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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Novas Gerações do CJL debate a relação entre judeus e católicos

Jack Terpins, Dom Pedro Scherer e Rabino Michel Schlesinger. Foto: Fisesp

Ontem (28/7), o Programa de Novas Gerações do Congresso Judaico Latino-Americano- CJL, com a presença de seu presidente, o brasileiro Jack Terpins, e de um representante do grupo vindo especialmente para a ocasião, Javier Mutal, organizou uma nova atividade, no Clube ‘A Hebraica’.

Os convidados foram Dom Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, e o Rabino Michel Schlesinger, Rabino da Congregação Israelita Paulista – CIP, que falaram sobre a atual relação da Igreja Católica com a comunidade Judaica, tanto no Brasil como no mundo.

A noite foi aberta pelo coordenador do Programa de Novas Gerações no Brasil, Marcelo Secemski, que deu às boas vindas a todos e por Terpins, que lembrou que ele próprio, o rabino e o Cardeal já estiveram juntos no Mèxico, em um encontro da maior importância para o diálogo inter-religioso, e que essa é uma premissa do CJL. Também, enalteceu a liberdade que há no Brasil de cada optar por seguir sua fé e professá-la livremente.

Em seguida, a palavra foi dada a Javier Mutal, que explanou sobre o Programa de Novas Gerações, desenvolvido em vários países da América Latina,e que tem por objetivo incentivar e formar novas lideranças, a partir da constante capacitação de jovens em seminários e cursos diversos no País e Exterior e sua participação e em sessões de organismos internacionais, palestras com personalidades do mundo político e comunitário, lideranças etc.

O Rabino Michel iniciou com um retrospecto dos laços de trabalho conjunto entre a Igreja Católica e os esforços nesse sentido, lembrando que no Brasil, em fevereiro de 1981 foi criada a Comissão de Diálogo Inter-religioso, e que atua, basicamente, em três frentes, a saber: o diálogo institucional, o teológico para viabilizar estudos de conhecimento mútuo sobre cada fé, e como não poderia deixar de ser, as ações conjuntas entre elas.

O Cardeal reafirmou as palavras do rabino, e destacou que o Diálogo tem uma longa e frutuosa história. Disse ele: “Temos um afeto e proximidade ao povo de Israel e à comunidade judaica e à sua sabedoria”. E concluiu: “Que este Encontro sirva para a valorização para nossa herança e tarefa comum”.

Ambos, apostaram no conhecimento das crenças, costumes, história, para incentivar a harmonia entre os seres. “Que possamos sempre promover ocasiões de conhecimento e diálogo. Isso é o que permite se espantar os fantasmas”, concluiu Dom Odilo.

Após uma sessão de perguntas, o Rabino Michel encerrou a noite, citando Amos Oz, e no mesmo tom, reforçou que temos que procurar o que nos une.

Fonte: Fisesp

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Vaticano pode reviver oração que propõe conversão de judeus

Valquiria Rey
De Roma
O Vaticano divulga neste sábado um decreto que prevê o retorno das missas em latim e que pode reintroduzir aos rituais católicos nas igrejas uma polêmica oração que pede a conversão de judeus ao catolicismo.

A probabilidade do retorno da oração, que havia sido colocada de lado da liturgia católica na década de 1960, ganhou repercussão na imprensa e preocupa grupos do diálogo entre cristãos e judeus, que avaliam a medida como um retrocesso da postura atual do Vaticano em relação ao Judaísmo.

“Espero que seja um alarme injustificado”, disse à BBC Brasil Riccardo Di Segni, rabino-chefe da Comunidade Judaica de Roma. “Espero que não aconteça nada disto, que sejam apenas rumores.”

No Vaticano, ninguém comenta o assunto. Há apenas uma declaração de que não é possível confirmar ou desmentir qualquer informação, porque o documento assinado pelo papa Bento 16 é considerado secreto até o momento da publicação. Ao certo, sabe-se apenas que o papa quer permitir o retorno da missa em latim.

A parte do missal que gerou a polêmica diz: "Oremos pelos judeus, para que Deus retire o véu que cobre seus corações e lhes faça conhecer nosso senhor Jesus Cristo".

Luigi Accattoli, vaticanista do jornal Corriere della Sera, aposta na possibilidade de que o papa coloque no texto uma cláusula excluindo a oração, que, teme-se, possa prejudicar as relações entre católicos e judeus.

“Em nome da sua nacionalidade e da militância que teve no passado na juventude nazista, torço para que o papa Bento 16 tenha sensibilidade suficiente para excluir estes versos”, afirmou o teólogo Brunetto Salvaranni, especialista em diálogo cristão-judaico. “Mas se isto realmente acontecer, será muito grave e provocará grande abalo no diálogo entre judeus e católicos”.

O texto do papa sobre o retorno da missa em latim está pronto há vários meses. Mas seu lançamento vem sendo adiado sem maiores explicações.

No final do mês passado, Bento 16 esteve reunido com um grupo de 25 bispos, quando foram distribuídas as primeiras cópias do documento e da carta que será enviada aos episcopados de todo o mundo.

Segundo alguns bispos que participaram do encontro, o papa foi muito claro ao dizer que a antiga forma de celebrar a missa passará a ser o novo rito nas igrejas.

O documento do pontífice, conhecido como Motu Proprio Summorum Pontificum, dará mais liberdade para que os padres celebrem missas em latim.

Hoje, eles precisam pedir autorização às dioceses para celebrá-la e, na maioria das vezes, os bispos se recusam a dá-la.

Há uma grande expectativa - e um grande mistério - em torno do teor da carta explicativa do papa que acompanhará o documento.

Em Roma, especula-se que, além de agradar os tradicionalistas, ela possa trazer críticas a sacerdotes carismáticos que avançaram nas celebrações além das determinações do Concílio Vaticano II, com a inclusão de músicas e danças populares.

No caso do Brasil, o exemplo mais notório é o do padre Marcelo Rossi.

O retorno da missa em latim agrada aos tradicionalistas, que rejeitaram as reformas aprovadas pelo Concílio Vaticano II, entre elas a troca do latim pelos idiomas locais na liturgia.

No entanto, o decreto é polêmico entre os defensores das reformas feitas na década de 1960 - que mudaram a postura da Igreja, afirmando o amor de Deus pelos judeus e conclamando o respeito e a cooperação diante dos outros credos religiosos.

À estas alterações é creditada uma melhora nas relações entre católicos e judeus, pois elas dão destaque às raízes judaicas do cristianismo e rechaçam a culpa coletiva dos judeus pela morte de Jesus Cristo.

Os contatos foram intensificadas com o pontificado de João Paulo 2º, que esteve numa sinagogga em Roma, em 1985, visitou Jerusalém e pediu perdão pelos erros dos católicos diante dos judeus.

Na avaliação dos reformistas, a volta do latim poderá incentivar os conservadores a seguir questionando as reformas do Concílio Vaticano II, podendo gerar mais divisões na Igreja Católica.

Fonte: BBC Brasil

quinta-feira, 3 de abril de 2003

Judeus criticam artigo de bispo na XII Assembleia Nacional do Diálogo Católico Judaico

Reunidos na XII Assembléia anual realizada em Belo-Horizonte de 30 a 31 de março, a Comissão Nacional de Dialogo Católico-Judaico, enviou uma carta ao Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, dom Jayme Chemello, discordando do artigo e declarações do Arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings, veiculada na mídia, a respeito do Holocausto e dos Judeus.

Segue a integra da Carta
Exmo e Revmo. Sr.

Dom Jayme Chemello

DD. Presidente da Conferência

Nacional dos Bispos do Brasil



       Prezado Dom Jayme,

       Nós, católicos e Judeus participantes da XII Assembléia Anual do Diálogo Católico Judaico sentimo-nos impelidos, em espírito fraternal, a manifestar a nossa discordância com as recentes declarações do arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings, veiculadas pela ínternet, a respeito do Holocausto e dos Judeus.


    É um fato histórico a tentativa de eliminação total dos Judeus existentes nos países sob dominação nazista. Poucos realmente escaparam de tão monstruoso massacre. O número de 6 milhões de vítimas é um cálculo com base na população judia daquelas regiões antes da segunda guerra mundial. Os que, no fim, faltavam morreram sobretudo em campos de extermínio, mas também vitimados por massacres, promovidos pelo regime ou em consequência da fome e da miséria oficialmente instaladas nos guetos onde foram encerrados. Além disso, o mais monstruoso não é o número, mas tentativa de eliminação total de um povo, sem exceção de pessoas. A consciência da humanidade clama contra tal crime.


    Sem dúvida, houve também muitos cristãos que morreram vítimas do nazismo,inclusive em razão de sua fé (por exemplo o Pe. Alfredo Delpp, o Pastor Bonhofer, Maxiliano Kolbe, etc). Mas não houve nenhum plano de eliminação fisica de todos os cristãos.


    Quanto à figura do Papa Pio XII, que muitos de nós admiramos, lembramos apenas que existe uma Comissão Internacional de Historiadores Judeus e Católicos, encarregada de um estudo aprofundado do tema. A abertura dos Arquivos Vaticanus referentes ao Pontificado de Pio XI certamente ajudará a lançar luz sobre a figura do Papa Pacelli.


    Por outro lado, não parece adequado falar, de modo genérico, que "os Judeus" ou "os Católicos" dizem ou fazem isto ou aquilo. Tais simplificações não ajudam na construção do diálogo que nós ardentemente procuramos.

    Atenciosamente,


Comissão Nacional do Dialogo
Católico/Judaico da CNBB

Fonte: Catolicanet

domingo, 10 de setembro de 2000

Dab'ru êmet - Uma Posição judaica perante cristãos e Cristandade

Nos anos passados, tem-se consumado uma mudança dramática e inimaginável nas relações cristãs-judaicas. Durante os aproximadamente dois mil anos do exílio judaico, os cristãos consideraram geralmente o Judaísmo uma como religião fracassada ou, na melhor das hipóteses, uma como religião precursora, a qual preparara o caminho à Cristandade e nesta teria chegada ao seu cumprimento. Nos decênios após o Holocausto, porém, a Cristandade mudou dramaticamente. Um número crescente de associações, entre elas tanto romano-católicos como protestantes, expressaram em declarações públicas o seu arrependimento sobre os maus tratos de judeus e o Judaísmo. Além disso, essas declarações tornaram explícita como a doutrina e pregação cristãs podem e devem ser reformadas, para reconhecer a Aliança de Deus com o povo judaico como invariavelmente válida e apreciar a contribuição do Judaísmo para a cultura mundial e para a própria fé cristã.

Estamos convencidos que essas mudanças merecem uma bem pensada resposta judaica. Como um grupo de cientistas judaicos de correntes diferentes – que não fala senão em seu próprio nome – estamos convencidos que está na hora para dos judeus pensarem no que o Judaísmo tem a dizer hoje à Cristandade. Como um primeiro passo queremos explicar em oito concisos pontos como judeus e cristãos poderiam estar em relação uns com os outros.

Judeus e cristãos adoram o mesmo Deus.

Antes do surgimento da Cristandade eram somente os judeus que adoravam o Deus de Israel. Mas também os cristãos adoram o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, o criador do céu e da terra. Se bem que a fé cristã não represente uma alternativa aceitável para judeus, alegramo-nos como teólogos judaicos porque tantos milhões de gente entraram em relação com o Deus de Israel através da Cristandade.

Judeus e Cristãos apoiam-se no mesmo livro – a Bíblia (que os judeus chamam de "Tenak" e os cristãos o "Antigo Testamento").

Nele procuramos orientação religiosa e enriquecimento espiritual e mentalidade comunitária, tirando dele ensinamentos semelhantes: Deus criou e mantém o universo; Deus fez uma aliança com o povo de Israel, e é a palavra de Deus que conduz Israel a uma vida em justiça; afinal, Deus salvará Israel e o mundo inteiro. Não obstante, judeus e cristãos interpretam a Bíblia diferentemente. Essas diferenças devem ser respeitadas.

Cristãos respeitam a reivindicação do país de Israel pelo povo judaico.

Para os judeus, o restabelecimento do Estado de Israel no país prometido representa o acontecimento mais significante desde o holocausto. Como pertencentes a uma religião biblicamente fundada, cristãos estão gratos porque Israel foi prometido e dado aos judeus como concreta encarnação da Aliança entre eles e Deus. Muitos cristãos apoiam o Estado de Israel por razões muito mais profundas do que tais de natureza política. Como judeus, recebemos bem esse apoio. Além disso, sabemos que a tradição judaica manda justiça para todos os não-judeus que viverem no estado judaico.

Judeus e Cristãos reconhecem os princípios morais da Toráh.

No centro dos princípios morais da Toráh estão a santidade e dignidade inalienáveis de cada pessoa humana. Nós todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Essa atitude moral comum pode ser o fundamento para uma relação melhorada entre as nossas duas comunidades. Mais além, pode chegar a ser fundamento dum vigoroso testemunho para toda a humanidade, servindo para o melhoramento da vida dos nossos semelhantes e contra a imoralidade e idolatria, as quais nos ferem e degeneram. Um tal testemunho é urgente, principalmente após os horrores sem pares do século passado.

O Nazismo não era um fenômeno cristão.

Sem a longa história de antijudaísmo cristão e violência cristã contra os judeus, porém, a ideologia nacionalsocialista não teria podido existir, nem ter-se realizado. Demasiado número de cristãos participaram das crueldades contra os judeus ou as aprovaram. Outros cristãos, ainda, não protestavam o suficiente contra estas crueldades. Mesmo assim, o Nacionalsocialismo mesmo não era um produto automático do Cristianismo. Tivessem os nacionalsocialistas conseguido a destruição total dos judeus, sua fúria homicida ter-se-ia dirigido diretamente contra os cristãos. Com gratidão lembramo-nos daqueles cristãos que durante o domínio nacionalsocialista arriscaram ou sacrificaram as suas vidas para salvar judeus. Tendo em vista estes cristãos, exigimos a continuação dos recentes esforços na teologia cristã, para rejeitar univocamente o desprezo do Judaísmo e do povo judaico. Louvamos aqueles cristãos que recusam esse ensino de desdém e não os acusamos por causa dos pecados dos seus antecedentes.

A diferença, irreconciliável segundo critério humano, entre judeus e cristãos não será tirada antes de que Deus tenha salvo o mundo inteiro, conforme o profetizam as Escrituras.

Os cristãos conhecem a Deus e lhe servem através de Jesus Cristo e da tradição cristã. Os judeus conhecem Deus e lhe servem através da Toráh e da tradição judaica. Essa diferença não será desfeita, nem por uma das comunidades insistir em que ela é que interprete a Escritura mais corretamente que a respetiva outra, nem por uma comunidade exercer poder político sobre a outra. Assim como judeus reconhecem a fidelidade dos cristãos na sua Revelação, esperamos dos cristãos que respeitem a nossa fidelidade referente à nossa revelação. Nem a judia nem a cristã seja urgida aceitar a doutrina da outra comunidade.

Um renovado relacionamento entre Judeus e cristãos não vai enfraquecer a praxe judaica.

Um relacionamento melhorado não vai acelerar a, temida por judeus com razão, assimilação cultural e religiosa. Nem vai mudar as formas judaicas tradicionais de adoração, nem vai promover casamentos interreligiosos entre judeus e nao-judeus, nem vai aumentar a motivação de judeus se converterem à Cristandade, e nem uma inconveniente mistura entre Judaísmo e Cristandade. Reconhecemos a Cristandade como uma fé que provém do Judaísmo e continua dispondo de importantes contatos com este. Não consideramos a Cristandade uma como extensão do Judaísmo. Não podemos sinceramente manter as nossas relações uns com os outros, senão cultivarmos as nossas próprias tradições.

Judeus e cristãos devem empenhar-se juntos pela justiça pela paz.

Judeus e Cristãos conhecem, cada um ao seu modo, a não-redenção do mundo, como esta se manifesta em permanente perseguição, pobreza, degradação e miséria humanas. Se bem que justiça e paz repousam em última instância nas mãos de Deus, os nossos esforços comuns, junto com aqueles de outras comunidades de fé, ajudarão a trazer o Reino de Deus, que esperamos e ansiamos. Separados e unidos devemos trabalhar para que justiça e paz entrem no nosso mundo. A visão dos profetas de Israel é para nós guia comum nisso.

"Dias virão em que o monte da casa do Senhor será estabelecido no mais alto das montanhas e se alçará acima de todos os outeiros. A ele acorrerão todas as nações, muitos povos virão dizendo: ‘Vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que ele nos ensine os seus caminhos, e assim andemos nas suas veredas.’" (Is 2,2-3).

Tikva Frymer-Kensky, University of Chicago
David Novak, University of Toronto
Peter Ochs, University of Virginia
Michael Signer, University of Notre Dame

Tradução: Pedro von Werden SJ

Fonte: Jewish-Christian Relations

quinta-feira, 7 de junho de 1979

Papa João Paulo II visita Auschwitz

Foto: Notícias Terra

O Papa polones João Paulo II visitou, hoje, Auschwitz - Birkenau, na Polonia, e meditou diante do "muro da morte" do antigo campo de extermínio nazista. Essa primeira visita de um papa à região evidenciou a disposição da Igreja Católica de prestar reverência às vítimas do genocídio perpetrado contra os judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

Homília do Santo Padre durante a
Celebração no Campo de Concentração de Brzezinka (Birkenau)

1. ... Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé (1 Jo. 5, 4)

Estas palavras da Carta de São João, vêm-me à mente e penetram-me o coração, quando me encontro neste lugar em que se verificou uma particular vitória da fé. Através da fé que faz nascer o amor de Deus e do próximo, o único amor, o amor supremo que está pronto a dar a vida pelos seus amigos (Jo. 15, 13; cfr. 10, 11), Uma vitória, pois, através do amor, que a fé vivificou até aos extremos do último testemunho.

Esta vitória através da fé e do amor trouxe-a para este lugar um homem cujo nome é Maximiliano Maria; de apelido: Kolbe; de profissão (como se escrevia nos registos do campo de concentração): sacerdote católico; de vocação: filho de São Francisco; de nascimento: filho de simples, laboriosos e devotos pais, tecelões nas proximidades de Lodz; por graça de Deus e por juízo da Igreja: beato.

A vitória mediante a fé e o amor trouxe-a esse homem para este lugar, que foi construído pela negação da fé — da fé em Deus e da fé no homem — e para espezinhar radicalmente não só o amor, mas todos os sinais da dignidade humana, da humanidade. Um lugar que foi construído sobre o ódio e sobre o desprezo do homem em nome de uma ideologia louca. Um lugar que foi construído sobre a crueldade. A ele conduz uma porta sobre a qual está colocada uma insrição «Arbeit Macht frei», que tem um som sardónico, porque o seu conteúdo era radicalmente nega do por aquilo que acontecia aqui dentro.

Neste lugar do terrível extermínio, que deu a morte a quatro milhões de homens de diversas nações, o padre Maximiliano, oferendo-se voluntariamente para morrer no «bunker» da fome em vez de um irmão, alcançou uma vitória espiritual semelhante à do próprio Cristo. Aquele irmão vive ainda hoje na terra polaca.

Mas o Padre Maximiliano Kolbe foi o único? Ele, sem dúvida, obteve uma vitória cujo influxo imediatamente sentiram os companheiros de prisão e ainda hoje sentem a Igreja e o mundo. Certamente, porém, muitas outras vitórias semelhantes se verificaram; penso, por exemplo, na morte no forno crematório de um campo de concentração, da Carmelita Irmã Benedita da Cruz, no mundo Edith Stein, ilustre aluna de Husserl, que se tornou ornamento da filosofia alemã contemporânea, e descendia de uma família hebreia residente em Wroclaw.

No lugar onde foi espezinhada de modo tão horrendo a dignidade do homem, a vitória obtida mediante a fé é o amor!

Pode ainda alguém admirar-se que o Papa, nascido e educado nesta terra, o Papa que foi para a Sé de São Pedro da diocese em cujo território se encontra o campo de Oswiecim (Auschwitz), tenha iniciado a sua primeira Encíclica com as palavras «Redemptor hominis» e que a tenha dedicado no conjunto à causa do homem, à dignidade do homem, às ameaças contra ele e por fim aos seus direitos inalienáveis que tão facilmente podem ser espezinhados e aniquilados pelos seus semelhantes? Basta revestir o homem com um uniforme diferente, armá-lo com todos os meios da violência, basta impor-lhe a ideologia em que os direitos do homem são submetidos às exigências do sistema, completamente submetidos, a ponto de não existir realmente...?

2. Venho aqui hoje como peregrino. Sabe-se que muitas vezes me encontrei aqui... Quantas vezes! E muitas vezes fui à cela da morte de Maximiliano Kolbe e me detive diante do muro do extermínio e passei entre os destroços dos fornos crematórios de Brzezinka. Não podia deixar de vir aqui como Papa.

Venho pois a este particular santuário, em que nasceu — posso dizer — o padroeiro do nosso difícil século, tal como há nove séculos sob a espada, em Rupella, nasceu Santo Estanislau, Padroeiro dos Polacos.

Venho para rezar com todos vós que hoje viestes aqui — e juntamente com toda a Polónia — e em união com toda a Europa. Cristo quer que eu, como Sucessor de Pedro, preste testemunho diante do mundo daquilo que constitui a grandeza do homem dos nossos tempos e a sua miséria. Daquilo que é a sua derrota e a sua vitória.

Venho e então ajoelho-me sobre este Gólgota do mundo contemporâneo, sobre estes túmulos, em grande parte sem nome, como o grande túmulo do Soldado Desconhecido. Ajoelho-me diante de todas as lápides que se sucedem e sobre as quais está gravada a comemoração das vítimas de Oswiecim (Auschwitz) nas seguintes línguas: Polaco, Inglês, Búlgaro, Cigano, Checo, Dinamarquês, Francês, Grego, Hebraico, Yddish, Espanhol, Flamengo, Servo-Croata, Alemão, Norueguês, Russo, Romeno, Húngaro e Italiano.
Em particular detenho-me juntamente convosco, queridos participantes neste encontro, diante da lápide com a inscrição em língua hebraica . Esta inscrição suscita a recordação daquele. Povo cujos filhos e filhas estavam destinados ao extermínio total. Esse Povo que tem a sua origem em Abraão, o pai da nossa fé (Cfr. Rom. 4, 12), como se exprimiu Paulo de Tarso. Precisamente esse povo, que recebeu de Deus o mandamento: «não matar», experimentou sobre si mesmo em medida particular o que significa matar. Diante desta lápide não é lícito a ninguém passar adiante com indiferença.

Ainda quero deter-me em frente de outra lápide: a de língua russa. Não acrescento comentário algum. Sabemos de que nação fala. Conhecemos qual a parte tida por esta nação, na última terrível guerra, a favor da liberdade dos povos. Diante desta lápide não se pode passar com indiferença.

Por fim a última lápide: em língua polaca. Foram seis milhões de Polacos que perderam a vida durante a segunda guerra mundial: a quinta parte da nação. Mais uma etapa das lutas seculares desta nação, da minha nação, pelos seus direitos fundamentais entre os povos da Europa. Mais um alto grito pelo direito a um lugar próprio no mapa da Europa. Mais uma dolorosa conta com a consciência da humanidade. Escolhi apenas três lápides. Seria preciso determo-nos em cada uma das existentes, e assim faremos.

3. Oswiecim (Auschwitz) é uma destas contas. Não podemos apenas visitá-lo. É necessário nesta ocasião, pensar com medo onde se encontram as fronteiras do ódio, as fronteiras da destruição do homem pelo homem, as fronteiras da crueldade.

Oswiecim (Auschwitz) é um testemunho da guerra. A guerra traz consigo um aumento desproporcionado do ódio, da destruição, da crueldade. E se não se pode negar que ela manifesta também novas possibilidades de coragem humana, de heroísmo e de patriotismo, permanece contudo o facto que nela prevalece o número das perdas. Prevalece cada vez mais, porque cada dia cresce a capacidade destruidora das armas inventadas pela técnica moderna. Das guerras são responsáveis não só os que as procuram directamente, mas também aqueles que não fazem todo o possível por as impedir. E portanto seja-me permitido repetir neste lugar as palavras que Paulo VI pronunciou perante a Organização das Nações Unidas:

«Não são necessários longos discursos para proclamar a finalidade suprema da vossa Instituição. Basta recordar que o sangue de milhões de homens e inumeráveis e inauditos sofrimentos, inúteis morticínios e formidáveis ruínas sancionam o pacto que vos une, com um juramento que deve mudar a história futura do mundo: jamais a guerra, jamais a guerra! A paz, a paz, deve guiar a sorte dos Povos e da humanidade inteira! » (Paulo VI, Discurso à Organização das Nações Unidas, MS 57, 1965, p. 881).

Se este grande apelo de Oswiecim (Auschwitz), o grito do homem martirizado aqui, deve trazer frutos para a Europa (e também para o mundo), é necessário tirar todas as justas consequências da Declaração dos Direitos do homem, como João XXIII exortava a fazer na encíclica Pacem in Terris. Nela, de facto, é «reconhecida, da forma mais solene, a dignidade de pessoa a todos os seres humanos sem excepção; e é, por conseguinte, proclamado como seu direito fundamental o direito de investigar livremente a verdade, o de seguir o bem moral o de praticar os deveres de justiça, o de exigir condições de vida conformes à dignidade humana, e outros relacionados com estes» (João XXIII, Pacem in Terris, 4).

É necessário voltar à sabedoria do velho Mestre Pawel Wlodkowic, Reitor da Universidade Jagelónica em Cracóvia, e assegurar os direitos das nações: à existência, à liberdade, à independência, à própria cultura e ao desenvolvimento honesto.

Wlodkowic escreve: «Onde actua mais o poder do que o amor, procuram-se os próprios interesses e não os de Jesus Cristo, por conseguinte afastamo-nos facilmente da norma da lei divina (...). Todo o direito se opõe a quem ameaça aqueles que querem viver em paz: opõe-se-lhe o direito civil (...) e canónico (...), o direito natural, isto é o princípio: 'O que desejas para ti, fá-lo ao próximo. Opõe-se o direito divino, enquanto (...) no enunciado 'Não roubar' é proibida toda a rapina e no enunciado 'Não matar' toda a violência»  (Pawel Wlodkowic, Saeventibus, 1415, Tract. II Solutio quaest. 4a: cfr. I. Ehrlich, Pisma Wybrane Pawla Wlokowica, Warszawa 1968, t. 1, s. 61; 58-59).

E não só o direito se lhe opõe, mas também e, sobretudo, o amor. Aquele amor do próximo no qual se manifesta e se traduz o amor de Deus que Cristo proclamou como mandamento seu. Mas é também o mandamento que cada homem traz escrito no seu coração, gravado pelo seu próprio Criador. Esse mandamento concretiza-se também no «respeito do próximo», da sua personalidade, da sua consciência; concretiza-se no «diálogo com o próximo», no saber procurar e reconhecer o que de bom e de positivo pode haver ainda em quem possui ideias diferentes das nossas, mesmo em quem, de boa fé, sinceramente erra.

Nunca um à custa do outro, ao preço do servilismo do outro, ao preço da conquista, do ultraje, da exploração e da morte!

Pronuncia estas palavras o sucessor de João XXIII e de Paulo VI. Mas pronuncia-as simultaneamente o filho da Nação que na sua história remota e mais recente sofreu dos outros um multíplice tormento. E não o diz para acusar, mas para recordar. Fala em nome de todas as Nações, cujos direitos são violados e esquecidos. Di-lo porque a isto o impelem a verdade e a solicitude pelo homem.

4. Santo Deus, Santo Poderoso, Santo e imortal!

Da peste, da fome, do fogo e da guerra... e da guerra, livra-nos, ó Senhor. Amen.


Fonte: Blog Imagens que Contam o Mundo / Site do Vaticano