sexta-feira, 6 de julho de 2007

Vaticano pode reviver oração que propõe conversão de judeus

Valquiria Rey
De Roma
O Vaticano divulga neste sábado um decreto que prevê o retorno das missas em latim e que pode reintroduzir aos rituais católicos nas igrejas uma polêmica oração que pede a conversão de judeus ao catolicismo.

A probabilidade do retorno da oração, que havia sido colocada de lado da liturgia católica na década de 1960, ganhou repercussão na imprensa e preocupa grupos do diálogo entre cristãos e judeus, que avaliam a medida como um retrocesso da postura atual do Vaticano em relação ao Judaísmo.

“Espero que seja um alarme injustificado”, disse à BBC Brasil Riccardo Di Segni, rabino-chefe da Comunidade Judaica de Roma. “Espero que não aconteça nada disto, que sejam apenas rumores.”

No Vaticano, ninguém comenta o assunto. Há apenas uma declaração de que não é possível confirmar ou desmentir qualquer informação, porque o documento assinado pelo papa Bento 16 é considerado secreto até o momento da publicação. Ao certo, sabe-se apenas que o papa quer permitir o retorno da missa em latim.

A parte do missal que gerou a polêmica diz: "Oremos pelos judeus, para que Deus retire o véu que cobre seus corações e lhes faça conhecer nosso senhor Jesus Cristo".

Luigi Accattoli, vaticanista do jornal Corriere della Sera, aposta na possibilidade de que o papa coloque no texto uma cláusula excluindo a oração, que, teme-se, possa prejudicar as relações entre católicos e judeus.

“Em nome da sua nacionalidade e da militância que teve no passado na juventude nazista, torço para que o papa Bento 16 tenha sensibilidade suficiente para excluir estes versos”, afirmou o teólogo Brunetto Salvaranni, especialista em diálogo cristão-judaico. “Mas se isto realmente acontecer, será muito grave e provocará grande abalo no diálogo entre judeus e católicos”.

O texto do papa sobre o retorno da missa em latim está pronto há vários meses. Mas seu lançamento vem sendo adiado sem maiores explicações.

No final do mês passado, Bento 16 esteve reunido com um grupo de 25 bispos, quando foram distribuídas as primeiras cópias do documento e da carta que será enviada aos episcopados de todo o mundo.

Segundo alguns bispos que participaram do encontro, o papa foi muito claro ao dizer que a antiga forma de celebrar a missa passará a ser o novo rito nas igrejas.

O documento do pontífice, conhecido como Motu Proprio Summorum Pontificum, dará mais liberdade para que os padres celebrem missas em latim.

Hoje, eles precisam pedir autorização às dioceses para celebrá-la e, na maioria das vezes, os bispos se recusam a dá-la.

Há uma grande expectativa - e um grande mistério - em torno do teor da carta explicativa do papa que acompanhará o documento.

Em Roma, especula-se que, além de agradar os tradicionalistas, ela possa trazer críticas a sacerdotes carismáticos que avançaram nas celebrações além das determinações do Concílio Vaticano II, com a inclusão de músicas e danças populares.

No caso do Brasil, o exemplo mais notório é o do padre Marcelo Rossi.

O retorno da missa em latim agrada aos tradicionalistas, que rejeitaram as reformas aprovadas pelo Concílio Vaticano II, entre elas a troca do latim pelos idiomas locais na liturgia.

No entanto, o decreto é polêmico entre os defensores das reformas feitas na década de 1960 - que mudaram a postura da Igreja, afirmando o amor de Deus pelos judeus e conclamando o respeito e a cooperação diante dos outros credos religiosos.

À estas alterações é creditada uma melhora nas relações entre católicos e judeus, pois elas dão destaque às raízes judaicas do cristianismo e rechaçam a culpa coletiva dos judeus pela morte de Jesus Cristo.

Os contatos foram intensificadas com o pontificado de João Paulo 2º, que esteve numa sinagogga em Roma, em 1985, visitou Jerusalém e pediu perdão pelos erros dos católicos diante dos judeus.

Na avaliação dos reformistas, a volta do latim poderá incentivar os conservadores a seguir questionando as reformas do Concílio Vaticano II, podendo gerar mais divisões na Igreja Católica.

Fonte: BBC Brasil

terça-feira, 19 de setembro de 2006

Realizada em Porto Alegre a XIV Assembleia Nacional do Diálogo Católico Judaico

Pela primeira vez com sede no Rio Grande do Sul, a 14ª Assembléia Nacional do Diálogo Católico-Judaico aconteceu em Porto Alegre, entre os dias 17 e 18 de setembro.

No domingo, as atividades foram realizadas na Sinagoga da Sibra, já na segunda-feira, o encontro ocorreu na Casa de Retiros Betânia.

O evento foi organizado por Guershon Kwasniewski, guia espiritual da Sibra, e pelo padre Roberto Paz, coordenador da área da cultura da Igreja Católica. Além deles, também participaram lideres religiosos como dom Oneres Marchiori, padre Jesus Hortel, padre José Bizon, Iehuda Gitelman, da Sinagoga Centro Israelita Porto Alegrense, e o rabino Henry Sobel, de São Paulo.

O primeiro dia de atividades contou com uma mesa redonda, com a presença dos lideres religiosos, o presidente da Federação Israelita do RS Abrahão Finkelstein e o jornalista Jaime Spitzcovsky. Após um coffe break, Spitzcovsky ministrou uma palestra sobre a ética nos meios de comunicação e a necessidade de mobilização da sociedade pela defesa da ética e de valores morais. As cerca de 50 pessoas presentes fizeram perguntas ao jornalista ao final da palestra. As atividades de domingo se encerraram com a apresentação do coral da Igreja São Pedro.

Na segunda-feira, foram realizados os últimos debates que visam manter a união entre as religiões católica e judaica de forma amigável e pacífica, como sempre foi na capital gaúcha.

Fonte: FIRS - Federação Israelita do Rio Grande do Sul

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

Porto Alegre recebe a XIV Assembleia do Diálogo Católico Judaico

A Comissão Nacional de Diálogo Religioso Católico/Judaico vai realizar, em Porto Alegre (RS), nos dias 17 e 18 de setembro de 2006, a XIV Assembléia do Diálogo Católico/Judaico. No dia 17, o tema a ser desenvolvido pelo jornalista Jaime Spitikowski, será Ética e Meios de Comunicação. No dia seguinte, Ética e Cidadania, com o Dr. Moacyr Scliar e Ética e Ensino com o Dr. Sérgio Rogério Azevedo Junqueira.

Informações na Casa da Reconciliação, pelo telefone (31) 3884-1544 ou pelo e-mail: dcj@casadareconcilização.com.br e na Congregação Israelita Paulista, pelo telefone (11) 3259-7828.

Fonte: CatolicaNet


quinta-feira, 3 de abril de 2003

Judeus criticam artigo de bispo na XII Assembleia Nacional do Diálogo Católico Judaico

Reunidos na XII Assembléia anual realizada em Belo-Horizonte de 30 a 31 de março, a Comissão Nacional de Dialogo Católico-Judaico, enviou uma carta ao Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, dom Jayme Chemello, discordando do artigo e declarações do Arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings, veiculada na mídia, a respeito do Holocausto e dos Judeus.

Segue a integra da Carta
Exmo e Revmo. Sr.

Dom Jayme Chemello

DD. Presidente da Conferência

Nacional dos Bispos do Brasil



       Prezado Dom Jayme,

       Nós, católicos e Judeus participantes da XII Assembléia Anual do Diálogo Católico Judaico sentimo-nos impelidos, em espírito fraternal, a manifestar a nossa discordância com as recentes declarações do arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings, veiculadas pela ínternet, a respeito do Holocausto e dos Judeus.


    É um fato histórico a tentativa de eliminação total dos Judeus existentes nos países sob dominação nazista. Poucos realmente escaparam de tão monstruoso massacre. O número de 6 milhões de vítimas é um cálculo com base na população judia daquelas regiões antes da segunda guerra mundial. Os que, no fim, faltavam morreram sobretudo em campos de extermínio, mas também vitimados por massacres, promovidos pelo regime ou em consequência da fome e da miséria oficialmente instaladas nos guetos onde foram encerrados. Além disso, o mais monstruoso não é o número, mas tentativa de eliminação total de um povo, sem exceção de pessoas. A consciência da humanidade clama contra tal crime.


    Sem dúvida, houve também muitos cristãos que morreram vítimas do nazismo,inclusive em razão de sua fé (por exemplo o Pe. Alfredo Delpp, o Pastor Bonhofer, Maxiliano Kolbe, etc). Mas não houve nenhum plano de eliminação fisica de todos os cristãos.


    Quanto à figura do Papa Pio XII, que muitos de nós admiramos, lembramos apenas que existe uma Comissão Internacional de Historiadores Judeus e Católicos, encarregada de um estudo aprofundado do tema. A abertura dos Arquivos Vaticanus referentes ao Pontificado de Pio XI certamente ajudará a lançar luz sobre a figura do Papa Pacelli.


    Por outro lado, não parece adequado falar, de modo genérico, que "os Judeus" ou "os Católicos" dizem ou fazem isto ou aquilo. Tais simplificações não ajudam na construção do diálogo que nós ardentemente procuramos.

    Atenciosamente,


Comissão Nacional do Dialogo
Católico/Judaico da CNBB

Fonte: Catolicanet

domingo, 10 de setembro de 2000

Dab'ru êmet - Uma Posição judaica perante cristãos e Cristandade

Nos anos passados, tem-se consumado uma mudança dramática e inimaginável nas relações cristãs-judaicas. Durante os aproximadamente dois mil anos do exílio judaico, os cristãos consideraram geralmente o Judaísmo uma como religião fracassada ou, na melhor das hipóteses, uma como religião precursora, a qual preparara o caminho à Cristandade e nesta teria chegada ao seu cumprimento. Nos decênios após o Holocausto, porém, a Cristandade mudou dramaticamente. Um número crescente de associações, entre elas tanto romano-católicos como protestantes, expressaram em declarações públicas o seu arrependimento sobre os maus tratos de judeus e o Judaísmo. Além disso, essas declarações tornaram explícita como a doutrina e pregação cristãs podem e devem ser reformadas, para reconhecer a Aliança de Deus com o povo judaico como invariavelmente válida e apreciar a contribuição do Judaísmo para a cultura mundial e para a própria fé cristã.

Estamos convencidos que essas mudanças merecem uma bem pensada resposta judaica. Como um grupo de cientistas judaicos de correntes diferentes – que não fala senão em seu próprio nome – estamos convencidos que está na hora para dos judeus pensarem no que o Judaísmo tem a dizer hoje à Cristandade. Como um primeiro passo queremos explicar em oito concisos pontos como judeus e cristãos poderiam estar em relação uns com os outros.

Judeus e cristãos adoram o mesmo Deus.

Antes do surgimento da Cristandade eram somente os judeus que adoravam o Deus de Israel. Mas também os cristãos adoram o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, o criador do céu e da terra. Se bem que a fé cristã não represente uma alternativa aceitável para judeus, alegramo-nos como teólogos judaicos porque tantos milhões de gente entraram em relação com o Deus de Israel através da Cristandade.

Judeus e Cristãos apoiam-se no mesmo livro – a Bíblia (que os judeus chamam de "Tenak" e os cristãos o "Antigo Testamento").

Nele procuramos orientação religiosa e enriquecimento espiritual e mentalidade comunitária, tirando dele ensinamentos semelhantes: Deus criou e mantém o universo; Deus fez uma aliança com o povo de Israel, e é a palavra de Deus que conduz Israel a uma vida em justiça; afinal, Deus salvará Israel e o mundo inteiro. Não obstante, judeus e cristãos interpretam a Bíblia diferentemente. Essas diferenças devem ser respeitadas.

Cristãos respeitam a reivindicação do país de Israel pelo povo judaico.

Para os judeus, o restabelecimento do Estado de Israel no país prometido representa o acontecimento mais significante desde o holocausto. Como pertencentes a uma religião biblicamente fundada, cristãos estão gratos porque Israel foi prometido e dado aos judeus como concreta encarnação da Aliança entre eles e Deus. Muitos cristãos apoiam o Estado de Israel por razões muito mais profundas do que tais de natureza política. Como judeus, recebemos bem esse apoio. Além disso, sabemos que a tradição judaica manda justiça para todos os não-judeus que viverem no estado judaico.

Judeus e Cristãos reconhecem os princípios morais da Toráh.

No centro dos princípios morais da Toráh estão a santidade e dignidade inalienáveis de cada pessoa humana. Nós todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Essa atitude moral comum pode ser o fundamento para uma relação melhorada entre as nossas duas comunidades. Mais além, pode chegar a ser fundamento dum vigoroso testemunho para toda a humanidade, servindo para o melhoramento da vida dos nossos semelhantes e contra a imoralidade e idolatria, as quais nos ferem e degeneram. Um tal testemunho é urgente, principalmente após os horrores sem pares do século passado.

O Nazismo não era um fenômeno cristão.

Sem a longa história de antijudaísmo cristão e violência cristã contra os judeus, porém, a ideologia nacionalsocialista não teria podido existir, nem ter-se realizado. Demasiado número de cristãos participaram das crueldades contra os judeus ou as aprovaram. Outros cristãos, ainda, não protestavam o suficiente contra estas crueldades. Mesmo assim, o Nacionalsocialismo mesmo não era um produto automático do Cristianismo. Tivessem os nacionalsocialistas conseguido a destruição total dos judeus, sua fúria homicida ter-se-ia dirigido diretamente contra os cristãos. Com gratidão lembramo-nos daqueles cristãos que durante o domínio nacionalsocialista arriscaram ou sacrificaram as suas vidas para salvar judeus. Tendo em vista estes cristãos, exigimos a continuação dos recentes esforços na teologia cristã, para rejeitar univocamente o desprezo do Judaísmo e do povo judaico. Louvamos aqueles cristãos que recusam esse ensino de desdém e não os acusamos por causa dos pecados dos seus antecedentes.

A diferença, irreconciliável segundo critério humano, entre judeus e cristãos não será tirada antes de que Deus tenha salvo o mundo inteiro, conforme o profetizam as Escrituras.

Os cristãos conhecem a Deus e lhe servem através de Jesus Cristo e da tradição cristã. Os judeus conhecem Deus e lhe servem através da Toráh e da tradição judaica. Essa diferença não será desfeita, nem por uma das comunidades insistir em que ela é que interprete a Escritura mais corretamente que a respetiva outra, nem por uma comunidade exercer poder político sobre a outra. Assim como judeus reconhecem a fidelidade dos cristãos na sua Revelação, esperamos dos cristãos que respeitem a nossa fidelidade referente à nossa revelação. Nem a judia nem a cristã seja urgida aceitar a doutrina da outra comunidade.

Um renovado relacionamento entre Judeus e cristãos não vai enfraquecer a praxe judaica.

Um relacionamento melhorado não vai acelerar a, temida por judeus com razão, assimilação cultural e religiosa. Nem vai mudar as formas judaicas tradicionais de adoração, nem vai promover casamentos interreligiosos entre judeus e nao-judeus, nem vai aumentar a motivação de judeus se converterem à Cristandade, e nem uma inconveniente mistura entre Judaísmo e Cristandade. Reconhecemos a Cristandade como uma fé que provém do Judaísmo e continua dispondo de importantes contatos com este. Não consideramos a Cristandade uma como extensão do Judaísmo. Não podemos sinceramente manter as nossas relações uns com os outros, senão cultivarmos as nossas próprias tradições.

Judeus e cristãos devem empenhar-se juntos pela justiça pela paz.

Judeus e Cristãos conhecem, cada um ao seu modo, a não-redenção do mundo, como esta se manifesta em permanente perseguição, pobreza, degradação e miséria humanas. Se bem que justiça e paz repousam em última instância nas mãos de Deus, os nossos esforços comuns, junto com aqueles de outras comunidades de fé, ajudarão a trazer o Reino de Deus, que esperamos e ansiamos. Separados e unidos devemos trabalhar para que justiça e paz entrem no nosso mundo. A visão dos profetas de Israel é para nós guia comum nisso.

"Dias virão em que o monte da casa do Senhor será estabelecido no mais alto das montanhas e se alçará acima de todos os outeiros. A ele acorrerão todas as nações, muitos povos virão dizendo: ‘Vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que ele nos ensine os seus caminhos, e assim andemos nas suas veredas.’" (Is 2,2-3).

Tikva Frymer-Kensky, University of Chicago
David Novak, University of Toronto
Peter Ochs, University of Virginia
Michael Signer, University of Notre Dame

Tradução: Pedro von Werden SJ

Fonte: Jewish-Christian Relations

segunda-feira, 16 de março de 1998

Nós Recordamos: Uma Reflexão sobre o Shoah

COMISSÃO PARA AS RELAÇÕES RELIGIOSAS COM O JUDAÍSMO 
 
NÓS RECORDAMOS:
UMA REFLEXÃO SOBRE O SHOAH
 
 
I. A tragédia do Shoah e o dever da memória 

Está a concluir-se rapidamente o século XX e já desponta a aurora de um novo milénio cristão. O Bimilenário do nascimento de Jesus Cristo solicita todos os cristãos e convida, na realidade, cada homem e cada mulher a procurarem descobrir no fluxo da história os sinais da divina Providência em acção, e os modos como a imagem do Criador presente no homem foi ofendida e desfigurada. 

Esta reflexão refere-se a um dos principais sectores em que os católicos podem tomar a peito seriamente o apelo que João Paulo II lhes dirigiu na Carta Apostólica Tertio millennio adveniente: «Assim, quando o segundo milénio já se encaminha para o seu termo, é justo que a Igreja assuma com maior consciência o peso do pecado dos seus filhos, recordando todas aquelas circunstâncias em que, no arco da história, eles se afastaram do espírito de Cristo e do seu Evangelho, oferecendo ao mundo, em vez do testemunho de uma vida inspirada nos valores da fé, o espectáculo de modos de pensar e agir que eram verdadeiras formas de anti-testemunho e de escândalo» (1). 

O século actual foi testemunha de uma indizível tragédia, que jamais poderá ser esquecida: a tentativa do regime nazista de exterminar o povo judaico, com o consequente morticínio de milhões de judeus. Homens e mulheres, adultos e jovens, crianças e recém-nascidos, só porque eram de origem judaica, foram perseguidos e deportados. Alguns foram trucidados imediatamente, outros foram humilhados, maltratados, torturados, privados completamente da sua dignidade humana e, por fim, mortos. Pouquíssimos de quantos foram internados nos campos de concentração sobreviveram, e ficaram aterrorizados durante a vida inteira. Este foi o Shoah: um dos principais dramas da história deste século, um facto que ainda hoje nos diz respeito. 

Diante deste horrível genocídio, em que os responsáveis das nações e as próprias comunidades judaicas julgaram difícil acreditar no momento em que esse era perpetrado sem misericórdia. ninguém pode ficar indiferente, menos de todos a Igreja, em virtude dos seus vínculos estreitíssimos de parentesco espiritual com o povo judaico e da recordação que ela nutre das injustiças do passado. A relação da Igreja com o povo judaico é diferente daquela que entretece com qualquer outra religião (2). Não se trata apenas de retornar ao passado. O futuro comum de judeus e cristãos exige que nos recordemos, porque «não há futuro sem memória» (3). A própria história é memoria futuri.  

Ao dirigir esta reflexão aos nossos irmãos e irmãs da Igreja católica espalhados pelo mundo, pedimos a todos os cristãos que se unam a nós na reflexão sobre a catástrofe que atingiu o povo judaico, e sobre o imperativo moral de fazer com que o egoísmo e o ódio nunca venham a crescer a ponto de semear sofrimentos e morte (4). De modo particular, pedimos aos nossos amigos judeus, «cujo destino terrível se tornou símbolo da aberração a que pode chegar o homem, quando se volta contra Deus» (5), que predisponham o seu coração a escutar-nos. 


II. O que devemos recordar 

Ao dar o seu singular testemunho do Santo de Israel e da Tora, o povo judaico sofreu enormemente em diversos tempos e em muitos lugares. Mas o Shoah foi, sem dúvida, o pior sofrimento de todos. A inumanidade com que os judeus foram perseguidos e massacrados neste século supera a capacidade de expressão das palavras. E tudo isto lhes foi feito só porque eram judeus. 

A própria enormidade do crime suscita muitos interrogativos. Historiadores, sociólogos, filósofos, políticos, psicólogos e teólogos procuram conhecer mais acerca da realidade e das causas do Shoah. Muitos estudos especializados ainda devem ser feitos. Mas um semelhante evento não pode ser plenamente medido só através dos critérios ordinários da investigação histórica. Ele evoca uma «memória moral e religiosa» e, em particular entre os cristãos, uma reflexão muito séria sobre as causas que o provocaram. O facto de o Shoah ter tido lugar na Europa, isto é, em países de longa civilização cristã, apresenta a questão do relacionamento entre a perseguição nazista e as atitudes dos cristãos, ao longo dos séculos, em relação aos judeus. 


III. As relações entre judeus e cristãos 

A história das relações entre judeus e cristãos é uma história conturbada. Reconheceu-o o Santo Padre João Paulo II nos seus repetidos apelos aos católicos a considerarem a nossa atitude a respeito das nossas relações com o povo judaico (6). Com efeito, o balanço destas relações durante os dois milénios foi bastante negativo (7). 

No alvorecer do cristianismo, depois da crucifixão de Jesus, surgiram contrastes entre a Igreja primitiva e os chefes dos hebreus e o povo hebraico que, em obediência à Lei, às vezes se opuseram com violência aos pregadores do Evangelho e aos primeiros cristãos. No império romano, que era pagão, os hebreus eram legalmente protegidos pelos privilégios que o Imperador lhes garantia, e num primeiro momento as autoridades não fizeram distinção entre as comunidades hebraicas e cristãs. Muito cedo, porém, os cristãos foram vítimas da perseguição do Estado. Quando, em seguida, os próprios imperadores se converteram ao cristianismo, em primeiro lugar continuaram a garantir os privilégios aos hebreus. Mas grupos exacerbados de cristãos que atacavam os templos pagãos, nalguns casos fizeram o mesmo em relação às sinagogas, não sem sofrerem a influência de certas interpretações erróneas do Novo Testamento concernentes ao povo hebraico no seu conjunto. «No mundo cristão – não digo da parte da Igreja enquanto tal – circularam por demasiado tempo interpretações erróneas e injustas do Novo Testamento sobre o povo judaico e a sua presumível culpa, gerando sentimentos de hostilidade no que se refere a esse povo» (8). Tais interpretações do Novo Testamento foram total e definitivamente rejeitadas pelo Concílio Vaticano II (9).

Não obstante a pregação cristã do amor para com todos, compreendidos os próprios inimigos, a mentalidade prevalecente no decurso dos séculos penalizou as minorias e quantos eram de algum modo «diferentes». Os sentimentos de antijudaísmo nalguns ambientes cristãos e a divergência que existia entre a Igreja e o povo judaico conduziram a uma discriminação generalizada, que às vezes redundava em expulsões ou em tentativas de conversões forçadas. Numa grande parte do mundo «cristão», até ao final do século XVIII, quantos não eram cristãos nem sempre gozaram de um status jurídico plenamente garantido. Apesar disto, os judeus espalhados por todo o mundo cristão permaneceram fiéis às suas tradições religiosas e aos costumes que lhes são próprios. Por isso foram considerados com uma certa suspeita e desconfiança. Em tempos de crise como carestias, guerras e pestes ou de tensões sociais, a minoria judaica foi muitas vezes tomada como bode expiatório, tornando-se assim vítima de violências, saques e até mesmo massacres. 

Entre o final do século XVIII e o início do século XIX, os judeus tinham geralmente atingido uma posição de igualdade em relação aos outros cidadãos na maioria dos Estados, e um certo número deles chegou a desempenhar papéis influentes na sociedade. Mas neste mesmo contexto histórico, em particular no século XIX, surgiu um nacionalismo exasperado e falso. Num clima de rápida transformação social, os judeus foram muitas vezes acusados de exercer uma influência desproporcionada em relação ao seu número. Então começou a difundir-se a vários níveis, através da maior parte da Europa, um antijudaísmo que era essencialmente mais sócio-político do que religioso. 

No mesmo período, começaram a aparecer teorias que negavam a unidade da raça humana, afirmando uma originária diferença das raças. No século XX, o nacional-socialismo na Alemanha usou tais ideias como base pseudocientífica, para uma distinção entre as chamadas raças nórdico-arianas e as presumíveis raças inferiores. Além disso, uma forma extremista de nacionalismo foi estimulada na Alemanha pela derrota de 1918 e pelas condições humilhantes impostas pelos vencedores, com a consequência de que muitos viram no nacional-socialismo uma solução aos problemas do País e, por isso, cooperaram politicamente com este movimento. 

A Igreja na Alemanha respondeu condenando o racismo. Essa condenação apareceu pela primeira vez na pregação de alguns membros do clero, no ensinamento público dos Bispos católicos e nos escritos de jornalistas católicos. Já em Fevereiro e Março de 1931, o Cardeal Bertram de WrocLaw, o Cardeal Faulhaber e os Bispos da Baviera, os Bispos da Província de Colónia e os da Província de Friburgo publicaram Cartas pastorais que condenavam o nacional-socialismo, com a sua idolatria da raça e do Estado (10). No mesmo ano em que o nacional-socialismo chegou ao poder, em 1933, os famosos sermões do Advento do Cardeal Faulhaber, aos quais assistiram não só católicos, mas também protestantes e judeus, tiveram expressões de claro repúdio da propaganda nazista anti-semítica (11). A seguir à Kristallnacht, Bernard Lichtenberg, prepósito da Catedral de Berlim, elevou orações públicas pelos judeus. Ele morreu depois em Dachau e foi declarado Beato. 

Também o Papa Pio XI condenou o racismo nazista de modo solene na Encíclica Mit brennender Sorge (12), que foi lida nas igrejas da Alemanha no Domingo da Paixão de 1937, iniciativa que provocou ataques e sanções contra membros do clero. No dia 6 de Setembro de 1938, ao dirigir-se a um grupo de peregrinos belgas, Pio XI afirmou: «O anti-semitismo é inaceitável. Espiritualmente, todos somos semitas» (13). Pio XII, desde a sua primeira Encíclica Summi Pontificatus (14), de 20 de Outubro de 1939, pôs de sobreaviso contra as teorias que negavam a unidade da raça humana e contra a deificação do Estado, o que ele previa que haveriam de conduzir a uma verdadeira «hora das trevas» (15).


IV. O anti-semitismo nazista e o Shoah 

Não se pode ignorar a diferença que existe entre o anti-semitismo, baseado em teorias contrárias ao constante ensinamento da Igreja acerca da unidade do género humano e a igual dignidade de todas as raças e de todos os povos, e os sentimentos de suspeita e de hostilidade que perduram há séculos, a que chamamos antijudaísmo, dos quais, infelizmente, também cristãos foram culpados. 

A ideologia nacional-socialista foi também mais além, no sentido que recusou reconhecer qualquer realidade transcendente como fonte da vida e critério do bem moral. Como consequência, um grupo humano e o Estado, com o qual ele se identificara, arrogaram-se um valor absoluto e decidiram cancelar a própria existência do povo judaico, povo chamado a dar testemunho do único Deus e da Lei da Aliança. Em nível teológico não podemos ignorar o facto que não poucos membros do partido nazista não só demonstraram aversão à ideia de uma divina Providência actuante nas vicissitudes humanas, mas deram também prova de um ódio específico em relação a Deus mesmo. Logicamente, essa atitude levou também à rejeição do cristianismo e ao desejo de ver destruída a Igreja ou, pelo menos, submetida aos interesses do Estado nazista. 

Foi esta ideologia extrema que se tornou a base das medidas empreendidas, em primeiro lugar para desarraigar os judeus das suas casas e, depois, para os exterminar. O Shoah foi a obra de um típico regime moderno neopagão. O seu anti-semitismo tinha as próprias raízes fora do cristianismo e, ao buscar as próprias finalidades, não hesitou em opor-se à Igreja perseguindo também os seus membros. 

Mas devemos perguntar-nos se a perseguição do nazismo contra os judeus não foi facilitada por preconceitos antijudaicos, presentes nas mentes e nos corações de alguns cristãos. O sentimento antijudaico tornou porventura os cristãos menos sensíveis, ou até indiferentes, às perseguições lançadas contra os judeus pelo nacional-socialismo quando chegou ao poder? 

Qualquer resposta a esta pergunta deve ter em conta o facto que estamos a tratar da história de atitudes e modos de pensar de pessoas submetidas a múltiplas influências. Mais ainda, muitos ignoraram totalmente a «solução final» que estava para ser tomada contra um inteiro povo; outros tiveram medo para si mesmos e para os seus entes queridos; alguns tiraram proveito da situação; outros por fim foram movidos pela inveja. Uma resposta deve ser dada para cada caso e, para o fazer, é necessário conhecer aquilo que precisamente motivou as pessoas numa situação específica.

No início, os chefes do Terceiro Reich procuraram expulsar os judeus. Infelizmente, os Governos de alguns Países ocidentais de tradição cristã, inclusive alguns da América do Norte e do Sul, foram mais que hesitantes em abrir os seus confins aos judeus perseguidos. Ainda que não pudessem prever quanto distante teriam ido os hierarcas nazistas nas suas intenções criminosas, os chefes dessas nações tinham conhecimento das dificuldades e perigos a que estavam expostos os judeus que viviam nos territórios do Terceiro Reich. Naquelas circunstâncias, o fechamento das fronteiras à imigração judaica, devida à hostilidade antijudaica ou à suspeita antijudaica, à covardia ou à estreiteza de visão política ou ao egoísmo nacional, constitui um grave peso de consciência para as autoridades em questão. 

Nas terras onde o nazismo empreendeu a deportação em massa, a brutalidade que acompanhou estes movimentos forçados de pessoas inermes, deveria suscitar a suspeita do pior. Ofereceram os cristãos toda a assistência possível aos perseguidos, e em particular aos judeus? 

Muitos o fizeram, mas outros não. Aqueles que ajudaram a salvar o maior número possível de judeus, a ponto de pôr as suas vidas em perigo de morte, não devem ser esquecidos. Durante e depois da guerra, comunidades e personalidades judaicas expressaram a sua gratidão por tudo o que lhes fora feito, inclusive o que Pio XII fizera pessoalmente, ou através dos seus representantes, para salvar centenas de milhares de vidas de judeus (16). Por essa razão muitos Bispos, sacerdotes, religiosos e leigos, foram honrados pelo Estado de Israel. 

Não obstante isto, como o Papa João Paulo II reconheceu, ao lado desses corajosos homens e mulheres, a resistência espiritual e a acção concreta de outros cristãos não foi a que se poderia ter esperado de discípulos de Cristo. Não podemos conhecer quantos cristãos, em países ocupados ou governados pelas potências nazistas ou pelos seus aliados, constataram com horror o desaparecimento dos seus vizinhos judeus, mas entretanto não foram bastante fortes para elevar a sua voz de protesto. Para os cristãos este grave peso de consciência dos seus irmãos e irmãs durante a última guerra mundial deve ser um apelo ao arrependimento (17). 

Deploramos profundamente os erros e as culpas destes filhos e filhas da Igreja. Fazemos nosso aquilo que disse o Concílio Vaticano II na Declaração Nostra aetate, que de modo inequívoco afirma: «A Igreja... lembrada do seu comum património com os judeus, e levada não por razões políticas mas pela religiosa caridade evangélica, deplora todos os ódios, perseguições e manifestações de anti-semitismo, seja qual for o tempo em que isso sucedeu e seja quem for a pessoa que isso promoveu contra os judeus» (18).

Recordamos e fazemos nosso quanto o Papa João Paulo II, ao dirigir-se aos chefes da comunidade judaica de Estrasburgo em 1988, afirmou: «Reafirmo de novo juntamente convosco a mais firme condenação de qualquer anti-semitismo e de todo o racismo, que se opõem aos princípios do cristianismo» (19). A Igreja católica, portanto, repudia toda a perseguição, em qualquer lugar e em qualquer tempo, perpetrada contra um povo ou um grupo humano. Ela condena do modo mais firme todas as formas de genocídio, assim como as ideologias racistas que o tornaram possível. Ao dirigir o olhar para este século, sentimo-nos profundamente tristes pela violência que atingiu grupos inteiros de povos e de nações. Recordamos, de modo particular, o massacre dos arménios, as inúmeras vítimas na Ucrânia dos anos 30, o genocídio dos ciganos, fruto também ele de ideias racistas, e tragédias semelhantes ocorridas na América, na África e nos Balcãs. Nem queremos esquecer os milhões de vítimas da ideologia totalitária na União Soviética, na China, no Camboja e noutros lugares. Nem sequer podemos esquecer o drama do Médio Oriente, cujos termos são bem conhecidos. Mesmo enquanto fazemos a presente reflexão, «muitos homens continuam a ser vítimas dos próprios irmãos» (20). 


V. Olhando juntos para um futuro comum 

Olhando para o futuro das relações entre judeus e cristãos, em primeiro lugar pedimos aos nossos irmãos e irmãs católicos que renovem a consciência das raízes judaicas da sua fé. Pedimos-lhes que recordem que Jesus era um descendente de David; que do povo hebraico nasceram a Virgem Maria e os Apóstolos; que a Igreja haure sustento das raízes daquela boa oliveira na qual foram enxertados os ramos da oliveira selvática dos gentios (cf. Rm 11, 17-24); que os judeus são os nossos caros e amados irmãos, e que, num certo sentido, são verdadeiramente «os nossos irmãos maiores» (21). 

No termo deste Milénio a Igreja católica deseja exprimir a sua profunda tristeza pelas faltas dos seus filhos e das suas filhas em todas as épocas. Trata-se de um acto de arrependimento (teshuva): como membros da Igreja, de facto compartilhamos tanto os pecados como os méritos de todos os seus filhos. A Igreja aproxima-se, com profundo respeito e grande compaixão, da experiência do extermínio, o Shoah, sofrida pelo povo judaico durante a segunda guerra mundial. Não se trata de simples palavras, mas antes de um empenho vinculante: «Correríamos o perigo de fazer morrer de novo as vítimas das mais atrozes mortes, se não tivéssemos a paixão da justiça e nem nos empenhássemos, cada um segundo as próprias capacidades, em fazer com que o mal não prevaleça sobre o bem, como aconteceu em relação a milhões de filhos do povo judaico... A humanidade não pode permitir que isto aconteça de novo» (22). 

Pedimos que a nossa tristeza pelas tragédias que o povo judaico sofreu no nosso século leve a novas relações com esse povo. Desejamos transformar a consciência dos pecados do passado em firme empenho por um novo futuro, no qual já não haja sentimento antijudaico entre os cristãos, nem sentimento anticristão entre os judeus, mas sim um respeito recíproco compartilhado, como convém àqueles que adoram o único Criador e Senhor e têm um comum pai na fé, Abraão. 

Por fim, convidamos os homens e as mulheres de boa vontade a reflectirem profundamente sobre o significado do Shoah. As vítimas desde os seus túmulos, e os sobreviventes através do vívido testemunho de quanto sofreram, tornaram-se um forte clamor que chama a atenção da humanidade inteira. Recordar este terrível drama significa tomar plena consciência da advertência salutar que ele comporta: às sementes infectadas pelo antijudaísmo e pelo anti-semitismo jamais se deve consentir que lancem raiz no coração do homem. 

16 de Março de 1998.


Cardeal Edward Idris Cassidy Presidente
 D. Pierre Duprey Bispo Titular de Thibaris Vice-Presidente 
Pe. Remi Hoeckman, O.P. Secretário 


NOTAS 
1) JOÃO PAULO II, Carta Apost. Tertio millennio adveniente (10/11/1994), 33: AAS 87 (1995), 25. 
2) Cf. JOÃO PAULO II, Discurso por ocasião do encontro com a Comunidade judaica da cidade de Roma (13/4/1986), 4: AAS 78 (1986), 1120. 
3) JOÃO PAULO II, Angelus de 11/6/1995: Insegnamenti 18/1, [1995], 1712. 
4) Cf. JOÃO PAULO II, Discurso à Comunidade judaica de Budapeste (18/8/1991), 4: Insegnamenti 14/2, [1991], 349. 
5) JOÃO PAULO II, Carta Enc. Centesimus annus (1/5/1991), 17: AAS 83 (1991), 814-815. 
6) Cf. JOÃO PAULO II, Discurso aos Delegados das Conferências Episcopais para as Relações com o Judaísmo (6/3/1982): Insegnamenti 5/1, [1982], 743-747. 
7) Cf. Comissão da Santa Sé para as Relações religiosas com os judeus, Notas sobre o correcto modo de apresentar os judeus e o judaísmo na pregação e na catequese na Igreja católica romana (24/6/1985) VI, 1: Ench. Vat. 9, 1656. 
8) JOÃO PAULO II, Discurso aos participantes no encontro de estudo sobre «Raízes do antijudaísmo em ambiente cristão» (31/10/1997), 1: L'Osservatore Romano, ed. port. de 8/11/1997, pág. 4.
9) Cf. Nostra aetate, 4. 
10) Cf. B. STATIEWSKI (Ed.), Akten deutscher Bischöfe über die Lage der Kirche, 1933-1945, vol. I, 1933-1934 (Mainz 1968), Apêndice. 
11) Cf. L. VOLK, Der Bayerische Episkopat und der Nationalsozialismus 1930- 1934 (Mainz 1966), pp. 170-174. 
12) 14 de Março de 1937: AAS 29 (1937), 145-167. 
13) La Documentation Catholique, 29 (1938), col. 1460. 
14) AAS 31 (1939), 413-453. 
15) Ibid., 449. 
16) Organizações e personalidades judaicas representativas reconheceram várias vezes oficialmente a sabedoria da diplomacia do Papa Pio XII. Por exemplo, na quinta-feira 7 de Setembro de 1945 Giuseppe Nathan, Comissário da União das Comunidades Israelitas Italianas, declarou: «Em primeiro lugar dirigimos uma reverente homenagem de reconhecimento ao Sumo Pontífice, aos religiosos e às religiosas que, actuando as directrizes do Santo Padre, não viram nos perseguidos senão irmãos, e com impulso e abnegação prestaram a sua obra inteligente e eficaz para nos socorrer, não tendo medo dos gravíssimos perigos a que se expunham» (L'Osserv. Rom. ed. quot. de 8/9/1945, pág. 2). No dia 21 de Setembro do mesmo ano, Pio XII recebeu o Dr. A. Leo Kubowitzki, Secretário-Geral do «World Jewish Congress», em audiência para apresentar «ao Santo Padre, em nome da União das Comunidades Israelitas, os mais sentidos agradecimentos pela obra realizada pela Igreja católica a favor da população judaica em toda a Europa durante a guerra» (L'Osserv. Rom. ed. quot. de 23/9/1945, pág. 1). Na quinta-feira, 29 de Novembro de 1945, o Papa recebeu cerca de 80 delegados dos refugiados judeus, provenientes dos campos de concentração na Alemanha, que vieram manifestar-lhe «a suma honra de poder agradecer pessoalmente ao Santo Padre a sua generosidade demonstrada para com eles, perseguidos durante o terrível período do nazifascismo» (L'Osserv. Rom. ed. quot. de 30/11/1945, pág. 1). Em 1958, por ocasião da morte do Papa Pio XII, Golda Meir enviou uma eloquente mensagem: «Compartilhamos a tristeza da humanidade... Quando o terrível martírio se abateu sobre o nosso povo, a voz do Papa elevou-se em favor das suas vítimas. A vida do nosso tempo foi enriquecida por uma voz que falou claramente acerca das grandes verdades morais, acima do tumulto do conflito quotidiano. Choramos um grande servidor da paz». 
17) Cf. JOÃO PAULO II, Discurso ao novo Embaixador da República Federal da Alemanha (8/11/1990), 2: AAS 83 (1991), 587-588. 
18) N. 4. 
19) N. 8: Insegnamenti 11/3, [1988], 1134. 
20) JOÃO PAULO II, Discurso aos membros do Corpo Diplomático (15/1/1994), 9: AAS 86 (1994), 816. 
21) JOÃO PAULO II, Discurso por ocasião do encontro com a Comunidade judaica da cidade de Roma (13/4/1986), 4: AAS 78 (1986), 1120. 
22) JOÃO PAULO II, Discurso por ocasião da comemoração do Holocausto (7/4/1994), 3: Insegnamenti 17/1, [1994], 897 e 893.

sábado, 28 de outubro de 1995

Declaração Nostra Aetate sobre a Igreja e as Religiões Não-Cristãs

Laços comuns da humanidade e inquietação religiosa do homem;

a resposta das diversas religiões não-cristãs e sua relação com a Igreja

1. Hoje, que o género humano se torna cada vez mais unido, e aumentam as relações entre os vários povos, a Igreja considera mais atentamente qual a sua relação com as religiões não-cristãs. E, na sua função de fomentar a união e a caridade entre os homens e até entre os povos, considera primeiramente tudo aquilo que os homens têm de comum e os leva à convivência.

Com efeito, os homens constituem todos uma só comunidade; todos têm a mesma origem, pois foi Deus quem fez habitar em toda a terra o inteiro género humano (1); têm também todos um só fim último, Deus, que a todos estende a sua providência, seus testemunhos de bondade e seus desígnios de salvação (2) até que os eleitos se reunam na cidade santa, iluminada pela glória de Deus e onde todos os povos caminharão na sua luz (3). Os homens esperam das diversas religiões resposta para os enigmas da condição humana, os quais, hoje como ontem, profundamente preocupam seus corações: que é o homem? qual o sentido e a finalidade da vida? que é o pecado? donde provém o sofrimento, e para que serve? qual o caminho para alcançar a felicidade verdadeira? que é a morte, o juízo e a retribuição depois da morte? finalmente, que mistério último e inefável envolve a nossa existência, do qual vimos e para onde vamos?

Hinduísmo e Budismo

2. Desde os tempos mais remotos até aos nossos dias, encontra-se nos diversos povos certa percepção daquela força oculta presente no curso das coisas e acontecimentos humanos; encontra-se por vezes até o conhecimento da divindade suprema ou mesmo de Deus Pai. Percepção e conhecimento esses que penetram as suas vidas de profundo sentido religioso. Por sua vez, as religiões ligadas ao progresso da cultura, procuram responder às mesmas questões com noções mais apuradas e uma linguagem mais elaborada. Assim, no hinduísmo, os homens perscrutam o mistério divino e exprimem-no com a fecundidade inexaurível dos mitos e os esforços da penetração filosófica, buscando a libertação das angústias da nossa condição quer por meio de certas formas de ascetismo, quer por uma profunda meditação, quer, finalmente, pelo refúgio amoroso e confiante em Deus. No budismo, segundo as suas várias formas, reconhece-se a radical insuficiência deste mundo mutável, e propõe-se o caminho pelo qual os homens, com espírito devoto e confiante, possam alcançar o estado de libertação perfeita ou atingir, pelos próprios esforços ou ajudados do alto a suprema iluminação. De igual modo, as outras religiões que existem no mundo procuram de vários modos ir ao encontro das inquietações do coração humano, propondo caminhos, isto é, doutrinas e normas de vida e também ritos sagrados.

A Igreja católica nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo. Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia, reflectem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens. No entanto, ela anuncia, e tem mesmo obrigação de anunciar incessantemente Cristo, «caminho, verdade e vida» (Jo. 14,6), em quem os homens encontram a plenitude da vida religiosa e no qual Deus reconciliou consigo todas as coisas (4).

Exorta, por isso, os seus filhos a que, com prudência e caridade, pelo diálogo e colaboração com os sequazes doutras religiões, dando testemunho da vida e fé cristãs, reconheçam, conservem e promovam os bens espirituais e morais e os valores sócio culturais que entre eles se encontram.

A religião do Islão

3. A Igreja olha também com estima para os muçulmanos. Adoram eles o Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra (5), que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o coração, como a Deus se submeteu Abraão, que a fé islâmica de bom grado evoca. Embora sem o reconhecerem como Deus, veneram Jesus como profeta, e honram Maria, sua mãe virginal, à qual por vezes invocam devotamente. Esperam pelo dia do juízo, no qual Deus remunerará todos os homens, uma vez ressuscitados. Têm, por isso, em apreço a vida moral e prestam culto a Deus, sobretudo com a oração, a esmola e o jejum.

E se é verdade que, no decurso dos séculos, surgiram entre cristãos e muçulmanos não poucas discórdias e ódios, este sagrado Concílio exorta todos a que, esquecendo o passado, sinceramente se exercitem na compreensão mútua e juntos defendam e promovam a justiça social, os bens morais e a paz e liberdade para todos os homens.

A religião judaica

4. Sondando o mistério da Igreja, este sagrado Concílio recorda o vínculo com que o povo do Novo Testamento está espiritualmente ligado à descendência de Abraão.

Com efeito, a Igreja de Cristo reconhece que os primórdios da sua fé e eleição já se encontram, segundo o mistério divino da salvação, nos patriarcas, em Moisés e nos profetas. Professa que todos os cristãos, filhos de Abraão segundo a fé (6), estão incluídos na vocação deste patriarca e que a salvação da Igreja foi misticamente prefigurada no êxodo do povo escolhido da terra da escravidão. A Igreja não pode, por isso, esquecer que foi por meio desse povo, com o qual Deus se dignou, na sua inefável misericórdia, estabelecer a antiga Aliança, que ela recebeu a revelação do Antigo Testamento e se alimenta da raiz da oliveira mansa, na qual foram enxertados os ramos da oliveira brava, os gentios (7). Com efeito, a Igreja acredita que Cristo, nossa paz, reconciliou pela cruz os judeus e os gentios, de ambos fazendo um só, em Si mesmo (8).

Também tem sempre diante dos olhos as palavras do Apóstolo Paulo a respeito dos seus compatriotas: «deles é a adopção filial e a glória, a aliança e a legislação, o culto e as promessas; deles os patriarcas, e deles nasceu, segundo a carne, Cristo» (Rom. 9, 4-5), filho da Virgem Maria. Recorda ainda a Igreja que os Apóstolos, fundamentos e colunas da Igreja, nasceram do povo judaico, bem como muitos daqueles primeiros discípulos, que anunciaram ao mundo o Evangelho de Cristo.

Segundo o testemunho da Sagrada Escritura, Jerusalém não conheceu o tempo em que foi visitada (9); e os judeus, em grande parte, não receberam o Evangelho; antes, não poucos se opuseram à sua difusão (10). No entanto, segundo o Apóstolo, os judeus continuam ainda, por causa dos patriarcas, a ser muito amados de Deus, cujos dons e vocação não conhecem arrependimento (11). Com os profetas e o mesmo Apóstolo, a Igreja espera por aquele dia. só de Deus conhecido, em que todos os povos invocarão a Deus com uma só voz e «o servirão debaixo dum mesmo jugo» (Sof. 3,9) (12).

Sendo assim tão grande o património espiritual comum aos cristãos e aos judeus, este sagrado Concílio quer fomentar e recomendar entre eles o mútuo conhecimento e estima, os quais se alcançarão sobretudo por meio dos estudos bíblicos e teológicos e com os diálogos fraternos.

Ainda que as autoridades dos judeus e os seus sequazes urgiram a condenação de Cristo à morte (13) não se pode, todavia, imputar indistintamente a todos os judeus que então viviam, nem aos judeus do nosso tempo, o que na Sua paixão se perpetrou. E embora a Igreja seja o novo Povo de Deus, nem por isso os judeus devem ser apresentados como reprovados por Deus e malditos, como se tal coisa se concluísse da Sagrada Escritura. Procurem todos, por isso, evitar que, tanto na catequese como na pregação da palavra de Deus, se ensine seja o que for que não esteja conforme com a verdade evangélica e com o espírito de Cristo.

Além disso, a Igreja, que reprova quaisquer perseguições contra quaisquer homens, lembrada do seu comum património com os judeus, e levada não por razões políticas mas pela religiosa. caridade evangélica. deplora todos os ódios, perseguições e manifestações de anti-semitismo, seja qual for o tempo em que isso sucedeu e seja quem for a pessoa que isso promoveu contra os judeus.

De resto, como a Igreja sempre ensinou e ensina, Cristo sofreu, voluntariamente e com imenso amor, a Sua paixão e morte, pelos pecados de todos os homens, para que todos alcancem a salvação. O dever da Igreja, ao pregar, é portanto, anunciar a cruz de Cristo como sinal do amor universal de Deus e como fonte de toda a graça.

A fraternidade universal e a reprovação de toda a discriminação racial ou religiosa

5. Não podemos, porém, invocar Deus como Pai comum de todos, se nos recusamos a tratar como irmãos alguns homens, criados à Sua imagem. De tal maneira estão ligadas a relação do homem a Deus Pai e a sua relação aos outros homens seus irmãos, que a Escritura afirma: «quem não ama, não conhece a Deus» (1 Jo. 4,8).

Carece, portanto, de fundamento toda a teoria ou modo de proceder que introduza entre homem e homem ou entre povo e povo qualquer discriminação quanto à dignidade humana e aos direitos que dela derivam.

A Igreja reprova, por isso, como contrária ao espírito de Cristo, toda e qualquer discriminação ou violência praticada por motivos de raça ou cor, condição ou religião. Consequentemente, o sagrado Concílio, seguindo os exemplos dos santos Apóstolos Pedro e Paulo, pede ardentemente aos cristãos que, «observando uma boa conduta no meio dos homens. (1 Ped. 2,12), se ‚ possível, tenham paz com todos os homens (14), quanto deles depende, de modo que sejam na verdade filhos do Pai que está nos céus (15).

Roma, 28 de Outubro de 1965.

PAPA PAULO VI


Notas
1. Cfr. Act. 17,26.
2. Cfr. Sab. 8,1; Act. 14,17; Rom. 2, 6-7;1 Tim. 2,4.
3. Cfr. Apoc. 21, 23-24
4. Cfr. 2 Cor. 5, 18-19.
5. Cfr. S. Gregório VII, Carta III, 21 a Anazir (Al-Názir), Rei da Mauritânia: ed. E. Gaspar, em MGH, Ep. sel. II, 1820, I; p. 288, 11-15; PL 148, 451 A.
6. Cfr. Gál. 3,7.
7. Cfr. Rom. 11, 17-24.
8. Cfr. Ef. 2, 14-16.
9. Cfr. Lc. 19,44.
10. Cfr. Rom. 11,28.
11. Cfr. Rom. 11, 28-29; Cfr. Conc. Vat. II, Const. dogm. De Ecclesia., Lumen gentium: AAS 57, (1965), p. 20.
12. Cfr. Is. 66,23; Salm. 65,4; Rom. 11, 11-32.
13. Cfr. Jo. 19,6.
14. Cfr. Rom. 12,18.
15. Cfr. Mt. 5,45

Fonte: Vaticano