 69ª à 72ª congregação. Sucederam-se os oradores e os debates. Chegou-se ao fim da segunda sessão com a questão ainda aberta. Durante a inter-sessão, redobrou o Secretariado as suas atividades. Reuniu o parecer dos Padres num volume de 72 páginas e se ocupou em dissipar os equívocos de natureza política que haviam surgido de todos os lados.

A 4 de junho de 1963, falece o papa João XXIII. Duas iniciativas de seu sucessor, o papa Paulo VI, contribuíram para situar o problema no plano decisivo: a fundação do "Secretariado para as Religiões Não-cristãs" e a sua Encíclica "Ecclesiam Suam" (6 de agosto de 1964) sobre o tema: "Por que caminhos deve a Igreja Católica hoje cumprir o seu mandato".

Feitas as emendas e correções, o novo texto proposto à assembléia conciliar enfatiza o caráter religioso da questão, bem como a missão de paz e fraternidade própria da Igreja. O debate suscitado, durante a terceira sessão do Concílio, obrigou a que se refundisse pela terceira vez o texto, imprimindo-lhe ainda mais uma orientação positiva.

Novamente, na fase de inter-sessão, se acenderam as campanhas de opinião pública e as pressões políticas, advindas principalmente do mundo árabe. Sob o prisma teológico, entram em cena os ortodoxos censurando a colocação do deicídio, por causa de toda a problemática infindável a ele ligada.

Reelaborado pelo Secretariado, foi finalmente entregue à discussão do período da quarta sessão. O número 4 que se ocupa das relações específicas da Igreja com o Judaísmo, prendeu a atenção de todos, sendo alvo de numerosas observações.
Chegamos assim à etapa final de votação e aprovação do texto, após um longo, penoso e, por vezes, dramático trabalho de elaboração. Em sessão pública de 28 de outubro de 1965 foi solenemente promulgado.

A partir de então apareceram 3 documentos oficiais que se inspiraram no novo clima criado por "Nostra Aetate" e marcaram as etapas de sua aplicação prática no meio cristão:
l. Orientações e sugestões para aplicação do documento promulgado pela Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo, em 1975.
2. A Unicidade de Deus e o testemunho cristão, publicado em 1975 pela Federação Luterana Mundial.
3. Considerações ecumênicas sobre o diálogo entre judeus e cristãos, publicado pelo Conselho Mundial das Igrejas em 1982.

Surgiram paralelamente dezenas de pronunciamentos e declarações, em várias partes do mundo, com o propósito de valorizar o diálogo.

A Comissão do Vaticano para as Relações Religiosas com o Judaísmo foi criada em 1974 pelo papa Paulo VI, visando a estabelecer relações com os representantes da comunidade judaica mundial e ao mesmo tempo sensibilizar os católicos a respeito deste novo campo pastoral.

Em 1982, o papa João Paulo II presidiu uma reunião desta Comissão, contando com 15 países, e concluindo com a fórmula "o diálogo é um autêntico serviço de Igreja".

Com data de 24 de junho de 1985, a Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo, do Vaticano, emitiu um documento intitulado Notas para uma correta apresentação dos judeus e do judaísmo na pregação e na catequese da Igreja Católica.

Preliminarmente, justifica a publicação aduzindo palavras do papa João Paulo II (6-3-1982), que retomam a linha da "Nostra Aetate", e as diretrizes para a sua aplicação, no tocante à tarefa do ensino e da educação do cristão nesse sentido. Na primeira parte, reúne em oito itens as razões e as formas do ensino religioso do judaísmo. Estabelece, na segunda parte, os princípios de correlação entre o Antigo e o Novo Testamento. Em seguida, numa terceira parte, mostra quais são as raízes judaicas do cristianismo. Analisa, depois, na quarta parte, a presença dos judeus no Novo Testamento. Aborda brevemente, numa quinta parte, questões relacionadas com a liturgia. Conclui, na sexta parte, com uma apresentação do quadro do judaísmo e do cristianismo na história. Ao rematar todas as considerações, o documento acentua que: "o ensino religioso, a catequese e a pregação devem levar não só à objetividade, à justiça e à tolerância, mas também à compreensão e ao diálogo".

O diálogo entre os grupos de fraternidade existentes no mundo é coordenado pelo Conselho Internacional de Cristãos e Judeus (ICCJ), que já organizou uma série de encontros desde 1965, em diversos países do mundo. Seu objetivo consiste em mudar as atitudes unilaterais ou recíprocas, que sejam prejudiciais às relações mútuas.

No Brasil, desde 1962, desenvolveu-se um trabalho de relacionamento fraterno entre judeus e cristãos, através do Conselho de Fraternidade Cristão-judaica, que continua a realizar diversas atividades culturais e religiosas, com o objetivo de um conhecimento mútuo e difusão dos laços comuns entre as religiões judaica e cristã.

Em 1981, foi criada, por iniciativa da CNBB, a Comissão Nacional do Diálogo com os Judeus, contando com a participação de cinco membros nomeados pela CNBB e cinco judeus convidados pela mesma entidade. Sua finalidade é articular em nível nacional o diálogo oficial da Igreja Católica no Brasil com a comunidade judaica no país.

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