Mostrando postagens com marcador diálogo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador diálogo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Curitiba recebe Diálogo Catolico Judaico

por Aline Cambuy/ Moema Zuccherelli

XVII Assembleia Nacional será realizada na capital paranaense nos dias 23 e 24 de outubro

Nos dias 23 e 24 de outubro, Curitiba sedia a XVII Assembleia Nacional do Diálogo Católico-Judaico. A Assembleia é realizada a cada ano em uma capital brasileira. A última vez que passou por Curitiba foi em 1998. O tema desta edição será "Judaísmo e Catolicismo, desafios diante do avanço científico".

O Rabino Pablo Berman, da Comunidade Israelita do Paraná, ressalta que a base para a compreensão entre as diferentes tradições religiosas é o diálogo e cada uma dessas tradições são diferentes formas de conhecer a Deus. "O abraço das religiões precisa da singularidade de cada religião, sua riqueza de bagagem histórica e cultural. Aí está a importância deste encontro, nesse abraço, nesse diálogo".

"Este encontro é muito importante, pois é por meio do diálogo que surge o conhecimento e o entendimento. Todas as religiões pregam amor, respeito ao próximo e justiça social e, se todos nos uníssemos em torno desses preceitos, não haveria guerras "santas", preconceitos e mitos. Espero que esta iniciativa traga luz e compreensão para todos", acrescenta a Presidente da Comunidade Israelita do Paraná, Ester Proveller.

Para o Presidente da Federação Israelita do Paraná, Manoel Knopfholz, nos dias atuais o diálogo é fundamental, na medida em que, cada vez mais, o ser humano exerce um individualismo exacerbado, fruto da competitividade, excesso de tecnologia e culto ao consumismo desenfreado. "O mundo ocidental está alicerçado na civilização e nos fundamentos judaicos-cristãos. São religiões simbióticas e irmanadas que, em todas as fases da História da humanidade, tem fundamentado condutas, estabelecido parâmetros, mas, acima de tudo, reoxigenando a fé. As duas possuem convergências, especialmente na edificação humana. O Homem está se distanciando de sua humanidade. Assim, todo e qualquer movimento que vise resgatar os valores humanos é válido. O diálogo é um deles. Aliás, rico e oportuno."

De acordo com Leon Knopfholz, presidente da B'nai B'rith no Paraná, esse encontro reunirá diretores de escolas católicas, lideranças religiosas e políticas, estudantes e interessados no tema. "O diálogo aproxima os católicos e judeus, demonstrando assim que vivemos em uma época onde as diferenças e preconceitos não são mais aceitos e as boas relações entre as religiões são fundamentais".

Para o professor e especialista em judaísmo Antonio Carlos Costa Coelho, um dos coordenadores do evento, estamos caminhando para a superação de um afastamento histórico de dois mil anos. "Entre católicos e judeus existe 80% de semelhança e 20% de diferença e, é essa diferença que deve ser valorizada, pois ela enriquece cada uma das comunidades". Coelho explica que o Diálogo é uma maneira de repercutir o tema. "Nos últimos 15 anos a sociedade mudou muito. Além da globalização, a legislação também contribuiu para a redução do preconceito e discriminação".

A abertura da XVII Assembleia Nacional do Diálogo Católico-Judaico será no dia 23 de outubro, às 19h, no Studium Theologicum (Av. Presidente Getulio Vargas, 1193). Na ocasião, será realizada a Conferência "Bioética Judaica e Católica", uma exposição crítica feita por Dr. Cícero de Andrade Urban e Rabino Michel Schelesinger.

O segundo dia do evento (24) é reservado aos trabalhos da Comissão e acontecerá a partir das 9h, no Centro Israelita do Paraná (Rua Cel. Agostinho Macedo, 248. Bom Retiro). O Rabino Pablo Berman e o Padre Jaime Sánchez Bosch farão a leitura e interpretação de textos bíblicos sob as óticas judaica e católica. Na sequencia, será elaborada e agenda da Comissão Nacional do Diálogo Religioso Católico-Judaico para o ano de 2012.

Dado ao caráter e ao local do evento, a comissão se preocupou em fixar um número de convites a pessoas que possam contribuir com o espírito do dialogo inter-religioso.

Também participam do encontro o presidente da B'nai B'rith nacional, Abraham Goldstein, representantes da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), rabinos de São Paulo e Rio de Janeiro.

SERVIÇO
XVII Assembleia Nacional da Comissão do Diálogo Católico- Judaico
Data: 23 e 24 de outubro de 2011 - Curitiba
Tema: JUDAÍSMO E CATOLICISMO: DESAFIOS DIANTE DO AVANÇO CIENTÍFICO

PROGRAMA
23 de outubro
Local: STUDIUM THEOLOGICUM - Avenida Getúlio Vargas, 1193 - Rebouças.
17h30 - Recepção
19h - Abertura:
Oração
Falas de representantes judaicos e católicos
19h30 - Conferência:
Bioética Judaica e Católica (exposição crítica), Dr. Cícero de Andrade Urban e Rabino Michel Schelesinger.

24 de outubro: (reservado aos trabalhos da Comissão)
Local: CENTRO ISRAELITA DO PARANÁ
Rua Coronel Agostinho Macedo, 248, Bom Retiro.
9h - Recepção
9h30 - Um Mesmo Problema Sob Dois Olhares (leitura e interpretação de textos bíblicos sob as óticas judaica e católica)
Rabino Pablo Berman e Padre Jaime Sánchez Bosch
11h - Agenda 2012
Elaboração da agenda da Comissão Nacional do Diálogo Religioso Católico-Judaico para o ano de 2012
12h30 - Almoço

Fonte: Assessoria de Imprensa Lide Multimídia

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Novas Gerações do CJL debate a relação entre judeus e católicos

Jack Terpins, Dom Pedro Scherer e Rabino Michel Schlesinger. Foto: Fisesp

Ontem (28/7), o Programa de Novas Gerações do Congresso Judaico Latino-Americano- CJL, com a presença de seu presidente, o brasileiro Jack Terpins, e de um representante do grupo vindo especialmente para a ocasião, Javier Mutal, organizou uma nova atividade, no Clube ‘A Hebraica’.

Os convidados foram Dom Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, e o Rabino Michel Schlesinger, Rabino da Congregação Israelita Paulista – CIP, que falaram sobre a atual relação da Igreja Católica com a comunidade Judaica, tanto no Brasil como no mundo.

A noite foi aberta pelo coordenador do Programa de Novas Gerações no Brasil, Marcelo Secemski, que deu às boas vindas a todos e por Terpins, que lembrou que ele próprio, o rabino e o Cardeal já estiveram juntos no Mèxico, em um encontro da maior importância para o diálogo inter-religioso, e que essa é uma premissa do CJL. Também, enalteceu a liberdade que há no Brasil de cada optar por seguir sua fé e professá-la livremente.

Em seguida, a palavra foi dada a Javier Mutal, que explanou sobre o Programa de Novas Gerações, desenvolvido em vários países da América Latina,e que tem por objetivo incentivar e formar novas lideranças, a partir da constante capacitação de jovens em seminários e cursos diversos no País e Exterior e sua participação e em sessões de organismos internacionais, palestras com personalidades do mundo político e comunitário, lideranças etc.

O Rabino Michel iniciou com um retrospecto dos laços de trabalho conjunto entre a Igreja Católica e os esforços nesse sentido, lembrando que no Brasil, em fevereiro de 1981 foi criada a Comissão de Diálogo Inter-religioso, e que atua, basicamente, em três frentes, a saber: o diálogo institucional, o teológico para viabilizar estudos de conhecimento mútuo sobre cada fé, e como não poderia deixar de ser, as ações conjuntas entre elas.

O Cardeal reafirmou as palavras do rabino, e destacou que o Diálogo tem uma longa e frutuosa história. Disse ele: “Temos um afeto e proximidade ao povo de Israel e à comunidade judaica e à sua sabedoria”. E concluiu: “Que este Encontro sirva para a valorização para nossa herança e tarefa comum”.

Ambos, apostaram no conhecimento das crenças, costumes, história, para incentivar a harmonia entre os seres. “Que possamos sempre promover ocasiões de conhecimento e diálogo. Isso é o que permite se espantar os fantasmas”, concluiu Dom Odilo.

Após uma sessão de perguntas, o Rabino Michel encerrou a noite, citando Amos Oz, e no mesmo tom, reforçou que temos que procurar o que nos une.

Fonte: Fisesp

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Rabino Michel na 49ª Assembleia Geral da CNBB

Rabino Michel Schlesinger com o Dom Raimundo Damasceno. Foto: Fisesp


O rabino Michel Schlesinger (CIP) foi convidado para transmitir uma mensagem aos bispos reunidos em Aparecida por ocasião da 49ª Assembléia Geral da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil), que acontece entre os dias 4 e 13 de maio.

“É uma oportunidade para avaliar de forma corajosa as conquistas e desafios dos 30 anos de Comissão Nacional de Diálogo Católico-Judaico”, afirmou o rabino sobre a iniciativa, criada em fevereiro de 1981.
Leia a mensagem na íntegra:
Shamai e Hilel discutiram incontáveis assuntos legais por muitos anos. Em certo momento, conta o Talmude, saiu uma voz do céu e declarou: “Elu VeElu Divrei Elohim Chaim VeHalachá KeBeit Hilel”, “estas e também aquelas são palavras do Deus vivo, no entanto a Lei será determinada conforme a opinião de Hilel”.
Nossos sábios se perguntaram: se ambos possuem razão, então qual o critério para se determinar a lei? E a resposta é maravilhosa. Hilel mereceu que a lei fosse determinada da sua maneira porque sabia dialogar com elegância. Citava a opinião do seu oponente sempre com respeito, antes mesmo de citar seu próprio pensamento.
O Jubileu de Ouro do Concílio Vaticano Segundo e da Declaração Nostra Aetate, nos convidam a uma profunda reflexão sobre as conquistas e desafios do diálogo católico-judaico.
Nos últimos cinqüenta anos, sociedades de todo o mundo organizaram grupos de diálogo e aprofundaram o trabalho de conhecimento mútuo. No Brasil, a Comissão Nacional de Diálogo Católico-Judaico completou, no último fevereiro, trinta anos de existência trabalhando em quatro diferentes esferas: a teológica, social, pessoal e institucional.
Religiosos católicos e judeus se reúnem com freqüência em diversas cidades brasileiras para estudar a tradição religiosa do outro, traduzindo em pesquisa e análise o empenho de aproximação teológica. No âmbito social, unimos forças para promover causas comuns como a ética, a consciência ambiental, a segurança, a justiça social, entre tantas outras. Vínculos pessoais entre líderes de ambas as comunidades foram estabelecidos e são constantemente fortalecidos. Fiquei pessoalmente comovido com a escolha de Dom Raymundo Damasceno como presidente da CNBB porque ele é um promotor incansável do diálogo católico-judaico, assim como o amigo Dom Odilo Pedro Scherer e o irmão Padre José Bizon.
Finalmente atuamos para aproximar as instituições da comunidade judaica como a Confederação Israelita do Brasil (Conib) e as diversas Federações Israelitas das instituições católicas como a CNBB e o Celam.
O desafio que nos aguarda para os próximos cinqüenta, em minha opinião, é muito claro. Precisamos fazer com que o diálogo inter-religioso atinja também nossos congregantes. O membro comum de nossas comunidades ainda não conhece o trabalho inter-religioso e, por vezes, propaga preconceitos por total ignorância da natureza daquele que lhe é diferente.
Muitas são nossas semelhanças, ao mesmo tempo, temos algumas convicções distintas. Assim como Shamai e Hilel, não seremos julgados pela verdade de nosso discurso, porque cada religião tem sua verdade, mas pela elegância com que conduziremos as discussões.
Obrigado pelo convite carinhoso e Shalom.
Rabino Michel Schlesinger

domingo, 31 de janeiro de 2010

O Diálogo Judaico-Cristão no Momento Atual, por Rabino Alexandre Leone

Rabino Alexandre Leone.  
Foto: Blog Missão Entre Nós...
Faz alguns dias, no domingo, dia 17 de janeiro passado, o papa Bento XVI visitou a Grande Sinagoga de Roma repetindo o gesto feito 24 anos atrás por seu antecessor o papa João Paulo II. Naquela ocasião, em 1986, era a primeira vez que um papa visitava oficialmente uma sinagoga, marcando assim um passo a mais na direção do dialogo fraternal entre cristãos e judeus. O gesto de João Paulo foi, em muitos aspectos, a apoteose deste dialogo travado principalmente desde a segunda metade do século XX.

Vale a pena lembrar que judeus e cristãos nem sempre travaram um dialogo fraterno entre si. Na Idade Média, em geral, o diálogo se dava de  modo bem diferente, na forma da

disputatio, isto é da disputa teológica, como aquela ocorrida em Barcelona no século XIII entre Nahmanides, o principal rabino da cidade, e vários teólogos cristãos. Discutia-se também em tribunais inquisitoriais e de libelo de sangue. Discutia-se, mas não se conversava. É verdade que um outro tipo de dialogo, mais construtivo, também ocorreu como, por exemplo, a menção feita por Tomás de Aquino em sua obra a rabi Moisés (Maimônides) e no século XV os contatos entre os filósofos Eliah Delmedigo e Picco Della Mirandolla. Mas essas eram exceções à desconfiança que reinava em ambos os lados.
O ponto de mutação desta situação está ligado à Shoá (em hebraico genocídio) perpetrado contra judeus, ciganos e outros grupos pelos nazistas e seus colaboradores na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial e que é eufemisticamente chamado de Holocausto. Como escreveu Emmanuel Lévinas, em um fabuloso ensaio chamado Une Religion d´Adultes, os judeus conheceram na própria carne durante aqueles dias a experiência da paixão, conforme narrada no capítulo 53 de Isaias e pintada de modo expressivo por Chagal. Naquela época que se vivia esta experiência, cuja amplitude religiosa marcou para sempre o mundo, protestantes e católicos – laicos, padres e monges – salvavam crianças e adultos judeus por toda a Europa, acolhendo-os e estendendo-lhes as mãos, mesmo ao custo de suas próprias vidas. É interessante que o dialogo tenha sido travado entre pessoas antes que pelas instituições.
Nos anos cinqüenta e sessenta o dialogo judaico-cristão começou então a se desenvolver aprofundar. Do lado que cá do Atlântico, nos Estados Unidos, destacaram-se como exemplo de diálogo humanista, religioso e prático as figuras de Abraham Joshua Heschel e Martin Luther King que lado a lado, rabino e pastor, prestaram-se ao papel de liderança simbólica e ombusman ético em movimentos de renovação e crítica à desumanização e a eclipse da razão de nossos tempos. O diálogo prático dos dois chegou ao zênite nos movimentos dos Civil Rights, em prol do direito dos afro-americanos de votar, e do movimento contra a barbárie que era Guerra do Vietnam.

Do lado de lá do Atlântico, um grande passo para o aprofundamento do diálogo está ligado ao Concílio Vaticano II, que procurou renovar espiritualmente a Igreja Católica preparando-a para novos tempos. Um dos vários documentos associados àquele momento foi a declaração “Nostra Aetate” sobre as relações da Igreja Católica com as religiões não-cristãs, onde um destaque especial é dado às relações com o povo judeu. Na busca do diálogo, a Igreja renunciava na prática missão de converter os judeus, possibilitando assim que se criassem condições para surgirem em muitos países comissões de diálogo católico-judaico.

O povo judeu não é uma igreja e não há um corpo de rabinos que tenham autoridade reconhecida sobre todos. Desse modo, a resposta judaica à Nostra Aetate apareceu na forma de documentos assinados por muitos rabinos e estudiosos. Uma primeira tentativa ainda tímida, já nos anos sessenta foi feita por iniciativa dos rabinos membros do consistório francês de tendência ortodoxa moderada. No entanto, um documento de maior peso só foi elaborado e costurado no ano 2000, a declaração chamada Dabru Emet (Dizei a Verdade) assinada por mais de uma centena de rabinos e eruditos de várias
correntes judaicas, desde a ortodoxia moderado, passando pelos massortim (conservativos) até os liberais. Só ficaram de fora os setores mais fundamentalistas, que não reconhecem nenhuma forma de diálogo interno ou externo. O Dabru Emet é uma composição de várias teses que em resumo reconhecem o diálogo fraterno com o mundo cristão.

Recentemente, porém, algumas situações contribuíam para dificultar um pouco o diálogo, situações que fizeram com que muitos nos meios judaicos ficassem desconfortáveis. Alguns exemplos são: a revogação da excomunhão por parte do papa Bento XVI de um bispo que negava publicamente o genocídio nazista, a introdução na liturgia da missa da Páscoa de um trecho que fala da conversão dos judeus e, finalmente, os recentes passos que estão sendo dados para a beatificação e futura canonização do papa Pio XII, que durante a Segunda Guerra Mundial, não condenou publicamente o genocídio nazista. Como declarou Riccardo Pacifici, presidente da Comunidade Judaica de Roma, durante a visita do papa à sinagoga, se tal condenação tivesse sido realizada poderia ter o efeito de salvar vidas e que ficará como algo lacunoso em sua memória. Estas situações quase paralisaram os esforços de todos aqueles que, dos dois lados, trabalham pelo aprofundamento do diálogo, cujo símbolo foi a visita feita pelo papa bento XVI à Grande Sinagoga de Roma no último dia 17 de janeiro.

O presidente da Assembléia Rabínica Italiana, o rabino Giuseppe Laras, recusou-se a participar, mas ele ficou sozinho em sua recusa. Quando o papa entrou na sinagoga, rabinos de todo o mundo e lideranças laicas de todo o mundo judaico, com exceção dos setores mais fundamentalistas, estavam lá para dar boas vindas ao papa. Também desta vez estavam presentes lideres muçulmanos moderados europeus, dando uma dimensão mais profunda àquele momento. No final venceu o diálogo.

Precisamos de um diálogo inter-religioso ativo que não busca resolver questões teológicas das diferenças de crenças, mas deve partir de pontos comuns para estabelecer esse dialogo. “Em que base nós pessoas de diferentes compromissos religiosos nos encontramos?” A essa pergunta Heschel respondeu: Em primeiro lugar “nós nos encontramos como seres humanos que têm muito em comum: uma face, uma voz, a presença de uma alma, medos, esperanças, a habilidade de confiar, uma capacidade e sentir compaixão e entendimento, a qualidade de sermos humanos”. A consciência da humanidade em comum, portanto, é a base do dialogo inter-religioso. Judeus, cristãos e membros de outras comunidades religiosas compartilham essa tarefa.

Nosso diálogo inter-religioso deveria não apenas afirmar o humano, mas também buscar superar o niilismo moderno. O propósito da comunicação religiosa entre seres humanos de diferentes compromissos é o enriquecimento mútuo e o aumento do respeito e apreciação, ao invés da desqualificação do outro no que diz respeito às suas convicções com relação ao sagrado. A luta contra a desumanização é a base comum para um movimento de diálogo e de reconhecimento mútuo, uma vez que no caldeirão da sociedade moderna, como escreveu Heschel, “nenhuma religião é uma ilha”. A era das comunidades isoladas já passou e, se bem que cada tradição deve manter sua identidade, a possibilidade do diálogo profundo e da troca de experiências deve ser tentada. Disso depende nosso futuro no século XXI.

terça-feira, 19 de setembro de 2006

Realizada em Porto Alegre a XIV Assembleia Nacional do Diálogo Católico Judaico

Pela primeira vez com sede no Rio Grande do Sul, a 14ª Assembléia Nacional do Diálogo Católico-Judaico aconteceu em Porto Alegre, entre os dias 17 e 18 de setembro.

No domingo, as atividades foram realizadas na Sinagoga da Sibra, já na segunda-feira, o encontro ocorreu na Casa de Retiros Betânia.

O evento foi organizado por Guershon Kwasniewski, guia espiritual da Sibra, e pelo padre Roberto Paz, coordenador da área da cultura da Igreja Católica. Além deles, também participaram lideres religiosos como dom Oneres Marchiori, padre Jesus Hortel, padre José Bizon, Iehuda Gitelman, da Sinagoga Centro Israelita Porto Alegrense, e o rabino Henry Sobel, de São Paulo.

O primeiro dia de atividades contou com uma mesa redonda, com a presença dos lideres religiosos, o presidente da Federação Israelita do RS Abrahão Finkelstein e o jornalista Jaime Spitzcovsky. Após um coffe break, Spitzcovsky ministrou uma palestra sobre a ética nos meios de comunicação e a necessidade de mobilização da sociedade pela defesa da ética e de valores morais. As cerca de 50 pessoas presentes fizeram perguntas ao jornalista ao final da palestra. As atividades de domingo se encerraram com a apresentação do coral da Igreja São Pedro.

Na segunda-feira, foram realizados os últimos debates que visam manter a união entre as religiões católica e judaica de forma amigável e pacífica, como sempre foi na capital gaúcha.

Fonte: FIRS - Federação Israelita do Rio Grande do Sul

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

Porto Alegre recebe a XIV Assembleia do Diálogo Católico Judaico

A Comissão Nacional de Diálogo Religioso Católico/Judaico vai realizar, em Porto Alegre (RS), nos dias 17 e 18 de setembro de 2006, a XIV Assembléia do Diálogo Católico/Judaico. No dia 17, o tema a ser desenvolvido pelo jornalista Jaime Spitikowski, será Ética e Meios de Comunicação. No dia seguinte, Ética e Cidadania, com o Dr. Moacyr Scliar e Ética e Ensino com o Dr. Sérgio Rogério Azevedo Junqueira.

Informações na Casa da Reconciliação, pelo telefone (31) 3884-1544 ou pelo e-mail: dcj@casadareconcilização.com.br e na Congregação Israelita Paulista, pelo telefone (11) 3259-7828.

Fonte: CatolicaNet


domingo, 10 de setembro de 2000

Dab'ru êmet - Uma Posição judaica perante cristãos e Cristandade

Nos anos passados, tem-se consumado uma mudança dramática e inimaginável nas relações cristãs-judaicas. Durante os aproximadamente dois mil anos do exílio judaico, os cristãos consideraram geralmente o Judaísmo uma como religião fracassada ou, na melhor das hipóteses, uma como religião precursora, a qual preparara o caminho à Cristandade e nesta teria chegada ao seu cumprimento. Nos decênios após o Holocausto, porém, a Cristandade mudou dramaticamente. Um número crescente de associações, entre elas tanto romano-católicos como protestantes, expressaram em declarações públicas o seu arrependimento sobre os maus tratos de judeus e o Judaísmo. Além disso, essas declarações tornaram explícita como a doutrina e pregação cristãs podem e devem ser reformadas, para reconhecer a Aliança de Deus com o povo judaico como invariavelmente válida e apreciar a contribuição do Judaísmo para a cultura mundial e para a própria fé cristã.

Estamos convencidos que essas mudanças merecem uma bem pensada resposta judaica. Como um grupo de cientistas judaicos de correntes diferentes – que não fala senão em seu próprio nome – estamos convencidos que está na hora para dos judeus pensarem no que o Judaísmo tem a dizer hoje à Cristandade. Como um primeiro passo queremos explicar em oito concisos pontos como judeus e cristãos poderiam estar em relação uns com os outros.

Judeus e cristãos adoram o mesmo Deus.

Antes do surgimento da Cristandade eram somente os judeus que adoravam o Deus de Israel. Mas também os cristãos adoram o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, o criador do céu e da terra. Se bem que a fé cristã não represente uma alternativa aceitável para judeus, alegramo-nos como teólogos judaicos porque tantos milhões de gente entraram em relação com o Deus de Israel através da Cristandade.

Judeus e Cristãos apoiam-se no mesmo livro – a Bíblia (que os judeus chamam de "Tenak" e os cristãos o "Antigo Testamento").

Nele procuramos orientação religiosa e enriquecimento espiritual e mentalidade comunitária, tirando dele ensinamentos semelhantes: Deus criou e mantém o universo; Deus fez uma aliança com o povo de Israel, e é a palavra de Deus que conduz Israel a uma vida em justiça; afinal, Deus salvará Israel e o mundo inteiro. Não obstante, judeus e cristãos interpretam a Bíblia diferentemente. Essas diferenças devem ser respeitadas.

Cristãos respeitam a reivindicação do país de Israel pelo povo judaico.

Para os judeus, o restabelecimento do Estado de Israel no país prometido representa o acontecimento mais significante desde o holocausto. Como pertencentes a uma religião biblicamente fundada, cristãos estão gratos porque Israel foi prometido e dado aos judeus como concreta encarnação da Aliança entre eles e Deus. Muitos cristãos apoiam o Estado de Israel por razões muito mais profundas do que tais de natureza política. Como judeus, recebemos bem esse apoio. Além disso, sabemos que a tradição judaica manda justiça para todos os não-judeus que viverem no estado judaico.

Judeus e Cristãos reconhecem os princípios morais da Toráh.

No centro dos princípios morais da Toráh estão a santidade e dignidade inalienáveis de cada pessoa humana. Nós todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Essa atitude moral comum pode ser o fundamento para uma relação melhorada entre as nossas duas comunidades. Mais além, pode chegar a ser fundamento dum vigoroso testemunho para toda a humanidade, servindo para o melhoramento da vida dos nossos semelhantes e contra a imoralidade e idolatria, as quais nos ferem e degeneram. Um tal testemunho é urgente, principalmente após os horrores sem pares do século passado.

O Nazismo não era um fenômeno cristão.

Sem a longa história de antijudaísmo cristão e violência cristã contra os judeus, porém, a ideologia nacionalsocialista não teria podido existir, nem ter-se realizado. Demasiado número de cristãos participaram das crueldades contra os judeus ou as aprovaram. Outros cristãos, ainda, não protestavam o suficiente contra estas crueldades. Mesmo assim, o Nacionalsocialismo mesmo não era um produto automático do Cristianismo. Tivessem os nacionalsocialistas conseguido a destruição total dos judeus, sua fúria homicida ter-se-ia dirigido diretamente contra os cristãos. Com gratidão lembramo-nos daqueles cristãos que durante o domínio nacionalsocialista arriscaram ou sacrificaram as suas vidas para salvar judeus. Tendo em vista estes cristãos, exigimos a continuação dos recentes esforços na teologia cristã, para rejeitar univocamente o desprezo do Judaísmo e do povo judaico. Louvamos aqueles cristãos que recusam esse ensino de desdém e não os acusamos por causa dos pecados dos seus antecedentes.

A diferença, irreconciliável segundo critério humano, entre judeus e cristãos não será tirada antes de que Deus tenha salvo o mundo inteiro, conforme o profetizam as Escrituras.

Os cristãos conhecem a Deus e lhe servem através de Jesus Cristo e da tradição cristã. Os judeus conhecem Deus e lhe servem através da Toráh e da tradição judaica. Essa diferença não será desfeita, nem por uma das comunidades insistir em que ela é que interprete a Escritura mais corretamente que a respetiva outra, nem por uma comunidade exercer poder político sobre a outra. Assim como judeus reconhecem a fidelidade dos cristãos na sua Revelação, esperamos dos cristãos que respeitem a nossa fidelidade referente à nossa revelação. Nem a judia nem a cristã seja urgida aceitar a doutrina da outra comunidade.

Um renovado relacionamento entre Judeus e cristãos não vai enfraquecer a praxe judaica.

Um relacionamento melhorado não vai acelerar a, temida por judeus com razão, assimilação cultural e religiosa. Nem vai mudar as formas judaicas tradicionais de adoração, nem vai promover casamentos interreligiosos entre judeus e nao-judeus, nem vai aumentar a motivação de judeus se converterem à Cristandade, e nem uma inconveniente mistura entre Judaísmo e Cristandade. Reconhecemos a Cristandade como uma fé que provém do Judaísmo e continua dispondo de importantes contatos com este. Não consideramos a Cristandade uma como extensão do Judaísmo. Não podemos sinceramente manter as nossas relações uns com os outros, senão cultivarmos as nossas próprias tradições.

Judeus e cristãos devem empenhar-se juntos pela justiça pela paz.

Judeus e Cristãos conhecem, cada um ao seu modo, a não-redenção do mundo, como esta se manifesta em permanente perseguição, pobreza, degradação e miséria humanas. Se bem que justiça e paz repousam em última instância nas mãos de Deus, os nossos esforços comuns, junto com aqueles de outras comunidades de fé, ajudarão a trazer o Reino de Deus, que esperamos e ansiamos. Separados e unidos devemos trabalhar para que justiça e paz entrem no nosso mundo. A visão dos profetas de Israel é para nós guia comum nisso.

"Dias virão em que o monte da casa do Senhor será estabelecido no mais alto das montanhas e se alçará acima de todos os outeiros. A ele acorrerão todas as nações, muitos povos virão dizendo: ‘Vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que ele nos ensine os seus caminhos, e assim andemos nas suas veredas.’" (Is 2,2-3).

Tikva Frymer-Kensky, University of Chicago
David Novak, University of Toronto
Peter Ochs, University of Virginia
Michael Signer, University of Notre Dame

Tradução: Pedro von Werden SJ

Fonte: Jewish-Christian Relations