segunda-feira, 30 de junho de 1986

Guia para o Diálogo Católico Judaico - Objetivos e Meios para Promover o Diálogo

O diálogo religioso ou inter-religioso deve ser vivido e alimentado pela vida, para que a palavra não se desgaste. Através da palavra passa a vida, e com esta a comunhão. Atingindo-se a comunhão chega-se a Deus.

Diálogo religioso é a procura de Deus por meio do irmão, em quem Deus se revela, a partir de sua própria experiência de Deus.

O objetivo mais imediato do diálogo é conhecer o outro, para ver o que Deus nos diz por meio dele. E não em primeiro lugar dizer ao outro o que queremos.

O conhecimento do outro, o modo como ele se vê, como ele reza, como conhece a Deus, é o primeiro passo do diálogo religioso.

Um segundo passo será a humildade de aprender. No diálogo com o judaísmo, os cristãos têm muito a aprender. Os judeus receberam, conservaram e aprofundaram uma rica tradição religiosa, teológica, bíblica e espiritual, fundamento das Igrejas cristãs.

Este diálogo acontece primeiramente no dia-a-dia, nos trabalhos, nos contatos, na política, nas lutas pela justiça etc. Muitas vezes, quando os homens lutam e vivem unido, caem os preconceitos oriundos de formação humana e religiosa. Realmente nada como a vida para formar.

Há também ocasiões mais específicas para tais contatos, que poderão requerer uma preparação mais adequada: cerimônias, formaturas e outras solenidades. Estas ocasiões poderão ser formais ou informais, como festas religiosas e civis, nascimentos, casamentos etc. O ser humano vive estas situações de acordo com sua fé, sua visão de Deus e do sentido que dá à vida. Os cristãos, sobretudo os agentes de pastoral, poderão procurar nestes momentos conhecer e entender como os judeus vivem, o sentido que dão a estes momentos, e a ligação que podem ter com a experiência da Aliança. Inspirando-se no exemplo de transformar em bênção (brakáh), tirando grande proveito, vendo e aprendendo como os judeus compreendem e acatam a Palavra de Deus nestas situações e como a aplicam.

Instituições
Há um nível especializado de diálogo com Organizações e Instituições com representantes das respectivas comunidades. Estes grupos promovem o conhecimento mútuo por meio de atividades: publicações, sessões de estudos, celebrações, dirigidas a públicos interessados e visando a conscientizar as comunidades. São também responsáveis por contatos oficiais entre os grupos religiosos em nível internacional, nacional e local.

Internacionais:
1. Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo (Commissione per i rapporti religiosi con l’Ebraismo).
Foi criada em 22 de outubro de 1974, pelo papa Paulo VI, por sugestão da Comissão Internacional de Ligação entre a Igreja Católica e o Judaísmo. É um organismo exclusivamente católico, ligado ao Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos, e visa promover e estimular as relações religiosas entre judeus e católicos a partir das orientações dadas pelo Concílio Vaticano II, em particular pela seção IV da Declaração conciliar "Nostra Aetate". Sua sede é no Vaticano.

2. International Council of Christians and Jews.
Trata-se de um organismo misto judeu-cristão, sem estatuto oficial de Igrejas. Agrupa as diferentes organizações nacionais de amizade, diálogo ou cooperação judeu-cristãos. Sendo uma "associação voluntária de organizações nacionais de cristãos e judeus com o fito de promover a cooperação cristão-judaica" (art. l de sua Constituição), visa "à articulação de esforços e à promoção de atividades comuns" (art. 2) e respeita a autonomia de cada organização representada. Sua Secretaria está em Heppenheim (Alemanha Ocidental).

3. Comissão Judaica Internacional para as Consultas inter-religiosas (International Jewish Committee on interreligious Consultations).
Organismo exclusivamente judaico, com cinco organizações representativas do judaísmo mundial. Uma delas a "Israel Interfaith Committee", com sede em Israel, delega seus representantes junto à Comissão de Ligação entre a Igreja Católica e o Judaísmo.

4. CENTRO SIDIC – Serviço Internacional de Documentação Judeu-cristã.
Associação e centro de estudos e de documentos fundado em Roma em 1965, atendendo ao pedido dos padres conciliares e peritos para concretizar as orientações da Declaração conciliar "Nostra Aetate". Propõe-se:
● promover o conhecimento, a compreensão e a estima entre judeus e cristãos;
● contribuir na divulgação do patrimônio que o cristianismo e a cultura ocidental receberam do judaísmo;
● divulgar o estudo da tradição judaica e mostrar o elo existente com a fé cristã e sua importância para a humanidade.

Este objetivo procura ser atingido por meio de cursos, conferências, sessões nacionais e internacionais, uma biblioteca especializada e grande documentação; publicação de uma revista "SIDIC", com edições em inglês e francês. Sua sede encontra-se em Roma, via del Plebiscito, 112.

Em nível continental, há no CELAM (Conselho Episcopal Latino-americano) um departamento de Ecumenismo e Diálogo Religioso, com um setor de diálogo judeu-cristão.

No Brasil foi criada pela CNBB uma Comissão de Diálogo entre Judeus e Católicos, ligada ao setor de Ecumenismo e Diálogo Religioso, órgão da Comissão Episcopal de Pastoral (CEP).

Também em nível nacional, mas sobretudo locais, podem-se relacionar os Conselhos de Fraternidade Cristão-judaica existentes no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo.

Ocasiões de contatos para conhecimento

1. Já fizemos referência às formaturas que, freqüentemente, procuram organizar um Culto Ecumênico com a participação de ministros religiosos representativos das crenças dos formandos.

2. Há momentos especiais de encontros formais ou informais entre representantes de comunidades religiosas, como, por exemplo:
● o cardeal Arns em visita à Congregação Israelita Paulista, CIP, e dirigindo sua palavra à comunidade;
● visitas de delegações judaicas ao cardeal Primaz, em Salvador;
● Rabino Roberto Graetz, do Rio de Janeiro, dirigindo-se à reunião dos bispos e assessores da CEP (26/10/83).

3. Aumenta o número de comunidades cristãs que, por ocasião da Páscoa, celebram a Ceia Pascal ou Sêder com um objetivo bíblico e pastoral: conhecer as tradições dos irmãos judeus e sua vivência litúrgica no Sêder Pascal.

4. Grupos de estudos organizados por congregações e centros de estudos judaicos abertos para cristãos.

5. Grupos de estudantes e paroquianos que procuram, no contexto de Cursos Bíblicos ou Sessões de estudos, exposições e debates feitos por Rabinos ou membros da comunidade judaica, sobre sua liturgia, exegese, espiritualidade etc. São momentos privilegiados de troca, de esclarecimentos e de melhor conhecimento da origem e da experiência cristã, da Eucaristia, celebração da libertação e da formação da Igreja primitiva.

Para tanto são privilegiados os momentos das celebrações das festas, sobretudo da Páscoa, como já foi dito, mas também de Pentecostes com uma descoberta do sentida original tal como eram celebradas por Jesus Cristo, onde se encontra: vitalidade da Lei e da Aliança, fidelidade ao Deus Salvador e libertador, e onde se proclama sua bondade no dom da vida.

Objetivos para a sociedade
A procura de meios para a superação de crises que assolam a sociedade, ou de meios para contribuir na reconstrução da nação, como em nossos dias, deve envolver e comprometer todas as camadas da população e todas as comunidades religiosas. A preocupação na procura dos valores correspondentes à construção do Reino de Deus é comum a cristãos e judeus; fraternidade, justiça, amor, liberdade, são fundamentais na Revelação bíblica e comuns aos crentes no Deus de Abraão e da Aliança:

O compromisso social e político das comunidades pode e deve se inspirar na Palavra de Deus.
A luta pela justiça, pela defesa dos direitos humanos, é um terreno comum a quem tem a mesma visão bíblica do homem.

A título de ilustração lembremos:
● Por ocasião da XII Assembléia Geral dos Bispos do Brasil, quando um dos temas centrais era: Direitos do homem, num período conturbado da sociedade brasileira, em 1973, realizou-se um colóquio cristão-judaico sobre direitos humanos, promovido pelo Conselho de Fraternidade Cristã-judaica de São Paulo; os membros do Conselho foram recebidos pela Presidência da CNBB e levaram aos bispos uma posição de apoio em sua missão de defesa dos direitos humanos então menosprezados.

● Também por ocasião da morte, sob torturas, do jornalista judeu Vladimir Herzog, assim como do massacre dos desportistas israelenses nas Olimpíadas de Munique, foram realizadas celebrações religiosas em igrejas católicas, com participação de rabinos.

Estas atitudes não fazem parte de uma tática imediatista de conquista, mas estão ligadas a objetivos permanentes da sociedade: a construção, a partir da fraternidade, e a manutenção de uma sociedade assim construída, vigilante na prática da justiça, na defesa dos "órfãos e das viúvas", como o faziam os profetas.
Estas atitudes ocasionais, em situações que sempre podem voltar a ocorrer, visando à comunhão intensa entre as diversas comunidades não podem ser negligenciadas, e evitarão que se repitam holocaustos monstruosos e desumanos.

Formação nos cursos de Teologia e Catequese

O Concílio Vaticano II demonstrou a importância dos estudos, sobretudo nos níveis da Teologia e da Catequese. O texto assinado pelo cardeal Willebrands, então presidente da Comissão, relembra que o judaísmo não terminou com a destruição do Templo, mas continuou como realidade viva, com grande produção que se encontra no Talmud e outros livros clássicos, onde exegese, espiritualidade e liturgia se encontram.

Para que diversas idéias simplistas, e às vezes inexatas, criadoras de preconceitos, sejam abolidas, é importante que estes estudos sejam estimulados. Uma introdução ao judaísmo, como fonte e origem do cristianismo, é indispensável em qualquer escola de Teologia. Se a exegese cristã encontrou sua linha com grandes nomes como S. Jerônimo e os Padres da Igreja, a própria literatura de s. Justino nos mostra como eram freqüentes os contatos entre sábios cristãos e judeus (Diálogo com o judeu Trifão). E a exegese judia foi fazendo seu caminho, freqüentemente desconhecido pelos cristãos.

A Liturgia tem sua especial importância pois o quadro litúrgico cristão é essencialmente judaico, baseado nas festas como Páscoa e Pentecostes, e com suas celebrações com a Eucaristia e as bênçãos.

Aos poucos, formar-se-ão os especialistas também em nossa Igreja no Brasil. Mas é importante que estes estudos sejam fomentados nos Institutos de Estudos Religiosos, pois é a partir da pregação e das celebrações que podem ser evitados preconceitos, cujas conseqüências escapam às boas intenções.

Se o ideal é o estabelecimento de cursos sistemáticos, cadeiras de Teologia, de Bíblia etc., dada a carência de professores, podem-se organizar cursos intensivos, seminários, mesas redondas, contando-se com a colaboração de professores judeus e cristãos mais especializados; existem mesmo congregações religiosas que se propõem como objetivo o estudo e o diálogo com o judaísmo.

Para subsidiar estes cursos existe, em língua portuguesa, publicada por Editoras católicas, uma literatura especializada sobre judaísmo e o relacionamento da Igreja com o judaísmo.

Recomenda-se tanto aos estudiosos como aos professores, catequistas e agentes de pastoral, a busca destas publicações (ver Bibliografia básica anexa) bem como a sua divulgação entre os alunos, paroquianos e membros das comunidades.

Este material genuinamente brasileiro, preparado para incentivar o diálogo fraterno é, sem dúvida, mais um meio disponível e de fácil acesso destinado a favorecer a obtenção desses objetivos.

Guia para o Diálogo Católico Judaico - Questões Práticas

A. Catequese
A catequese foi sempre considerada pela Igreja como uma de suas tarefas prioritárias. Através da catequese, a Igreja transmite de modo orgânico os princípios da fé, sua tradição e a prática que deve acompanhar esta fé. Por isso, a catequese é também o meio privilegiado de preservar idéias e práticas tornando-as cada vez mais conformes com o evangelho.

A catequese é fonte de vida, partilha e comunicação das experiências de Deus, feita pelos homens e pelo povo de Deus através dos tempos que encontramos na Escritura e na Tradição. Não é um simples saber ou conhecimento do Novo Testamento. Trata-se da experiência, visão e espírito bíblico do Deus que se revela na história e que se dá a conhecer.

A transmissão desta experiência de Deus na história coloca-nos diante do povo de Israel. Ela se faz através das Escrituras e do próprio povo judeu que nos deu Jesus Cristo.

Raízes e herança judaica
As primeiras comunidades judeu-cristãs se formaram através de Jesus e de seu povo. Delas recebemos um patrimônio pelo qual nos tornamos responsáveis.
● O Novo Testamento está profundamente marcado por suas relações com o Antigo Testamento. Um dos princípios orientadores da catequese é lembrar que o Antigo Testamento é primeiramente Escritura judaica, comum a judeus e cristãos.
● Jesus, Maria e os primeiros discípulos eram judeus. Foram os primeiros a aceitar Jesus como Messias. Jesus nasceu, viveu e morreu como judeu.
● O judaísmo no tempo de Jesus não era uma unidade homogênea, mas bastante complexa. O conhecimento dessa complexidade evitará a perpetuação de diversos preconceitos, estereótipos de espírito antijudaico. Perceber as divergências religiosas entre saduceus, zelotas, essênios, fariseus. Aprofundar sobretudo o conhecimento do fariseu a partir da tradição judaica, e não somente da apresentação que se faz no Novo Testamento surgido num contexto polêmico. Descobrir a importância dos mestres judeus no tempo de Jesus, o seu respeito pela Escritura. A busca e a interpretação das mesmas Escrituras. O midrash e sua utilização pelos mestres, a tradição oral e o método pedagógico próprio do ensino nas sinagogas. Situar Jesus Mestre no contexto dos mestres de seu tempo, para melhor descobrir sua pedagogia e assim melhor transmitir sua mensagem.
● Ressaltam-se a importância da sinagoga e seu 1ugar na vida judaica desde o tempo de Jesus, a liturgia sinagogal e as festas judaicas vividas por Jesus e pelo povo judeu hoje, o sábado e a santificação do tempo, as raízes da liturgia cristã radicadas na liturgia judaica.
● O judaísmo não terminou em 70 com a destruição do Templo. Foi o que pensaram os cristãos durante séculos. Os cristãos do século XX convivem com o povo judeu e com o Estado de Israel.

O respeito pelas Escrituras
Para o judeu, a Bíblia é o livro por excelência, sempre atual e presente pela mensagem que traz para a vida religiosa, ritual e social, em sua concepção de Deus, do homem e do mundo.

Até o exílio de Babilônia, a vida e a prática religiosa do povo judeu estavam centralizadas no Templo de Jerusalém. No exílio, toda a vida judaica organizou-se em torno da Palavra e, posteriormente, fez-se a sistematização das Escrituras. No tempo de Jesus, já era conhecida na ordem que encontramos hoje: Toráh – Pentateuco, os 5 livros de Moisés; Nebiím – Profetas e Ketubím – Escritos.

As iniciais de Toráh, Nebiím e Ketubim formam o TaNaK. De todos os livros bíblicos, a Toráh ocupa o lugar mais eminente na tradição e na liturgia judaica.

A Toráh é a parte mais antiga da Bíblia e teria sido escrita por Moisés. Contém as verdades fundamentais sobre Deus e sobre o homem. Constitui um caminho para a vida religiosa e moral do indivíduo , é a garantia de unidade e perenidade do povo judeu.

Durante todos os séculos, a Torá foi lida, estudada e comentada. Além de ser um código legal, é para os judeus uma fonte de vida onde jorra o modelo de sua história e suas leis, que alimentam sua fidelidade ao Deus Único.

Nebiím (profetas) é formado por duas partes: os primeiros profetas, que compreendem os livros de Josué, Juizes, I e II de Samuel, I e II Reis, constituindo as narrativas que seguem a Torá e a conquista da Terra até a destruição do Templo de Jerusalém (586 a.C.), e os posteriores Profetas: Isaías, Jeremias, Ezequiel e os 12 ou menores profetas. Os profetas menores são formados pelos 12 livros colocados na Bíblia hebraica depois do livro de Ezequiel.

Ketubím, terceira parte da Bíblia, em termo grego Hagiógrafos. Abrange os Salmos, Provérbios. Jó, Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, Coélet, Ester, Daniel, Esdras, Neemias e Crônicas.

Quando Jesus fala aos discípulos sobre os acontecimentos, ele diz: "Isto é o que vos dizia quando ainda estava convosco. Era necessário que se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés (Toráh), nos Profetas (Nebiím) e nos Salmos (Escritos)".

Tradição oral – Toráh oral
A Toráh é o centro de onde tudo se irradia e para o qual toda a vida judaica converge. Consciente de tudo o que ela significa, o povo judeu desenvolveu uma verdadeira veneração pela Toráh.

A Toráh é doutrina, ensinamento, instrução, direção e também lei. É doutrina essencialmente voltada para a prática, é Revelação enquanto expressão da vontade divina a ser realizada e obedecida, caminho de justiça, de santidade, de verdade que leva à vida. Ao lado da Escritura, Toráh escrita, temos a Toráh oral que tem a mesma autoridade. Foi codificada aos poucos pela literatura rabínica.

De acordo com a posição tradicional judaica, se a Toráh escrita data diretamente de Moisés e contém uma revelação recebida no Sinai, a mesma coisa se afirma da Toráh oral. Sua função é dupla: de um lado ela completa, de outro ela interpreta e aplica a Toráh escrita. O problema da aplicação da Toráh escrita não cessa de se colocar em todas as épocas.

A tradição oral – tradição interpretativa – foi transmitida pelos mestres oralmente desde o exílio. Essas interpretações foram recolhidas por escrito, durante os séculos II a VIII d.C., dando nascimento às obras que conhecemos como Talmud e Midrash.

O Talmud inclui dois diferentes elementos: a Halakáh (lei) e a Hagadáh (narração). A Halakáh reúne os estatutos da oração oral, enriquecidos pelas discussões das escolas da Palestina e da Babilônia, para alcançar as fórmulas definitivas da Lei. A Hagadáh, partindo também do texto bíblico, ensina por meio de lendas, alegorias, reflexões de moral e reminiscências históricas. A palavra Talmud referia-se, no princípio, somente à Guemará; posteriormente o nome veio a ser aplicado a ambos: Mishnáh e Guemará e têm a seguinte relação entre si: a primeira é o texto e a segunda o comentário. O Talmud consiste de sessenta e três livros legais, éticos e históricos escritos pelos antigos rabis.

A palavra Midrash significa "interpretação" e designa a exegese bíblica baseada no método de "drash", que é uma análise minuciosa e microscópica do texto bíblico, verso por verso, e às vezes, letra por letra. Esta análise se aplicava tanto a textos jurídico-religiosos como folclóricos ou históricos. No primeiro caso se trata de Midrash Halakáh e no segundo, de Midrash Hagadáh. Essas foram as duas formas mais antigas da exposição midráshica, que deram origem às duas grandes categorias em que se divide o Talmud, Halakáh e Hagadáh.

O modo de interpretar e fazer "midrash" era comum aos tempos de Jesus. Através de parábolas, pequenas histórias, fatos, citação da Escritura, explicava-se o que Deus e a vontade divina esperavam e convocavam o povo a realizar. Nos Evangelhos, vamos encontrar inúmeras parábolas de midrash hagádico e também comentários haláhicos.

Judaísmo no tempo de Jesus
O judaísmo no tempo de Jesus não era uma realidade homogênea. Os estudos históricos e interpretativos do Novo Testamento descobrem, cada vez mais, que os evangelhos são testemunhos de diversas comunidades que floresceram em realidades diferentes. Para compreender o nascimento das Escrituras nas comunidades cristãs, é preciso hoje recorrer à história e tradição judaicas. Não podemos mais falar dos judeus sem perguntar como os judeus se compreendiam e como viviam nos primeiros séculos de nossa era.

A complexidade da vida judaica no tempo de Jesus é atestada pelos próprios evangelhos. Neles encontramos diversas categorias ou grupos de judeus: escribas, doutores da lei, saduceus, zelotas, fariseus e, implicitamente, o modo de vida dos essênios. O que une estes diferentes judeus é a Toráh, e o que os torna distintos é o modo de expressá-la e portanto de vivê-la.

Saduceus – Em sua maioria, pertenciam à aristocracia sacerdotal, famílias ricas da aristocracia, dirigentes do povo. Sua autoridade se relacionava sobretudo com o que dizia respeito ao culto do Templo em Jerusalém. Colaboravam com os romanos, pois gozavam de muitos privilégios e, por isso, mantinham e lutavam pelo "status quo". Temiam todo movimento ou manifestação de transformação social, econômica, política ou religiosa. Desde o tempo dos Macabeus, eram inimigos dos fariseus. Este grupo desapareceu no ano 70 com a destruição do Templo. No plano religioso, só aceitavam a Toráh escrita. Não acreditavam na ressurreição e nem nutriam o ideal messiânico.

Herodianos – O nome vem de Herodes, o Grande. Eram membros da casa de Herodes e de sua corte. Faziam parte da administração estatal. Apoiavam a dinastia de Herodes e, por isso, eram mais numerosos na Galiléia. Eram próximos dos saduceus pelos interesses e privilégios. No entanto, no que se refere ao imposto sonegado a Roma, estavam próximos dos zelotas, pois alimentavam o ideal de libertação da Galiléia do jugo romano. Faziam alianças de diversos tipos. Procuravam aproximar-se dos fariseus, pois tinham consciência da influência popular de que estes gozavam.

Essênios – De um modo geral, contrastavam com todo o conjunto da vida de Israel. Viviam separados, em oposição aos outros grupos. Possuíam uma organização comunitária muito rígida, de espiritualidade apocalíptica, com a idéia de representar o verdadeiro Israel. Não tinham propriedade privada. Tudo era comum: casas, terras, rebanhos, roupas. Um membro eleito era responsável pelo recebimento de todo o lucro e pela compra do que era necessário à comunidade. O comércio era proibido entre eles. Recusavam-se a fabricar armas, e sua lei fundamental era viver em paz e do produto do próprio trabalho, evitando tudo o que pudesse fazer mal a outrem.
Muitas comunidades de essênios viveram próximo de aldeias ou nos desertos. O sinal exterior característico era uma túnica branca dada a todo neófito que se interessava pela comunidade.
Até bem pouco tempo, os essênios eram conhecidos somente pelos historiadores antigos. A partir de 1947, com as descobertas de Qumrã, grutas que ficam às margens do mar Morto, eles se tornaram mais conhecidos. Nestas grutas, foram encontrados muitos documentos da comunidade, manuscritos que revelam o modo de vida dos essênios.

Fariseus – A origem dos fariseus parece datar da época dos Macabeus (1Mc 2,42; 7,13). No entanto, o movimento tem suas raízes no exílio e na volta do exílio, com Esdras e Neemias (Ne 8,7-8). Foi a partir desta época que a profissão do escriba passou a ser exercida, não somente pelos sacerdotes, mas também por leigos. Ligados, portanto, aos leigos, estudando e ensinando a Toráh, estes escribas aos poucos começaram a exercer a mesma função de liderança espiritual até então reservada aos sacerdotes. No início, eram pouco numerosos. Os fariseus são homens do povo: trabalhadores rurais, artesãos e comerciantes etc...

Convencidos de que Deus deu a Toráh a todo o povo e não somente aos descendentes de Levi (Ex 19,6), deduziram que não era necessário ser sacerdote para conhecer, ensinar e praticar toda a Toráh. Um doutor da lei leigo ou um filho de prosélito (convertido) vale mais do que um sumo sacerdote que ignora e não cumpre a Toráh.

No tempo de Jesus, os fariseus representavam as crenças, práticas religiosas e atitudes sociais da maioria dos judeus. Eram recrutados em todos os meios sociais, mas particularmente nos meios modestos das aldeias, onde a presença de uma sinagoga e, mais tarde, de uma escola permitiam estudar a Toráh aos pés de um mestre.

Havia um período de formação. Primeiro estudar a Toráh com o mestre, aprender a praticar a Toráh de modo a estar sempre em estado de pureza ritual: observar o sábado, as festas, orar, pagar o dízimo, comer somente o permitido e se portar em tudo como judeu-modelo. Após esta iniciação, a pessoa era admitida nas "haburot " (amigos, companheiros), confraria farisaica. As "haburot" eram abertas a todos, mas só se recebiam como membros os que levavam vida digna de membro do "povo de sacerdotes, nação santa", que deveria ser todo Israel.

Mas não podemos considerar os fariseus um grupo homogêneo. Há mesmo duas tendências opostas que dividem os fariseus. Duas grandes escolas: Shamai e Hillel. A escola de Shamai representa uma tendência rígida, menos humana e mais aristocrática. Até o ano de 41 d.C., antes do rei Agripa, os shamaítas vindos de famílias ricas foram mais fortes e tiveram influência junto aos saduceus. Os sacerdotes que pertenciam ao farisaísmo vinham, em sua maioria, da escola de Shamai. Após 70, eles sobreviveram por algum tempo em Lod, mas foi a tendência de Hillel que se impôs no final do século I d.C.

A escola de Hillel é mais humana e próxima do ensinamento de Jesus. A "regra de ouro" que encontramos em Lc 6,31: "Não faças ao outro o que não queres que façam a ti", aparece também na tradição judaica como sendo de Hillel. Paulo foi discípulo de Gamaliel I que, por sua vez, era discípulo de Hillel.

Geralmente, os fariseus admitiam o princípio de evolução em suas decisões legais, ao passo que os saduceus eram incapazes de adaptação a um ambiente em fase de evolução. Os fariseus eram assim, em geral, brandos em suas interpretações, enquanto os saduceus se apegavam à letra do texto escrito. Os fariseus colocavam a vida da nação dentro de uma estrutura haláhica expressa na Lei oral que consideravam não menos vital que a Lei escrita (a Bíblia). Sua doutrina aspirava a cobrir a vida inteira da comunidade, tocando portanto nos fundamentos teológicos da vida, nas questões de destino, de bem e de mal, de imortalidade da alma e de escatologia.

Os próprios evangelhos são testemunho da importância dos fariseus. E a idéia que temos do fariseu se tornou o modo mais comum de transmitirmos nossas idéias sobre os judeus e o judaísmo.
Nos evangelhos, os fariseus vêm assimilados aos saduceus, sumo sacerdotes e escribas, dando do fariseu uma idéia homogênea que se transformou em sinônimo de hipócrita, legalista, rigorista. Este modo de considerar o fariseu como maior adversário de Jesus, talvez não venha do contexto histórico vivido por Jesus, e sim das comunidades cristãs e judeu-cristãs, após a destruição do Templo e da Revolta Judaica de 135. A partir desta época os fariseus assumiram a organização e a direção espiritual do judaísmo.

Zelotas – Procuravam implantar o Reino de Deus através de ações concretas. Representavam o nacionalismo judeu mais rigoroso. O nome zelota vem de "zelo pela lei", apoiados no ideal que remonta ao profeta Elias. Na grande maioria, pertenciam às camadas rurais mais pobres. Combatiam a dominação romana que criava uma realidade injusta. Vários autores indicam o início do movimento zelota com Judas, galileu, logo após a morte de Herodes, quando a Judéia foi transformada em província romana.
Consideravam o político e religioso intrinsecamente ligados; por isso, através da luta armada, cooperavam com a "vinda do Reino de Deus". Estavam dispostos a atacar e matar não só os romanos e estrangeiros, mas também os judeus colaboracionistas.
A conversão consistia na solidariedade, disponibilidade total e, se preciso fosse, até o martírio.

Sinagoga – A origem da sinagoga permanece ainda obscura. A opinião mais provável é que ela começou a existir em Babilônia, durante o exílio, como substitutivo do serviço do Templo, ou talvez como imediata necessidade para os exilados se reencontrarem. Introduzida por Esdras na Palestina, logo se difundiu por toda a Erets Yisraêl. Alguns eruditos já defenderam a tese de que ela foi criação palestinense, inclusive anterior ao Templo, no tempo da reforma de Josias. A existência de sinagogas no século III a.C., no Egito, é documentada por inscrições e papiros. As descobertas de Delos são os testemunhos mais remotos. De qualquer sorte, a instituição sinagogal cresceu com o tempo e conheceu várias formas de existência. É o centro religioso, cultural e social da coletividade judaica. A palavra, que é de origem grega, significa reunião e é sinônima da palavra `ibrit: Kneçet.
Contudo, no tempo de Jesus, vemos que elas estão em pleno florescimento também em Israel, desempenhando um papel importante mesmo na liturgia do Templo.
Após a destruição do Templo em 70 e o fim do culto dos sacrifícios, a sinagoga tornou-se o "lugar" da vida religiosa, social e intelectual dos judeus até nossos dias.

● O sábado – Shabat – O Shabat começa na sexta-feira à tarde e termina no sábado à tarde. A partir do Decálogo e do conjunto da Lei judaica, este dia é um dia que não se trabalha. É um dia de repouso, de louvor ao Deus Único, Criador.
Antes que chegue a tarde de sexta-feira, tudo deve estar preparado. Em casa a mesa é posta, a mãe de família acende as velas do sábado com a "bênção da luz", e o pai pronunciará a bênção do vinho. Na sinagoga o ofício é celebrado com salmos e hinos próprios para acolher o sábado, e a bênção do vinho "Qidush" também é cantada. De volta a casa, as famílias se reúnem para a refeição preparada com carinho especial e onde se encontram entre amigos. O dia de sábado é reservado para a oração, estudo, visita aos doentes e aos amigos.
No ofício matutino da sinagoga, é lida a Toráh que é retirada solenemente do seu lugar especial – Arca Santa. Juntamente com a Toráh é lido um trecho dos profetas, às vezes seguido de homilia.
Na tradição judaica, o Shabat é sinal da Aliança entre Deus e a Criação. Sendo Israel o povo da Aliança, o sábado é o sinal por excelência desta Aliança entre Deus e Israel (Ex 31,13).
Para o judeu, guardar o sábado é testemunhar no meio dos homens o elo que os une a Deus que é proclamado como:
– Fonte de vida e de liberdade para o homem (Dt 5,15).
– Criador do Universo (Ex 31,17).
– Igualdade de todos os homens. Todos são filhos de Deus e portanto devem neste dia formar uma unidade diante do Criador (Dt 5,14).
O cristão conhece o Shabat pelos evangelhos. Jesus freqüentava a sinagoga aos sábados (cf. Lc 4,16-20; 6,6, e outros).

● Calendário judaico – O primeiro traço com que deparamos, analisando o calendário judaico, é a sua origem, ao mesmo tempo solar e lunar. De fato, o ano é solar e os meses são lunares. A duração do ano está determinada pelo tempo de evolução da terra ao redor do sol, ou seja, 365 dias e um quarto. Compreende também doze meses; visto porém serem lunares, e somarem portanto, ao todo 354 dias e meio, aparece uma diferença de 11 dias entre a extensão do ano solar e a do lunar. Para acertar o equilíbrio entre ambos, recorre-se ao ano de 13 meses, entremeado dos anos comuns. A proporção é de 7 anos de `ibur para um ciclo de 19 anos comuns, ao cabo dos quais a diferença é sanada. A duração do mês judaico é determinada pelo tempo que leva a lua em fazer a evolução ao redor da terra, isto é, 29 dias e meio. Como era preciso dar ao mês uma duração mais definida, por motivos práticos, facilmente explicáveis, atribuíram-se 29 dias a alguns e 30 a outros. Deste modo há no ano judaico cinco meses de 29 dias, cinco de 30, e dois cuja duração varia de ano para ano. O mês começa com a lua nova, e o primeiro dia chama-se Rôsh Hôdesh. Para os atos religiosos, os hebreus adotaram uma contagem, criando o calendário conforme cálculos baseados na Bíblia, que situariam a criação do mundo, 3.760 anos a.C.


B. Convivência
O encontro do judeu com o cristão não se efetua a partir do zero. Os séculos colocaram no caminho do diálogo muitos ressentimentos, suspeitas e mitos que precisam ser superados.

I. O primeiro obstáculo a ser removido são os mitos, pois o próprio judeu para muitos continua sendo um mito. Há mitos que tratam o judeu como sendo um ser irreal, atribuindo-lhe qualidades acima dos outros povos, e há os mitos negativos que fazem do judeu um aliado do diabo. No folclore medieval, o judeu era visto como tendo um pacto com o diabo, levando o crédulo à inferência de que batendo no judeu estava praticando um ato meritório de fustigar o diabo.

Para que haja diálogo precisamos, revendo os mitos, encontrar O OUTRO antes de tudo COMO SER HUMANO. Como em qualquer agrupamento humano, podem ser encontrados entre os judeus os praticantes e os apáticos, os inteligentes e os retardados, os honestos e os desonestos, os politicamente ativos e os alienados etc.

Assim sendo, na primeira fase da convivência deixemos que a realidade confronte o mito. Vide sugestões concretas para o debate no Item A – A luta contra o preconceito.

II. Se quisermos abordar a convivência de judeus e cristãos, teremos que enfrentar também uma suspeita: os judeus desconfiam que o diálogo religioso é travado pelos cristãos com a meta de convertê-los. Esta suspeita não é infundada, pois no passado o diálogo era em geral mantido com esta intenção. Não há verdadeiro diálogo, se o outro é visto como um candidato à conversão. Como a meta é a convivência, cabe evitar a doutrinação e o monólogo e substituí-los por um interesse genuíno nas diferenças e semelhanças das duas tradições. Uma lista de perguntas no Item B – Conhecendo o judaísmo – serve para provocar indagações que de fato reflitam a curiosidade dos interlocutores.

III. O reconhecimento mútuo, em nível de religiões, requer entre outros quesitos as seguintes posturas: para a convivência, é necessário compreender que os judeus consideram o Antigo Testamento não como um prefácio do Novo. Seria de grande proveito para o diálogo, se os interlocutores abordassem o texto "deixando o texto falar". Obviamente cada um dos leitores da Bíblia vem ao texto com uma série de associações de sua doutrina; trata-se de sua tradição da leitura do texto. Esta tradição interessante, e valiosa em si, muitas vezes abafa uma leitura renovada do texto. Propõe-se uma atitude sem idéias predeterminadas ao ler o texto do Antigo Testamento; sugere-se que o façamos com os olhos de quem o encontra pela primeira vez. Isto possibilitará o diálogo.

Em uma segunda fase nada impede de comparar como cada grupo compreendeu e interpretou um determinado texto à luz de sua tradição de ler as Escrituras.

Ao abordar textos, deve-se levar em conta um perigo que decorre da utilização cristã do Antigo Testamento, na sua polêmica do passado contra o judaísmo. Ao apresentar o "Velho" Testamento como uma preparação para o Novo, foi freqüente o hábito de contrastar os dois testamentos sempre com o intuito de mostrar a altura espiritual alcançada pelo Novo. Um ataque freqüente foi, por exemplo, que o Deus do "Velho" Testamento é o Deus da Justiça, enquanto o do Novo Testamento é o Deus do Amor. Justiça sem amor certamente se transformaria em tirania, como amor sem justiça não seria mais do que sentimentalismo. A verdade é que os que escreveram o Novo Testamento também souberam invocar a ira divina sobre os pecadores, enquanto os que escreveram a Bíblia hebraica também souberam falar com ternura do Amor divino. Há alguma exposição mais nobre do Amor de Deus do que o livro de Jonas, o Cântico dos Cânticos, o livro de Oséias e muitos dos Salmos?

Para compreender o judaísmo, uma outra necessidade seria o estudo da criatividade literária dos judeus nos primeiros cinco séculos da era cristã, literatura esta quase completamente ignorada pelos cristãos. Seria de grande vantagem corrigir a visão errônea de que o judaísmo na época de Jesus era "legalismo sem alma". O judaísmo conservou toda a sua vitalidade na época da Mishnáh (séc. I e II), do Talmud (séc. III a V) e dos Midrashim. Existem criações espirituais de valor, interpretações e correntes das mais variadas. O item C sugere o estudo de algumas fontes.

IV. Por esta razão, ao contrastar as duas religiões, deve-se tentar reconhecer o judaísmo como sendo uma religião completa, com sua própria criatividade, com seus aspectos espirituais originais, e isto requer uma nova postura para a convivência.

Um destes quesitos se refere à culpa dos judeus. Tendo os judeus de hoje sido absolvidos pelo Concílio Vaticano II da culpa de "deicídio", não mais se pode considerar os judeus como amaldiçoados. Contudo o sofrimento judaico neste século requer uma nova explicação. O Item D ousa sugerir uma fonte bíblica que merece ser estudada.

V. Um último requisito para uma convivência necessita ser abordado: o Antigo Testamento foi usado indevidamente contra os judeus. Dentro da polêmica do passado, as denúncias das transgressões do povo foram mantidas como referentes aos judeus, enquanto as mensagens positivas do futuro de Israel foram tomadas como referentes à Igreja. Com isto ficaram para os judeus as acusações, mas não as promessas.

Item A – A luta contra o preconceito
Alguém do grupo conhece um judeu? Em que medida os presentes que não conhecem judeus têm idéias preconcebidas? Há preconceitos na nossa sociedade? Estereótipos quanto a japoneses, negros etc. poderiam ser analisados.
Debate: Em que medida a malhação de Judas, tradição folclórica (conscientemente ou inconscientemente) ajuda a fortalecer preconceitos, violência, contra os judeus? Sensibilizar o grupo para o uso de palavras que levam uma carga preconceituosa em nossa língua.
Exemplos: O verbo judiar, trabalho de negro, negro com alma de branco, judeu errante etc.

Item B – Conhecendo o judaísmo
Sugestões – Visitar uma sinagoga. Planejar um Sêder. Explicar o que é a Toráh (rolo ainda hoje escrito a mão, lido na sinagoga). Analisar uma reza judaica.
Dar exemplos de organizações de judeus que ajudam judeus. Exemplos de contribuições de judeus para a cidade, o estado e o país. Contribuições de judeus à humanidade.
Por que os judeus que chegaram ao Brasil começaram como comerciantes?
Por que os judeus não acreditam em Jesus?
O Estado de Israel é como o Vaticano?
Por que há necessidade de um Estado de Israel?
Qual a diferença entre israelita e israelense?
Qual a diferença entre israelita e judeu?
O judaísmo crê em outro mundo?
Quais são os ideais proféticos de Justiça Social?
O Universal e o Nacional no judaísmo?
Estas perguntas não formam uma seqüência, ou um curso, elas são aqui enumeradas unicamente para sugerir outras indagações.

Item C – Fontes de estudos sobre a Mishnáh e o Talmud
Existe uma obra chamada Ética dos pais, que inclui dezenas de frases dos mais variados mestres da Mishnáh. Foi traduzida ao português e oferece amplo panorama do pensamento da época. Também as biografias de cada sábio mencionado oferecem inspiração. Há várias obras com frases do Talmud, mas deve-se levar em conta que na imensa literatura talmúdica, que é muito democrática, há opiniões das mais variadas e nem todos os pronunciamentos são normativos do judaísmo.

Item D Sofrimento
Propomos o estudo do livro de Jó, onde o sofrimento é abordado sem que haja culpa.
Propomos que em algum momento se aborde o Holocausto com seus 6 milhões de vítimas. Há muitos livros que contam a coragem e os sofrimentos tanto de judeus, como de não-judeus, que se arriscaram para salvar vidas.
Projetos futuros:
Há no campo pedagógico um vasto trabalho a ser realizado.
Há necessidade de criar bibliografias de material existente.
Existe material audiovisual sobre a vida dos judeus de hoje, costumes, objetos rituais etc., mas este material precisa ser coletado e distribuído.
Deve-se criar cursos para preparar o diálogo nos seminários.
Impõe-se uma exegese que ajude a colocar os textos de épocas anteriores sob a perspectiva histórica, mostrando o contexto de afirmações polêmicas, e que se façam correções de textos usados para ensino.
Muitos projetos estão começando a se delinear.


C. Casamentos mistos
Em primeiro lugar, é importante definir "casamento misto". O termo se refere ao matrimônio entre duas pessoas de credos diferentes, cada uma das quais decidiu manter sua própria religião. Se um dos noivos se converteu anteriormente ao credo do outro, o casamento não é considerado "misto".

Por que o judaísmo é oficialmente e quase universalmente contrário a casamentos mistos?
É ponto pacífico que todos os rabinos ortodoxos ou de orientação tradicional são unanimemente contra os casamentos mistos. É oportuno mencionar que também a maioria dos rabinos reformistas tem a maior relutância em celebrar tais cerimônias.

Por quê? Qual o motivo dessa oposição?
Existem duas razões. A primeira é mais importante: a probabilidade de insucesso de tais casamentos. Psicólogos, sociólogos e orientadores de casais concordam que quanto mais duas pessoas têm em comum, tanto maior é sua chance de felicidade conjugal; e quanto mais diferem em aspectos socioculturais, tanto menor é a probabilidade de serem felizes como marido e mulher.

Clarence Louba, um conhecido professor de psicologia no Antioch College, disse certa vez: "Em todo casamento, existirão algumas diferenças consideráveis de interesses, atitudes e convicções. Mas um casamento não suporta um número elevado demais dessas diferenças. Diferenças ideológicas, religiosas e raciais estão entre as que mais atingem o relacionamento conjugal. Quando os cônjuges provêm de diferentes ambientes socioeconômicos, políticos ou religiosos, surge uma infinidade de possíveis fontes de atrito".

Isto é mais do que mera teoria. Roland Gittelsohn, em seu texto Fire in my Bones, cita estatísticas da Hungria que mostram uma taxa de divórcio três a quatro vezes maior, em casos de casamentos mistos, do que quando marido e mulher pertencem à mesma fé. Existem inúmeros outros estudos a respeito do assunto, os quais não discutiremos aqui. Mas a conclusão é clara: o convívio conjugal já é suficientemente difícil e complexo; acrescentar divergências religiosas aos problemas cotidianos só pode gerar maiores tensões e conflitos.

A segunda razão relaciona-se à sobrevivência judaica. Esta é uma questão na qual não podemos ser transigentes, pois sabemos que os casamentos mistos levarão, em última análise, ao completo desaparecimento do judaísmo e do povo judeu do palco da história.

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos revela que, entre a geração de imigrantes, a porcentagem de casamentos mistos é da ordem insignificante de l%. Na segunda geração, a dos filhos destes imigrantes, a porcentagem eleva-se a 18%. E na terceira geração, alcança 40%. Ou seja, houve um aumento de 39% na taxa de casamentos mistos em apenas três gerações. No Brasil, embora não haja estatísticas oficiais, a proporção é a mesma. A tendência é inequívoca. Duas em cada cinco famílias da terceira geração são resultado de um casamento misto.

E os filhos desses casamentos? Se pudéssemos supor que a maioria destas crianças seria criada dentro do judaísmo, não estaríamos preocupados. Mas, infelizmente, não é o caso. Através de outras pesquisas, verifica-se que em 73% das famílias resultantes de casamentos mistos, os filhos não são judeus. Em outros 10% dos casos, apenas um filho é judeu, os restantes não. Somente em 17% das famílias mistas, todos os filhos são judeus. E é preciso acrescentar que, mesmo neste último caso, não se averiguou o grau ou a profundidade da identificação religiosa dessas crianças; foi simplesmente registrada a afirmação dos pais de que seus filhos são judeus. O mesmo fenômeno se verifica também do lado cristão.

O que se deduz de tudo isto? Primeiro, a taxa de casamentos mistos, que já é alarmante entre os judeus, tende a aumentar ainda mais. E segundo, na melhor das hipóteses, somente umas duzentas crianças, entre cada mil nascidas de tais casamentos, têm um mínimo de identidade judaica.

Isto não é mais tema para discussões teóricas. É uma ameaça real que não pode ser ignorada e que justifica plenamente nossa firme oposição aos casamentos mistos.

A família é o melhor meio para perpetuar os valores universais e as tradições religiosas. Acreditamos que todas as religiões são igualmente válidas. Porque Deus é um só. Mas existem caminhos diversos para se chegar a ele. E é preciso manter-se num deles, seja lá qual for, a fim de não se perder. Nunca atingiremos o universal obliterando nossas diferenças. Cabe à família judaica preservar o judaísmo, e à família cristã preservar o cristianismo.

Este dever é igualmente reconhecido pela Igreja Católica, a qual define como "misto" o matrimônio "entre duas pessoas batizadas, das quais uma tenha sido batizada na Igreja Católica ou nela recebida depois do batismo, e que não tenha dela saído por um ato formal, e a outra pertencente a uma igreja ou comunidade eclesial que não esteja em plena comunhão com a Igreja Católica" (cânon 1124).

O Código de Direito Canônico de 1917 adotava uma atitude de desconfiança total perante os matrimônios mistos: "...severissimamente a Igreja proíbe, em toda a parte..." (cânon 1060). O motivo fundamental dessa proibição era o perigo que tais casamentos poderiam representar para a fé da parte católica.

A maior compreensão dos princípios do ecumenismo cristão – sobretudo a partir do Concílio Vaticano II – modificou, em grande parte, esta atitude. É importante observar, entretanto, que esse abrandamento de atitude não se estende ao caso de "disparidade de culto", quando um dos cônjuges é batizado e o outro não. "No caso do casamento entre batizados, o qual é um verdadeiro sacramento, se estabelece uma certa comunhão de bens espirituais que, pelo contrário, falta no matrimônio contraído por cônjuges, dos quais um é batizado e o outro não recebeu o batismo. Não obstante tudo isto, não se deve minorar as dificuldades que subsistem mesmo nos matrimônios mistos entre batizados" (Motu Proprio "Matrimonia Mixta", Proêmio).

A razão básica da objeção da Igreja Católica aos casamentos mistos é idêntica à objeção por parte da Sinagoga: o matrimônio misto constitui, objetivamente, um obstáculo à completa fusão espiritual entre os cônjuges, pois entre eles existirá sempre algo bem importante que não é comum a ambos: a religião.

De acordo com as normas em vigor, a Igreja Católica só permite o casamento misto ("misto" no sentido restrito, isto é, entre dois batizados) se for concedida uma licença do bispo local. Para obter tal licença, é necessário que "a parte católica declare estar preparada a afastar os perigos de defecção da fé e prometa sinceramente fazer todo o possível a fim de que toda a prole seja batizada e educada na Igreja Católica" (cânon 1125,1°). Esta exigência é reiterada nas Normas Complementares da CNBB (1978).

O Motu Proprio "Matrimonia Mixta" aboliu as penas estabelecidas no Código de 1917 contra os católicos que tentassem casar num outro rito religioso ou com o pacto de educarem os filhos fora do catolicismo. Isto não significa, porém, que tais atos sejam agora considerados lícitos pela Igreja Católica. Muito pelo contrário, o Código de 1983 manda que "os pais (...) que confiam seus filhos para serem batizados ou educados numa religião acatólica sejam punidos com censura ou outra justa pena" (cânon 1366).

Em suma, tanto os judeus como os católicos afirmam a importância da unidade e unicidade religiosa da família, seja qual for a religião. Assumindo uma posição contra os casamentos mistos, estamos não só fortalecendo nossos respectivos credos, como também revigorando a instituição da família em nossos dias.

Guia para o Diálogo Católico Judaico - Comunidade Judaica no Brasil

Quando Pedro Álvares Cabral zarpou de Portugal, em 1500, trazia consigo Gaspar da Gama, navegador. Judeu de origem polonesa, foi obrigado a converter-se ao cristianismo, durante a Inquisição. Levado para Portugal em 1498, por Vasco da Gama, ganhou a confiança do governante português.

Foi Gaspar da Gama que alertou os judeus, convertidos ao cristianismo, sobre a importância que o novo território poderia ter em sua vida. Foi assim que um grupo de cristãos-novos, como eram chamados os conversos, encabeçados por Fernão de Noronha, obteve uma concessão do governo português para a colonização e exploração da nova terra. O mais antigo documento relativo a essa concessão, data de 1502.

O contrato definia que os arrendatários se encarregariam de mandar, anualmente, seis barcos para o Brasil, descobririam 300 léguas de novas terras, construiriam e manteriam fortificações nos territórios recém-descobertos. Em troca, era-lhes concedido o monopólio do país, isto é, o corte e a exportação de pau-brasil e de todas as demais mercadorias lucrativas.

Em 1503, o próprio Fernão de Noronha participou da primeira expedição, descobrindo, nesse mesmo ano, uma ilha próxima à costa setentrional do Brasil, que chamou de São João, mas que se tornou conhecida sob o nome de Ilha de Fernão de Noronha (atualmente Território de Fernando de Noronha). Colonizou, também, 50 léguas de terras na costa do Brasil.

Em reconhecimento pelos serviços prestados no passado e os que se esperavam no futuro, em consideração à descoberta da ilha e pela colonização das terras, D. Manuel, em decreto de 16 de janeiro de 1504, nomeou Fernão de Noronha "Cavaleiro da Coroa" e donatário da ilha por toda a vida, sendo o seu filho mais velho o herdeiro do direito da Capitania. Assim, ele foi o primeiro donatário do Brasil, apesar de que somente em 1532 foi implantado o sistema de Capitanias Hereditárias.

Com a implantação desse sistema a migração de cristãos-novos cresceu, pois os arrendatários não conseguiam colonos e foram obrigados a utilizar o único elemento de que dispunham. Mas não restam dúvidas de que foi somente a partir das perseguições iniciadas contra os conversos que a imigração aumentou significativamente.

Apesar da Inquisição ter atuado em Portugal desde 1447, quando D. Manuel forçou todos os judeus a se submeterem ao batismo, as restrições não os impediam de imigrar para a colônia. E aqui, cada vez mais, exerciam função preponderante, devido ao seu relacionamento com os indígenas e à exploração comercial do país.

Duarte Coelho, governador de Pernambuco, contratou judeus para montarem os engenhos açucareiros. A falta de colonos e as dificuldades enfrentadas pelos portugueses, na colonização e exploração do novo território, forçavam o governo central à tolerância maior para com cristãos-novos. Sua situação tornou-se mais difícil a partir de 1526, quando se estabeleceu em Portugal o Tribunal do Santo Ofício.

Vozes da colônia levantaram-se contra a instalação do Santo Ofício no Brasil. Tomé de Souza declarou que não seria possível mantê-lo sem o auxílio de um forte exército, pois os cristãos-novos estavam estabelecidos tão firmemente, que uma perseguição antijudaica poderia, inclusive, provocar distúrbios com a população local.

Símbolo de integração dos cristão-novos com a população local foi o casamento de João Ramalho, herói da colonização, com a índia Bartira, filha do poderoso cacique Tibiriçá. Seu relacionamento com os aborígines facilitou, e muito, o estabelecimento de portugueses na região de Santos e de São Paulo. Martim Afonso de Sousa, governador dessa Capitania, conferiu-lhe o título de governador militar de Piratininga. Foi João Ramalho quem impediu o ataque dos índios contra a frota de Martim Afonso, em 1532. João Ramalho nunca se declarou judeu, mas sempre se negou a praticar o cristianismo.

Durante o domínio holandês, a vida dos judeus ou cristãos-novos trouxe muitas transformações, entre as quais a liberdade religiosa. A criação da Companhia das Índias Ocidentais foi o início da penetração holandesa no país, através da Bahia, em 1624. Os holandeses adotaram imediatamente uma política de tolerância religiosa e proteção aos residentes da cidade. Com certeza havia judeus vindos na expedição holandesa, apesar de não se saber ao certo o número. Mas os holandeses foram expulsos da Bahia, em 1625. Em 1630 voltam a se instalar no Recife.

Em 1637 a Companhia das Índias Ocidentais nomeou Maurício de Nassau governador do Brasil Holandês, em Pernambuco. Foi o período de maior prosperidade da comunidade judaica no Brasil, estimulando a vinda de judeus da Holanda.

Os judeus exerciam várias profissões. O engenheiro Baltazar d’Afonseca construiu uma ponte para unir a ilha Maurício ao Recife (1640). Porém, a ocupação mais importante dos judeus, sem dúvida nenhuma, era o comércio de ultramar, de importância vital para a colônia. Nos meados do século XVII, há várias resoluções do Governo para que se paguem letras de câmbio a comerciantes judeus por mercadorias remetidas ao Supremo Conselho da Colônia.

A imigração de judeus vindos da Holanda marcou a primeira estruturação da comunidade judaica no Brasil. Foram esses imigrantes que organizaram a comunidade do Recife segundo o modelo de Amsterdã, sob o nome de Tzur Israel de 1640 a 1654. Havia uma escola, chamada Etz Hayim – Árvore da Vida, um cemitério e uma sociedade beneficente. Para manter a disciplina foi decretado que poderia haver apenas uma comunidade em cada local e que cada nova congregação deveria receber a aprovação do Recife.

Com a saída dos holandeses, em 1654, a vida judaica se desestruturou, as relações comerciais definharam e muitos judeus abandonaram o país, emigrando para outras colônias da Holanda, como Suriname e Curaçau. E recomeçaram as perseguições aos judeus e aos cristãos-novos.

Antes mesmo da expulsão dos holandeses, muitos judeus haviam abandonado a região, transferindo-se para o Rio de Janeiro e São Paulo. A atuação da Inquisição mostrou-se negativa para o próprio governo. O confisco dos engenhos açucareiros provocou o estancamento da economia.

Com tantas perseguições, os judeus e os cristãos-novos se perderam como grupo distante, porém sua tradição ficou marcada em vários segmentos e valores do povo brasileiro, como as lutas pelo liberalismo.

Um de seus maiores expoentes foi Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, que lutou para conseguir libertar o Brasil do jugo português. Hipólito José da Costa Pereira Fagundes de Mendonça, brasileiro de origem cristã-nova, foi funcionário português, porém teve que abandonar o Brasil devido a suas idéias liberais (1774-1823).

As lutas pela independência se estendem por todo o Brasil. A primeira loja maçônica (supõe-se que os fundadores também tinham origem cristã-nova) fundou-se em 1807, na Bahia. Suas atividades, suas idéias tiveram influência em todas as lutas revolucionárias dentro do Brasil, inclusive na revolução de 1820. Logo após a proclamação da Independência, D. Pedro I redigiu a nova Constituição que dava total liberdade de culto. Constituiu-se, então, a primeira congregação religiosa judaica no Brasil, em Belém, em 1822.

As primeiras comunidades judaicas do Brasil moderno estabeleceram-se no norte do país, durante o governo de Pedro II. Até 1812, a imigração era proibida e, alguns anos mais tarde, o arrendamento de terras a não-católicos também. Posteriormente, com o implemento da colonização em grande escala, o governo brasileiro favoreceu a vinda de italianos, alemães e espanhóis. Com eles, vieram também vários judeus, originários, principalmente da Alemanha, Hungria e países do oeste europeu.

As primeiras manifestações de uma vida social judaica criaram-se a partir da vida dos judeus sefaraditas, de Marrocos, que se estabeleceram em Belém, Bahia, Manaus e outros lugares ao norte. Após longa luta para integrarem-se economicamente, esses grupos prosperaram e criaram comunidades bem organizadas, de prestígio e com vários membros atuando dentro da vida política brasileira.

As duas comunidades – a da região amazônica e a do Rio de Janeiro – não mantinham entre si quaisquer relações de grupo e apresentavam, aliás, características diferentes.

A coletividade amazônica era mais estável. Os judeus marroquinos vinham pelo extremo norte do Brasil com a intenção de ali se radicarem, tendo, em conseqüência, alargado com o tempo o seu campo de atividades, especialmente no setor de navegação e exploração de seringais, afora a sua participação nas atividades públicas e no exercício de cargos oficiais.

Já no sul, os judeus, originários do oeste europeu, vinham com o objetivo de tentar uma vida normal. Muitos dedicando-se, no Rio de Janeiro e em Estados vizinhos, às ocupações comerciais.

Do Rio de Janeiro e de Belém, os judeus se espalharam por todo o país, principalmente em São Paulo e em Minas Gerais, onde muitas famílias brasileiras, como os Moretzon, Isacson, Prado, Schneider, Figueiredo, são de origem judaica.

Na última década do século XIX e durante a primeira do século XX, a imigração judaica cresceu de vulto, multiplicando-se os países de procedência e também as regiões em que os imigrantes passavam a fixar-se no Brasil. Enquanto, até então, os imigrantes judeus provinham quase exclusivamente do norte da África e do Ocidente europeu, já agora passaram a chegar também levas de judeus do Mediterrâneo oriental – Grécia, Turquia, Síria, Líbano e Palestina – bem como da Rússia e países vizinhos. Localizavam-se de preferência na zona sudeste do país – Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais – mas também se disseminando, em pequenos núcleos, por muitos outros Estados, tanto do sul como do nordeste.

O quadro das principais concentrações israelitas do Brasil, no ano de 1910 – às vésperas do início da vida judaica organizada no país – pode ser apresentado nestes termos sucintos: no extremo norte – o agrupamento da Amazônia, datando de 1822, isolado e conservador, de origem norte-africana ; no extremo sul – o conjunto de colônias judaicas do Rio Grande do Sul, com imigrantes de origem russa; e no sudeste – o eixo Rio de Janeiro-São Paulo, com numerosos núcleos satélites, resultantes de uma imigração cosmopolita.

A imigração judaica ao Brasil, nos anos de 1900 a 1920, é calculada ao redor de 200 pessoas. Após a Primeira Guerra Mundial, o número de imigrantes judeus aumentou muito, e calcula-se que, entre 1920 e 1930, entraram no país cerca de 30 mil judeus. A maior parte dessa corrente migratória provinha da Bessarábia, .Romênia e Polônia e era conseqüente à desorganização econômica vigente naqueles países.

Durante a Primeira Guerra Mundial surgiram as primeiras instituições judaicas ashquenazitas e sionistas. Em Porto Alegre, foi fundado o jornal em idish, Di Menshheit, provavelmente o primeiro no gênero, no país. Em 1916, no Rio de Janeiro, fundou-se a Sociedade de Assistência das Senhoras Israelitas, cujo objetivo é a beneficência. Mais tarde, outras similares foram fundadas em todo o país.

No ano de 1933, a vida judaica penetrou em nova fase, devido ao regime restritivo à imigração, instituído em 1931. Sobreveio no mesmo ano de 1933 o movimento nazista, cujo espectro acabou atingindo as plagas do Brasil.

Freada a liberdade de reunião, a vida social judaica ficou por vários anos reduzida a atividades religiosas e beneficentes, cabendo mencionar a este respeito o valioso concurso trazido pelos imigrantes judeu-alemães, que começaram a afluir ao Brasil depois de 1933, os quais, com muita eficiência, organizaram suas próprias instituições.

Terminada a Segunda Guerra Mundial, em 1945, os ideais democráticos voltaram a dominar o país, dando azo a que se reanimasse a vida coletiva dos judeus do Brasil. As sinagogas foram surgindo conforme o aumento da imigração. Após o Holocausto, as ondas migratórias cresceram e o número de instituições judaicas multiplicou-se.

Na década de 80 havia cerca de 170.000 judeus no Brasil, sendo 70.000 em São Paulo, cerca de 60.000 no Rio de Janeiro e o restante distribuído em diversas cidades do território nacional.

Existem comunidades judaicas desde o extremo norte até o extremo sul. As da Amazônia e Pará, embora em pequeno número, guardam tradição secular. Recife, Salvador, Curitiba, Belo Horizonte contam com centros comunitários bem desenvolvidos. Existem comunidades menores em Niterói, Nilópolis, Petrópolis, Campos, Juiz de Fora, Santos, Campinas, Sorocaba, Franca, Ponta Grossa, Passo Fundo, Pelotas, Santa Maria, Cruz Alta, Santana do Livramento e Uruguaiana. Nas cidades de Fortaleza e Maceió vivem apenas algumas famílias.

O incremento demográfico dos judeus no país não é devido somente à imigração. Nos últimos decênios restringe-se mais ao crescimento interno, concorrendo para tanto a convivência comunitária.

A coletividade judaica do Brasil é hoje, numericamente, a segunda na América Latina, cuja maior comunidade, 350.000, vive na Argentina.

As primeiras sinagogas no Brasil funcionaram, inicialmente, para os serviços religiosos diários, em salas alugadas, até que se tornava possível a construção de uma sede própria. Nas comunidades maiores, por ocasião da celebração das datas mais importantes, tais como Rosh Ha-Shaná e Yom Kipur, alugavam-se especialmente salões espaçosos para acolher todos os fiéis. Convém salientar que, embora ligados a sua fé e a suas tradições, nem todos os judeus professam a religião. Muitos dos primeiros imigrantes aqui chegados, mesmo os que provinham de regiões onde em regra se recebia uma educação religiosa intensiva, só compareciam à sinagoga em ocasiões extremamente solenes, como seja para recitar as orações em memória dos mortos – o Izkor ou o Kadish.

Marcando o início da vida associativa, fundou-se no Rio de Janeiro, em 1910, a primeira sinagoga congregando elementos ashkenazim, denominada Centro Israelita do Rio de Janeiro. Posteriormente, na Praça 11 de Junho, onde estavam concentrados os judeus da referida origem, surgiram, sucessivamente, as sinagogas Beth Jacob, Beth Israel, Mahzikei Hadas, Adas Israel e Ezras Israel. A comunidade sefaradita já possuía sua sinagoga desde 1846. Nas comunidades do interior do Brasil, desde o Norte até o Sul, o início da vida associativa se processava do mesmo modo. Ainda hoje, apesar de no Rio de Janeiro e em São Paulo já se terem construído grandes sinagogas em vários bairros, funcionam "minyanim" em locais alugados, e nas grandes datas, que congregam maior número de fiéis, celebram se orações em sinagogas provisoriamente montadas. Também no interior ocorre o mesmo fato.

O culto nas sinagogas do Brasil segue, na sua maioria, o rito ortodoxo. Verificam-se, todavia, certas nuanças diferenciais entre os sefaradim e ashkenazim. Com a chegada dos judeus alemães foram instaladas, primeiro no Rio de Janeiro, depois em São Paulo, e ultimamente em Porto Alegre, as sinagogas de corrente-liberal.

A aproximação mútua entre a coletividade judaica e a população geral se manifesta através de mostras de solidariedade e reconhecimento, tanto por parte do povo como das autoridades do país. Convém citar como exemplo os seguintes fatos:

No Rio de Janeiro existem escolas públicas com os nomes de Anne Frank, Estado de Israel, David José Perez, este homenageado pelos relevantes serviços prestados como educador, e Wolff K. Klabin, como reconhecimento pelo muito que realizou como homem de empresa, no campo da beneficência e filantropia; ruas com nome de Theodor Herzl e Stefan Zweig, praças com nome de David Ben Gurion e Haím Weizmann, e um busto em jardim público, na Glória, em homenagem a Lasar Segall.

Em São Paulo existe a Avenida Albert Einstein, ruas com nome do Estado de Israel, Alexandre Levy , Embaixador Horácio Lefer, Heróis de Varsóvia, Theodor Herzl e Combatentes do Gueto. Em Santos há uma rua com o nome de Estado de Israel.

Em Porto Alegre, encontram-se a Praça Theodor Herzl, a Rua Estado de Israel e o Colégio Anne Frank, e o Monumento aos Farrapos que foi doado à cidade pela coletividade judaica.

Em várias outras cidades do país, logradouros públicos levam o nome do Estado de Israel e de figuras judaicas eminentes.

Guia para o Diálogo Católico Judaico - Historia das Relações da Igreja com o Judaísmo

A. Da convivência à polêmica
Desde o alvorecer de nossa era até quase o final do século II, o cristianismo só se manifestava nas estruturas de pensamento e de expressão da tradição judaica. No período pré-helenístico não conhecia outra fonte de inspiração. Antes que as peculiaridades de crença e de rito o destacassem do bojo da religião ancestral, aparentava uma seita judaica análoga a muitas outras. O primeiro passo histórico na direção da autonomia foi a pregação de Estêvão, chefe do grupo helenista. Com a dispersão do grupo pela Palestina e regiões vizinhas, desencadeia-se o processo missionário da Igreja, que vai atingir a bacia inteira do Mediterrâneo.

Mas daquele consórcio inicial resultou uma experiência única e original, a experiência amalgamadora do judeu-cristianismo, com seus diferentes níveis de estruturação e influência, que deram lugar à formação de várias modalidades concretas do fenômeno.

Podemos assinalar os traços principais do meio cultural onde se desenvolveu o judeu-cristianismo, ramificação da Igreja primitiva, que se caracterizava pela vinculação à lei ritual.

Três deles merecem aqui menção especial pelo seu significado característico: os métodos de exegese veterotestamentária, as representações apocalípticas e a organização do culto.

1. Os métodos de exegese veterotestamentária utilizados pelo judeu-cristianismo, foram extraídos do judaísmo corrente na época, notadamente o palestinense. Prova disso são os targumim judeu-cristãos, os midrashim cristãos e os comentários do Gênese.
O primeiro tipo de exegese revela um período bem arcaico do cristianismo. Mais do que a simples traduções, recorre-se a verdadeiras modificações do texto, fusões, acréscimos e supressões, evidenciando a presença de um método totalmente desconhecido nos meios helenísticos.
Aparece o segundo tipo de exegese nas obras cristãs mais antigas. Eram paráfrases do Antigo Testamento de cor nitidamente judaica.
Ocupam os comentários do Gênese parte considerável das obras exegéticas do judeu-cristianismo, o que comprova igualmente a importância atribuída na época a especulação judaica.

2. Em boa parte, a apocalíptica judeu-cristã valeu-se, nas suas representações, de elementos em voga no judaísmo. Nesta tarefa, serviram-lhe de meio de expressão os dados cosmológicos. Certos traços, como, por exemplo, os relativos aos anjos e aos demônios, passaram até para a tradição cristã.

3. De todos os pontos, o da organização do culto foi praticamente o que mais sulcou a vida da Igreja cristã.
As raízes da primeira liturgia cristã residiam nos costumes cultuais israelitas de estilo essênio, denotando porém o fundo primitivo da liturgia.

O livro dos Atos dos Apóstolos e os evangelhos deixam transparecer o fato de que a comunidade dos discípulos de Jesus aparecia como um partido religioso dentro da comunidade judaica. Era a seita ou o partido dos nazarenos (At 24,5; 24,14; 28,22), a saber, uma espécie de sinagoga à parte, como as havia então, ou um especial agrupamento doutrinal.

Reunia-se no templo (At 2,46). Guardava, ao menos na forma exterior, o uso dos sacrifícios judaicos (Mt 5,23). Pagava o tributo do templo (Mt l7,24-27). Submetia-se à jurisprudência sinagogal (Mc 13,9; Mt 10,17). Sustinha fundamentalmente a lei de Moisés (Mt 5,17-19). Numa palavra, foram os primeiros cristãos plena e inteiramente membros do povo de Israel.

Só entrou decisivamente o cristianismo em processo de desprendimento do meio hebreu, quando começou a se espraiar no mundo helenístico, para além das fronteiras palestinenses. Pouco a pouco, a partir de então, o judeu-cristianismo cedeu lugar ao cristianismo da gentilidade. Como era de se esperar, não tardou que daí irrompesse séria tensão no seio das comunidades existentes.

Existia no judaísmo uma ancestral tradição de fé na eminente intervenção de Deus. Esperava-se a qualquer momento a irrupção do poder divino e a instauração do seu reino sobre a terra. É quando se findaria definitivamente o tempo das dominações estrangeiras.

Motivos políticos e religiosos mesclavam-se inextricavelmente nesta acendrada esperança. No tempo dos Pompeus, já haviam as Odes de Salomão atiçado a chama, prenunciando a vinda de um rei messiânico. Os dirigentes do povo faziam questão de alentá-la de todas as maneiras na alma popular. Se nos pormenores as opiniões variam, por falta de um corpo doutrinário sobre o Messias, num ponto essencial todos se encontravam, qual seja, o de que os opressores estrangeiros seriam totalmente expulsos e o Deus único reinaria sobre Israel.

Com o desenvolvimento e a difusão do cristianismo, refluía fatalmente para o centro das preocupações o problema das suas relações com o judaísmo.

Desde os inícios da evangelização grega, admitiam os judeu-cristãos nas suas comunidades convertidos pagãos, sem os obrigarem ao rito da circuncisão. Este fato era interpretado pelo judaísmo como sendo uma verdadeira traição às tradições religiosas. Tal protesto judeu encontrou eco em alguns cristãos, vindos das seitas farisaicas, que propugnavam intransigentemente a tese da circuncisão para os gentios. Acendeu-se então o debate, a que o Concílio de Jerusalém, realizado por volta do ano 49, pôs um ponto final.

Pedro, em nome do Colégio Apostólico, e Tiago, representando o Conselho dos Anciãos, deliberaram em favor da não-obrigatoriedade do mencionado rito, adstringindo os convertidos do paganismo tão-somente aos preceitos noáquicos: abstenção de carnes sufocadas, de carnes imoladas aos ídolos e de fornicação. Paulo via vitoriosa a sua tese. A decisão apostólica representou um passo de capital importância rumo à cisão judeu-cristã.

Por outro lado, observamos que o nacionalismo judeu atingiu o paroxismo. Dois elementos particularmente entravam como ingrediente no zelotismo da época: o apego fanático às observâncias legais e a exasperação da expectativa escatológica. Ao mesmo tempo em que o farisaísmo batalhava pacificamente pela reforma moral ajustada aos termos da Torá, aplicava-se, por vez, o zelotismo em incitar o povo à revolução política armada. Entretanto, de ambos os lados arvorava-se a bandeira da libertação do domínio romano, qualificado como o inimigo de Deus, com o fito de implantar uma teocracia político-religiosa.

Ora, para a comunidade judia trabalhada pelo messianismo nacionalista, a recusa da circuncisão não podia deixar de ganhar interpretação acentuadamente negativa. Tachavam-na de traição política. Este fato causava gravames para a vida dos cristãos de origem semita. A pecha de traidores que se lhes imputava expunha-os a uma situação social totalmente insegura e vexatória. Atestam o livro dos Atos e as epístolas paulinas, de maneira às vezes patética, a oposição declarada e crescente de grupos judeu-cristãos aos discípulos de Jesus. Esta oposição, por volta do ano 58, lançou Paulo na prisão, em Jerusalém, e compeliu-o ao martírio em 67. Unânimes admitem hoje também os historiadores que a perseguição movida contra Pedro se vinculava ao mesmo clima de exaltação nacionalista.

O ponto culminante da crise se deu por ocasião da catástrofe da guerra judaica de 66 a 70. Por não se empenharem na sublevação e na luta, foram os judeu-cristãos alvo da mais acesa animosidade. Premidos de todos os lados, viram-se forçados a se retirarem de Jerusalém para a Jordânia oriental, espalhando-se pela zona fronteiriça síria. À frente deles encontrava-se Simeão, primo de Jesus, que sucedera a Tiago na sede de Jerusalém. Consuma-se a ruptura. Dessolidariza-se a Igreja do destino nacional de Israel. Deixa a Cidade Santa de ser o centro da cristandade nascente, que rompe sociologicamente com o meio judaico.

Em 70, Tito invade Jerusalém, massacra a população e arrasa o templo. Perde o judaísmo, a par de sua autonomia administrativa, o seu centro de culto, o templo, coração da vida religiosa de Israel e símbolo da unicidade de Deus. Após a invasão, converte-se o tributo do templo em contribuição para Júpiter Capitolino em Roma.

Com o término da guerra, esteve a reorganização do judaísmo a cargo dos doutores fariseus. Ao tempo em que esta tradição se desdobrava para guardar ciosamente o legado do passado, ia também passando por um certo endurecimento que se constatava na atitude entre cristãos e judeus. Reorganizado, mostrou-se o judaísmo mais intolerante. No ano 85, ordenou o rabi Gamaliel II que se introduzisse na oração oficial (Amidá) uma maldição reservada aos nazarenos e outros hereges, tornando com isso incômoda e descontínua a freqüência dos cristãos à sinagoga.

Alude o evangelho de João em dois lugares (Jo 9,22; 12,40) à excomunhão infligida aos discípulos de Cristo. Notamos que, a partir de então, a controvérsia entre judeus e cristãos revestiu o talhe de uma confrontação direta entre o evangelho e a tradição farisaica.

Tentaram ainda os cristãos retornar a Jerusalém. Mas esta Igreja dizimada já não exibia condições de se impor como Igreja-mãe para todos os cristãos da gentilidade. A direção transitou de Jerusalém para Roma. Daí para a frente, Igreja e Sinagoga trilham caminhos divergentes.


B. Da polêmica ao proselitismo
Até o século V o judaísmo manteve alto nível de atividade missionária, dando provas de excepcional vitalidade interior. O debate judeu-cristão, que se instalou durante todo esse período, não era nada acadêmico, e sim acirrada polêmica, fruto de intensa concorrência proselitista entre as duas comunidades. Este fenômeno desencadeou, de ambos os lados, inflamadas manifestações de hostilidade.

O judaísmo farisaico, em sua marcha através do mundo greco-romano, tornou-se uma religião missionária de primeira plana. Já nos tempos de Cristo despendia grandes esforços nesta tarefa, mostrando-se capaz de "percorrer mares e terras para fazer um prosélito" (Mt 23,l5). Agora que, apesar da divergência de alguns rabis quanto à oportunidade de novas conversões, se acentuava o dever missionário de Israel, ele passa a absorver praticamente todas as atividades da propaganda judaica.

Prosélito é o gentio que foi conquistado para o judaísmo e se deixou circuncidar. A distinção entre "prosélitos propriamente ditos" (prosélitos da justiça) e "semiprosélitos" (prosélitos da porta) foi introduzida bem posteriormente pelos rabis. Testemunhos judaicos, cristãos e pagãos atestam, à uma, a realidade e a eficácia do proselitismo. Embora a legislação imperial não concedesse ao judeu o direito de fazer propaganda da sua religião, – proibindo inclusive a circuncisão – parece que a autoridade habitualmente ignorava o fato. A interdição geral da circuncisão não incluía os judeus de nascimento. Severas penalidades eram aplicadas apenas aos não-judeus.

O cristianismo exerceu forte concorrência sobre o proselitismo judaico.

O sucesso do apostolado cristão no meio pagão da Diáspora representava uma realidade. Os chefes judeus logo se sentiram vivamente preocupados com o fato. O rabi Eliezer ben Hircanos não trepidou em levantar uma enorme e genérica suspeição sobre a sinceridade das conversões. Na revolta de Bar Kochba, descobriram-se espiões convertidos instalados nas academias judaicas.

O caráter nacional da religião judaica recomendava-a à simpatia dos pagãos. Mesmo com o desarraigamento de sua terra, este aspecto não foi obliterado de todo. Mas em suas aspirações universalistas o judaísmo ficava aquém do cristianismo.

Perante o mundo pagão a Igreja se definia como a gentilidade redimida. Abolira a circuncisão. Abrandara os rigores da observância ritual. Pregava um Salvador morto e ressuscitado, próximo do tipo traçado pelas religiões mistéricas do paganismo. Em geral, lograva o pagão familiarizar-se mais facilmente com o sistema religioso cristão. Juliano, o Apóstata, em seu desprezo pelo judaísmo, chegava a achar absurda a pretensão dos judeus, este "pequeno povo bárbaro", de querer impor ao mundo seu Deus nacional como o único Deus verdadeiro. Artesãos de incontáveis infortúnios na vida do povo judeu, os pagãos foram logo alvos de ódio e de desprezo. O judaísmo começou por voltar contra eles a sua animosidade.

Logo, porém, sentindo-se frustrado em seu ímpeto missionário, fez convergir estes sentimentos para os cristãos, seus concorrentes, bem mais aparelhados para a conquista espiritual do mundo greco-romano. A rivalidade missionária veio adensar ainda mais o clima de relações já carregado de tensões entre as duas comunidades judaica e cristã.

O esforço proselitista atingiu profundamente as relações entre judeus e cristãos. Com a sua ativação de ambas as partes, acelerou-se o processo de segregação mútua, fazendo rápidos progressos.

Insere-se aqui o papel exercido por Paulo de Tarso.

Desdobrando amplamente o seu pensamento, Paulo disseca o tema da rejeição de Israel, aduzindo que da parte de Deus não há infidelidade à Palavra, nem injustiça ou mudança imprevisível de conduta sem motivação razoável, mas simplesmente mistério de eleição; e sendo provisória, ela faz parte do plano de Deus para permitir o ingresso dos gentios. Segundo os comentadores cristãos, não se pode ler estas páginas e continuar-se anti-semita.

Por não se haverem lido ou por se haverem delas esquecido, muitos cristãos restaram sendo escandalosamente anti-semitas. A primeira e autêntica posição teológica da Igreja ante o judaísmo foi a doutrina paulina de separação e benevolência. Paulo lançou as bases do projeto fundamental da teologia cristã do judaísmo. Mas, ao correr dos séculos, os aspectos negativos receberam maior ênfase, e a tradição de fraternal benevolência veio a eclipsar-se, cedendo lugar a uma sistematização teológica do antijudaísmo cristão.

O sulco escavado entre as duas comunidades aprofundou-se ao ritmo da polêmica teológica. Os cristãos de progênie hebraica haviam herdado uma cultura e uma mentalidade bem diversas dos cristãos de origem gentia, e tachavam-nos de excessivamente pagãos. Estes últimos consideravam os de estirpe judaica demasiadamente hebreus. As divergências iam cristalizar-se sobretudo na esfera teológica. As sucessivas formulações do pensamento cristão ajudaram a dar corpo à figura estereotipada do judeu, atravessada feito enigma e desafio no caminho da crescente cristianização da sociedade sacral.

No intento de assegurar-se vida independente do judaísmo, buscou o cristianismo o esteio intelectual de uma autodefinição estrutural. O antijudaísmo teológico da tradição cristã entrou como um dos ingredientes de capital importância para que se efetuasse, com as devidas transposições equacionadas, a sua autonomia de berço. Na realidade, porém, nada há nas instituições fundamentais, permanentes, constitutivas da Igreja que não seja judaico na sua fonte.

A certa altura do debate judeu-cristão, os escritores eclesiásticos se defrontaram com um terrível dilema: precisavam, por um lado, manter contato com o judaísmo bíblico para conter o extremismo dos gnósticos, e, por outro, opor-se à "tentação judaica" que consistia, em suma, na idéia de viver segundo a letra da Escritura. A saída encontrada, já a conhecemos: a interpretação do Antigo Testamento por inteiro como um relato simbólico da vinda de Cristo.

E no próprio Antigo Testamento foram-se buscar as provas da "infidelidade judaica". Os teólogos cristãos relacionaram o caráter carnal desta infidelidade com a própria Toráh, lida e vivida literalisticamente. Dois dados de fé logo repontam em meio à reflexão teológica, comandando o rumo dos pensamentos e das atitudes. São eles: a certeza da salvação de Israel no final dos tempos e a providencial sobrevivência religiosa do judaísmo. Os escritores eclesiásticos justapõem essas duas afirmativas, condensando-as numa fórmula bastante densa e significativa, a saber: a Igreja encontrará sua plenitude na salvação derradeira do povo judeu.


C. A oficialização do cristianismo
A transição do império pagão para império cristão só acarretou desastrosas conseqüências para a vida dos judeus. A repressão antijudaica deixou as esferas nebulosas da discussão teológica e encarnou-se em concretas e práticas disposições jurídicas. A princípio, o edito de Tolerância englobava também os judeus. Podia o judaísmo continuar a ser "religio licita" em todo o império. Mas com o evolver dos acontecimentos logo se viu a antiga nação, que ao longo de dois milênios se tinha defendido contra todas as monarquias do mundo pagão, agrilhoada subitamente pelo anel de ferro do império cristão.

Dois anos apenas haviam decorrido desde as célebres conferências de Licínio e Constantino em Milão, motivadoras da liberdade total de culto, e já começavam a repontar as primeiras restrições governamentais. Não tardaria que o judaísmo de "religio licita" passasse, nos considerandos da lei, a ser considerado "nefaria secta". As medidas opositivas vieram sob a forma de cânones eclesiásticos. Esta, aliás, é a característica especial que revestiram. A sua originalidade propriamente residia, não no conteúdo temático, mas no fato de haverem transbordado dos quadros legais da sociedade civil e penetrado na área específica da legislação canônica da Igreja. O espírito e muitas vezes até a letra da codificação imperial no tocante aos judeus refletiam o espírito e a letra dos preceitos do direito eclesiástico.

O primeiro Concílio ecumênico de Nicéia (325), convocado e presidido por Constantino, quebrou mais um elo que estreitava as duas comunidades, cristã e judaica, ao fixar a celebração da Páscoa em data independente da tradição judaica.

Com a morte desse imperador (337) achou-se o judaísmo mais cerceado em seus direitos e garantias.

As primeiras legislações de Constantino e Teodósio I, compiladas no "Codex Theodosianus", cuja composição final data de 438, demonstraram certa insegurança na sua parte atinente aos judeus. A delimitação do culto e das atividades deles propriamente nada representava de original. Três concílios da Igreja ocuparam-se sucessivamente do problema judeu: o de Elvira (306), o de Antioquia (341) e o de Laodicéia (343-381). Os cânones por eles promulgados podem até ser tachados de benignos. Em matéria de legislação antijudaica nada superou o "Codex Justinianus" que pervadiu todos os setores da vida pública e particular dos judeus, incursionando até pela área teológica com a supressão da Mishnáh e a obrigatoriedade do uso da Bíblia grega LXX nas sinagogas.


D. Preconceitos e movimentos antijudaicos
No Ocidente instaurou-se na Idade Média uma situação de cristandade caracterizada pela simbiose entre a Igreja e a sociedade temporal. Por conseqüência, aqueles que não pertencessem visivelmente à Igreja, como eram os judeus, viam-se afastados do convívio social e confinados nos guetos.

O longo período que se segue caracteriza-se antes de tudo pela formação da "Repubblica christiana" que tentou introduzir sistematicamente no direito e nas instituições os princípios evangélicos. Inaugura-o o século VII, que só conhecia na Europa dois verdadeiros Estados: o Império bizantino e o Reino franco. Entre eles mediava um único traço de união: Roma. A feudalização do poder que desembocou no "Santo Império Romano", senhorial e teocrático, envolve o império e a Igreja.

Inocêncio III (1198-1216) marcou o ápice do poder espiritual e temporal da Igreja. A realeza medieval, por sua vez, conhece o seu apogeu no Ocidente com Luís IX (1226-1270). Viveram os judeus dias amargos e infelizes em meio ao equilíbrio desses dois poderes universais. As renovadas suspeitas de cumplicidade com o Islã agravaram assustadoramente os sentimentos antijudaicos e culminaram na terrível borrasca que desabou na alta Idade Média sobre as comunidades judaicas. Abre-se, porém, o cenário da história com um excepcional intermezzo de tolerância e de paz construtiva: a era dos imperadores carolíngios e saxônicos.

O Império Fatimida não tivera condições de conter a invasão turca, vindo da Ásia Central. Em 1071 Jerusalém caiu nas mãos dos turcomanos, o que provocou imediata reação no Ocidente. Os cristãos resolveram organizar as Cruzadas para reconquista dos lugares santos, mas elas deram o ensejo a intensas perseguições contra judeus, porque estes eram considerados em pé de igualdade com os muçulmanos.

O próprio movimento das Cruzadas que se estendeu até 1270 viria, por sua vez, operar no mundo de então uma reviravolta socioeconômica que, ao invés de ajudar, só iria desfavorecer a sorte dos judeus. Em dois planos principalmente foram eles mais duramente atingidos: no jurídico, com a teoria germânica da servidão judaica (Kammerknechtshaft); e no econômico, pelo envolvimento total dos judeus no jogo da usura.

Na Idade Média forjaram-se numerosos mitos antijudaicos os quais resultaram em preconceitos, ações e movimentos populares. Enumeraram-se entre eles os seguintes: o sacrifício ritual de crianças cristãs; a acusação do deicídio, a profanação da hóstia consagrada; a contaminação de poços e mananciais, que deu origem à peste negra; a lenda do judeu errante; e o mito racial. Todas estas acusações carecem de fundamento e nunca foram historicamente comprovadas. O papa Inocêncio IV (1243-1254) rebateu todas estas falsas acusações. Distinga-se sempre, a bem da verdade completa, a atitude da Igreja oficial e a da sociedade cristã da época, com diferentes níveis de responsabilidade.

A Inquisição que visava julgar e punir os hereges atingiu também os judeus, e particularmente os cristãos-novos. Na realidade histórica ela representou uma página sombria no relacionamento da Igreja com os judeus, agravando a discriminação e o separatismo religioso.


E. Transição aos tempos modernos
Irrompendo na penúltima década do século XVIII, veio a Revolução Francesa subverter por completo a situação da sociedade, ferindo gravemente o princípio de autoridade e levando as três camadas sociais, nobreza, clero e povo, a se entrebaterem.

O Antigo Regime revelara-se precário e inconsistente. Extremara-se o absolutismo dos príncipes. Jansenistas e galicanos ajudavam a solapar a autoridade religiosa.

A ocasião imediata que se encarregou de acender o estopim foi a frágil situação econômica da França em 1789.

O povo constituiu-se em assembléia constituinte, e passou a interpretar o papel principal de protagonista dos acontecimentos.

Vieram logo em seguida diversas restrições impostas ao clero católico, considerado classe privilegiada. Proclamam-se as novas liberdades. Em agosto de 1789, toma-se a medida fundamental com a "Déclaration des droits de l’homme". Entre os direitos contemplados figura o da liberdade religiosa.

Para euforia principalmente dos não-cristãos, proclamava-se a emancipação política de todas as religiões, não porque se recomeçasse a valorizá-los realmente, mas por simples gratuidade.

A "Declaração" promulgada representou uma das três grandes atitudes significativas, ao lado dos decretos de tolerância do Imperador José II e da "Declaration of Rights" dos Estados Unidos, em favor da liberdade e da igualdade de direitos civis dos judeus. Interessa-nos reconhecer aqui que o seu fruto foi uma realidade, correspondente a uma aspiração perfeitamente justa.

Napoleão propôs, que cada terceiro judeu ou judia fosse obrigado a se casar com um cristão. Outras medidas locais e regionais despontaram visando acabar com o separatismo judeu pelo amalgamamento com as populações não-judias. Em boa parte da Alemanha, a emancipação dos judeus constituiu um subproduto das conquistas napoleônicas. Mas, de uma forma geral, fora tão forte a sua vinculação ao expansionismo da filosofia liberal que, onde a influência dessas idéias não alcançou chegar, paralelamente não obtiveram também os judeus a liberação dos seus direitos de igualdade.

O poder das idéias liberais intensificou-se tão-somente no Ocidente. Não contavam as classes médias não-judaicas da Rússia, Polônia e Romênia, com poderio quase nenhum. Haviam-se enredado profundamente no atraso feudal e nos preconceitos raciais. Não conseguiam, por isso, lutar em prol da igualdade de direitos dos judeus.

Por mais que quisessem, não viam jeito os arautos do liberalismo de preencher literalmente o abismo que se cavava entre judeus e não-judeus. O triunfo da reação, no continente europeu, sob a Santa Aliança, tirara dos judeus muitos de seus direitos recém-adquiridos. O documento do batismo tornou-se novamente o passaporte obrigatório da civilização européia até que adviesse a "Primavera dos Povos" de 1848 imprimir novo impulso ao movimento de emancipação dos judeus.

Nos fins do século dezenove, autônomas na origem, várias correntes se conjugaram para encorpar a violência anti-semítica. Ao nacionalismo, para o qual o judeu é um estrangeiro, aliou-se o socialismo que tem o judeu como símbolo dos Rothschild e da riqueza.

Finalmente, na confluência de vários fatores econômicos, políticos e ideológicos, desembocamos na mais terrível deflagração do anti-semitismo com o nacional-socialismo nazista.


F. Pronunciamentos da Igreja antes do Holocausto
Nos idos de 1928, pronunciou-se o Santo Ofício de Roma, com firmeza, contra o anti-semitismo, nos seguintes termos:
"Uma vez que reprova toda espécie de ódio e animosidade entre os povos, a Sé Apostólica condena soberanamente o ódio contra o povo outrora escolhido por Deus, ódio esse hoje comumente designado com o nome de anti-semitismo".

Um ano antes da deflagração da Segunda Guerra Mundial, quase em tom profético, em discurso dirigido a visitantes belgas, defendeu o papa Pio XI (1922-1939) a absoluta inadmissibilidade do movimento anti-semita, interditando a participação nele de qualquer católico.

Comentando a expressão "Sacrificium Patriarchae nostrae Abrahae", diz textualmente o Chefe da Igreja haver total incompatibilidade entre o anti-semitismo e a realidade sublime contida naquelas palavras. Em seguida, qualifica o movimento anti-semita de "antipático", merecendo por isso a reprovação de todos os cristãos. E completa ilustrando a própria idéia com a proposição do "reconhecimento, a quem quer que seja, do direito de se defender e de usar dos meios de proteção que lhe sejam necessários, para sua tutela pessoal contra as ameaças aos seus legítimos interesses". "O anti-semitismo é inadmissível", remata o papa, porque "espiritualmente somos semitas".

Foi este pronunciamento a solene confirmação da atitude assumida em 1937, pelo mesmo Pontífice na encíclica "Mit brennender Sorge", em que se contrapõe frontalmente às teorias racistas de Hitler.
Outras posições, na mesma linha foram, adotadas pela Igreja nos anos subseqüentes.

A 13 de abril de 1938, em carta ao cardeal Baudrillart, estabeleceu a Congregação de Estudos a obrigação para todas as Universidades Católicas de incluir nos seus programas curriculares a refutação das teses do racismo, condensadas em 8 proposições remetidas às dioceses do mundo.

Devem-se mencionar também entre muitas outras iniciativas, a Carta Pastoral do episcopado alemão, publicada em agosto do mesmo ano, e a longa declaração do cardeal Van Roy, arcebispo de Malines, que recebeu carta de apoio e aprovação do arcebispo de Paris, o cardeal Verdier.

Pio XII (1939-1958) repisou a condenação do racismo, em suas alocuções e mensagens. Na Radiomensagem Natalícia de 1942 reprovou explicitamente o direito racista.


G. Do Holocausto a Seelisberg
Calcula-se que durante a Segunda Guerra Mundial morreram cinqüenta milhões de pessoas. Entre as diferentes minorias perseguidas encontravam-se os judeus, que, trazidos em vagões de carga de toda a Europa, foram eliminados em campos de concentração, verdadeiras fábricas de aniquilamento. Seis milhões de judeus, representando um terço do povo judeu no mundo, foram assim assassinados pelos nazistas.

As estatísticas citadas não deixam transparecer a tragédia de vidas humanas, dos sofrimentos e das dores que caracterizaram os anos de 1939-45. Muitos diários foram mantidos e publicados depois da guerra, muitas atrocidades, difíceis de se acreditar que tenham acontecido, foram perpetradas com a participação de centenas e milhares de cúmplices. Muitos dos carrascos nunca foram julgados pelos seus crimes.

Além das tragédias que nunca foram relatadas, dos danos psíquicos que jamais serão curados, o povo judeu viu desaparecer os seus centros de cultura, suas academias de estudos, seus líderes religiosos e suas fontes de vida intelectual no Leste Europeu, deixando a Europa como um verdadeiro "vale dos ossos secos", como descreveu Ezequiel, o profeta.

Após a guerra, apesar das dificuldades impostas pelos ingleses, que não permitiam a entrada de mais judeus no "Lar Nacional Judeu" por eles administrado, numerosos judeus chegaram à terra de Israel. Em 1947, as Nações Unidas decidiram a partilha da Palestina numa histórica sessão do Conselho de Segurança, presidida na ocasião pelo brasileiro Ministro Osvaldo Aranha. Em 5 de maio de 1948 foi declarada a independência do Estado de Israel, que logo teve que enfrentar uma guerra com todos os seus vizinhos.
São esses os fatos mais importantes na história judaica do período de 1939-48. Mas o que nos cabe relatar não são apenas os fatos, mas também a repercussão por eles causada.

O primeiro choque se deu num país considerado dos países mais civilizados do mundo, a Alemanha, que pôs em prática em pleno século XX, com requintes de crueldade, um plano de extermínio de um povo de forma tão metódica e precisa. Os sonhos acalentados no século XIX de que, por meio da ciência e do progresso tecnológico, se pudesse chegar a um mundo mais perfeito sem empecilhos para a felicidade, ruíram por terra. A confiança depositada no futuro foi seriamente abalada diante da disciplina de um estado totalitário que fez calar as consciências de milhões de pessoas.

A Igreja se pergunta hoje como foi possível um acontecimento tão brutal e desumano. Muitos líderes religiosos, diante das dimensões que tomou o aniquilamento em massa, perguntaram: "Onde estava Deus?"
Não entraremos aqui na controvérsia do que poderia ter sido feito para salvar mais vidas, quando se soube do que estava acontecendo nos campos de concentração com suas câmaras de gás e de torturas. O fato é que o mundo silenciou.

Após as terríveis experiências nazistas, surgiu a necessidade de pôr termo ao ódio anti-semita. Cristãos esclarecidos dedicaram-se ao estudo do mistério de Israel e da sua paixão através dos tempos.

Uma série de posicionamentos bem variados aflorou entre os russos e os americanos, que já estavam em plena guerra fria em 1947; em um raro momento de concordância, ambos votaram para que os judeus tivessem o seu Estado. O cristianismo se posicionou por meio do Vaticano e do Conselho Mundial de Igrejas, condenando o anti-semitismo.

Para acompanhar o desenvolvimento da posição que se cristalizou dentro da Igreja nos anos após a guerra, dois homens tiveram papel marcante na condenação do anti-semitismo pela Igreja. Um é judeu – Jules Isaac, nascido na França; outro é católico – cardeal Agostinho Bea, nascido na Alemanha.

Jules Isaac (1877-1963), nascido em Rennes, desde cedo se interessou por história, escreveu livros didáticos para os colegiais, ocupou cargos no Ministério da Educação da França, chegando a ser inspetor-chefe do ensino de História do país. Sua área de pesquisa fora a das causas da Primeira Guerra Mundial. Interessou-se também pela origem das superstições e preconceitos populares.

Durante a Segunda Guerra Mundial testemunhou a invasão alemã e conseguiu sobreviver, mas perdeu toda a sua família assassinada pelos nazistas. Foi o fundador do grupo chamado "Amitié Judeo-chretienne", que se tornaria o modelo de muitas organizações desse tipo.

Jules Isaac tomou parte ativa no encontro de Seelisberg, fornecendo bases históricas que levariam à revisão da atitude da Igreja para com o judaísmo. Baseados nos estudos bíblicos deste século chegou-se a uma primeira formulação em 1947, em Paris, do programa de retificação do ensino cristão a respeito do anti-semitismo.

São os chamados 10 Pontos de Seelisberg, fruto de um colóquio judeu-cristão.

l. Deve ser relembrado que um só e mesmo Deus nos fala no Antigo e no Novo Testamento.

2. Não se pode esquecer que Jesus nasceu de mãe judia, pertencia à família de Davi e ao povo de Israel, e que seu amor eterno abrange o seu povo e o mundo inteiro.

3. Recorde-se ainda que os primeiros discípulos, os Apóstolos, e os primeiros mártires eram judeus.

4. Tenha-se presente que o principal mandamento do cristianismo, o amor de Deus e do próximo, anunciado no Antigo Testamento e confirmado por Jesus, obriga igualmente, cristãos e judeus, em todas as relações humanas.

5. Deve-se evitar diminuir o judaísmo bíblico e pós-bíblico para exaltar o cristianismo.

6. Não se deve empregar a palavra "judeu" para designar exclusivamente os inimigos de Jesus, e as palavras "inimigos de Jesus" para designar o povo judeu em seu conjunto.

7. Não se deve apresentar a Paixão de Jesus, como se todos os judeus, ou somente os judeus, tivessem incorrido na odiosidade da crucificação. Não foram todos os judeus que pediram a morte de Jesus, nem foram somente judeus que se responsabilizaram por ela. A Cruz, que salva a humanidade, revela que Cristo morreu pelos pecados de todos. Pais e mestres cristãos deveriam ser alertados a respeito de sua grande responsabilidade na maneira de narrar os padecimentos de Jesus. Se o fazem de uma forma superficial, correm o risco de fomentar aversões no coração das crianças ou dos ouvintes. Numa mente simples, movida de um ardente amor compassivo pelo Salvador crucificado, o horror natural dos perseguidores de Jesus pode facilmente tornar-se, por motivos psicológicos, ódio indiscriminado pelo judeu de todos os tempos, inclusive de nossos dias.

8. Não se devem evocar as condenações bíblicas e o grito da multidão enraivecida: "Que seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos" (Mt 27,25) sem relembrar que esse grito não anulou as palavras de nosso Senhor, de conseqüências incomparavelmente maiores: "Pai, perdoa-lhes; eles não sabem o que fazem" (Lc 23,24).

9. É preciso evitar qualquer tentativa de mostrar os judeus como um povo reprovado, amaldiçoado e votado a um sofrimento perpétuo.

10. Deve ser mencionado que os primeiros membros da Igreja eram judeus.

Os que se reuniram em Seelisberg não podiam ainda imaginar que, com o correr dos anos, o Vaticano tomaria uma posição oficial frente ao anti-semitismo. Baseada nos eventos da Segunda Guerra Mundial, nos estudos históricos, bíblicos e teológicos, a Igreja preparou-se para um pronunciamento oficial.

É entre os arquitetos de tal pronunciamento que se destaca a atuação de um jesuíta, nascido na Alemanha. O fato de ser ele alemão representa, além do seu mérito como estudioso, a oportunidade de evitarmos neste capítulo o erro para o qual nos alerta o ponto 7 de Seelisberg, o de não imputarmos a todos os alemães a culpa do genocídio perpetrado pelos nazistas.

Augustin Bea (1881-1968), alemão nascido em Baden, que um dia iria tornar-se o reitor do Pontifício Instituto Bíblico e depois cardeal de Roma. Foi editor do periódico Bíblica (1930-1950), além de pertencer a uma dezena de organismos internacionais. Biblista de renome, ele dominava 9 idiomas, entre os quais o hebraico e o português.

Após a guerra, baseando-se em seus estudos bíblicos e teológicos desafiou a imagem convencional do judeu e do judaísmo e lutou para que fosse corrigida a interpretação que coloca a culpa da crucificação sobre os judeus.

Este seria o homem que, em contato com os papas que seguiram o papa Pio XII no Vaticano, seria escolhido mais tarde como presidente do Secretariado para a Unidade dos Cristãos. Seu papel no diálogo inter-religioso foi um dos mais marcantes.


H. Do Vaticano II até os nossos dias
Na década de 60 intensificaram-se visivelmente entre os cristãos os estudos bíblicos especializados do Antigo e do Novo Testamento, que levaram a encarar com renovado respeito a venerável tradição judaica, onde o cristianismo deita suas raízes históricas. Numa vida cristã ensinada e vivida em suas perspectivas bíblicas, deve Israel logicamente ocupar um lugar de relevo. No passado, muitos cristãos se ativeram insistentemente a preconceitos ideológicos e políticos por se encontrarem bem distanciados das fontes da revelação escriturística. O contato mais assíduo, metódico e científico, com as Escrituras não pode deixar de surtir efeitos benéficos para o relacionamento cristão-judaico.

A Igreja Católica, na constituição dogmática "Dei Verbum" do Concílio Vaticano II, asseverou que "não é através da Sagrada Escritura apenas que a Igreja deriva sua certeza a respeito de tudo que foi revelado" (n. 9). "Mas como a Sagrada Escritura deve ser também lida e interpretada naquele mesmo Espírito em que foi escrita, para apreender com exatidão o sentido dos textos sagrados, deve-se atender, com não menor diligência, ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura, levadas em conta a tradição viva da Igreja toda e a analogia da fé".

A mútua colaboração no domínio dos estudos bíblicos e rabínicos produziu bons frutos nos pontos comuns e nos divergentes.

Primeiramente, vem oferecendo esclarecimentos oportunos e preciosos sobre inúmeras questões doutrinais e científicas do patrimônio espiritual comum.

Em segundo lugar, leva a determinar com maior clareza as respectivas opiniões com todos os seus matizes peculiares, as semelhanças e as diferenças, o conteúdo de verdade e o revestimento exterior da linguagem, todos os ângulos, enfim, de uma confrontação corajosa e honesta.

A experiência efetivada em vários lugares e ocasiões é de molde a comprovar a validade do método e a encorajar ambas as partes na sua continuidade, através de trabalho consciencioso e perseverante.

Num campo de vida interna da Igreja Católica depressa se evidenciou a mudança de mentalidade; o da liturgia. Reformulou a autoridade papal o teor de determinadas preces em uso nos atos de culto da Igreja Católica. Entre essas reformulações figura a que eliminou o odioso apelativo de "pérfidos" dado outrora aos judeus. Na solene ação litúrgica da Sexta-feira Santa, comportava o ritual em voga, após as leituras e a homilia, uma série de "orações comunitárias", chamadas também pela rubrica de 1955 de "orações dos fiéis". Uma delas diz respeito aos judeus.

A fórmula primeira fazia alusão à assim chamada perfídia judaica, numa manifesta prova de intolerância. O papa João XXIII (1958-1963) compreendeu a infelicidade da expressão e eliminou-a. No pontificado de Paulo VI, a prece recebeu a seguinte forma:
"O Deus, que fizestes vossas promessas a Abraão e seus descendentes, escutai as preces da vossa Igreja. Que o povo da antiga aliança mereça alcançar a plenitude da vossa redenção".

Coube ao papa João XXIII enfrentar decisivamente a questão do relacionamento com o judaísmo, movido por especial interesse, fruto de sua inquebrantável convicção pessoal. Quando em 1959, anunciou a celebração do Concílio, teve a imediata intuição de que o labor de purificação da Igreja deveria comportar uma séria e ousada revisão das relações com os judeus.

Em vários países, já se diligenciavam esforços, no ensino cristão, com o fito de restaurar a verdadeira imagem do povo judeu. As autoridades eclesiásticas haviam denunciado o anti-semitismo. Fundavam-se ou reorganizavam-se associações de amizade cristão-judaica. Mas o movimento marchava ainda de modo irregular.

A tarefa de redigir um pronunciamento da assembléia conciliar foi confiada ao "Secretariado pela União dos Cristãos", dirigido pelo cardeal Bea.

Este purpurado desenvolveu extraordinária atividade no período conciliar, presidindo os trabalhos de redação de cinco esquemas, apresentando quatro relatórios, sendo três deles sobre o problema judeu, e fazendo dezoito intervenções, durante as sessões, sempre com profundeza doutrinal, constante preocupação ecumênica e profundo realismo humano. Muito lhe deve a Igreja na preparação do documento sobre as relações com os não-cristãos.

Em 1961, apresentou um projeto de sete páginas contendo as idéias principais da atual declaração conciliar. Revisto inúmeras vezes, foi o texto concluído em 1962, e devia ser proposto em junho do mesmo ano à Comissão Central, mas inquietantes rumores de agitação arrebentaram nos países árabes. O texto foi retirado de discussão. Começa a sua acidentada história. Foi dos que mais sofreu reações e pressões exteriores. Vista de fora, escalona-se a trajetória desse documento por uma série de episódios, em que as paixões políticas, as coações e os temores, pesaram tanto que, em determinados momentos, ameaçaram até eclipsar o próprio objeto da declaração. Alguns governos do Oriente Médio receavam, sem fundamento, significasse o documento conciliar da Igreja o reconhecimento político do Estado de Israel.

A 19 de novembro de 1963, o cardeal Bea apresentou o texto no decurso da duodécima sessão conciliar. Na ocasião, sublinhou tratar-se essencialmente de questão no plano religioso e de se dirigir aos católicos de forma explícita com a finalidade de lhes ensinar a atitude que, à imitação de Cristo, devem adotar relativamente aos judeus. A discussão geral abrangeu todo o período conciliar que vai da 69ª à 72ª congregação. Sucederam-se os oradores e os debates. Chegou-se ao fim da segunda sessão com a questão ainda aberta. Durante a inter-sessão, redobrou o Secretariado as suas atividades. Reuniu o parecer dos Padres num volume de 72 páginas e se ocupou em dissipar os equívocos de natureza política que haviam surgido de todos os lados.

A 4 de junho de 1963, falece o papa João XXIII. Duas iniciativas de seu sucessor, o papa Paulo VI, contribuíram para situar o problema no plano decisivo: a fundação do "Secretariado para as Religiões Não-cristãs" e a sua Encíclica "Ecclesiam Suam" (6 de agosto de 1964) sobre o tema: "Por que caminhos deve a Igreja Católica hoje cumprir o seu mandato".

Feitas as emendas e correções, o novo texto proposto à assembléia conciliar enfatiza o caráter religioso da questão, bem como a missão de paz e fraternidade própria da Igreja. O debate suscitado, durante a terceira sessão do Concílio, obrigou a que se refundisse pela terceira vez o texto, imprimindo-lhe ainda mais uma orientação positiva.

Novamente, na fase de inter-sessão, se acenderam as campanhas de opinião pública e as pressões políticas, advindas principalmente do mundo árabe. Sob o prisma teológico, entram em cena os ortodoxos censurando a colocação do deicídio, por causa de toda a problemática infindável a ele ligada.

Reelaborado pelo Secretariado, foi finalmente entregue à discussão do período da quarta sessão. O número 4 que se ocupa das relações específicas da Igreja com o Judaísmo, prendeu a atenção de todos, sendo alvo de numerosas observações.
Chegamos assim à etapa final de votação e aprovação do texto, após um longo, penoso e, por vezes, dramático trabalho de elaboração. Em sessão pública de 28 de outubro de 1965 foi solenemente promulgado.

A partir de então apareceram 3 documentos oficiais que se inspiraram no novo clima criado por "Nostra Aetate" e marcaram as etapas de sua aplicação prática no meio cristão:
l. Orientações e sugestões para aplicação do documento promulgado pela Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo, em 1975.
2. A Unicidade de Deus e o testemunho cristão, publicado em 1975 pela Federação Luterana Mundial.
3. Considerações ecumênicas sobre o diálogo entre judeus e cristãos, publicado pelo Conselho Mundial das Igrejas em 1982.

Surgiram paralelamente dezenas de pronunciamentos e declarações, em várias partes do mundo, com o propósito de valorizar o diálogo.

A Comissão do Vaticano para as Relações Religiosas com o Judaísmo foi criada em 1974 pelo papa Paulo VI, visando a estabelecer relações com os representantes da comunidade judaica mundial e ao mesmo tempo sensibilizar os católicos a respeito deste novo campo pastoral.

Em 1982, o papa João Paulo II presidiu uma reunião desta Comissão, contando com 15 países, e concluindo com a fórmula "o diálogo é um autêntico serviço de Igreja".

Com data de 24 de junho de 1985, a Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo, do Vaticano, emitiu um documento intitulado Notas para uma correta apresentação dos judeus e do judaísmo na pregação e na catequese da Igreja Católica.

Preliminarmente, justifica a publicação aduzindo palavras do papa João Paulo II (6-3-1982), que retomam a linha da "Nostra Aetate", e as diretrizes para a sua aplicação, no tocante à tarefa do ensino e da educação do cristão nesse sentido. Na primeira parte, reúne em oito itens as razões e as formas do ensino religioso do judaísmo. Estabelece, na segunda parte, os princípios de correlação entre o Antigo e o Novo Testamento. Em seguida, numa terceira parte, mostra quais são as raízes judaicas do cristianismo. Analisa, depois, na quarta parte, a presença dos judeus no Novo Testamento. Aborda brevemente, numa quinta parte, questões relacionadas com a liturgia. Conclui, na sexta parte, com uma apresentação do quadro do judaísmo e do cristianismo na história. Ao rematar todas as considerações, o documento acentua que: "o ensino religioso, a catequese e a pregação devem levar não só à objetividade, à justiça e à tolerância, mas também à compreensão e ao diálogo".

O diálogo entre os grupos de fraternidade existentes no mundo é coordenado pelo Conselho Internacional de Cristãos e Judeus (ICCJ), que já organizou uma série de encontros desde 1965, em diversos países do mundo. Seu objetivo consiste em mudar as atitudes unilaterais ou recíprocas, que sejam prejudiciais às relações mútuas.

No Brasil, desde 1962, desenvolveu-se um trabalho de relacionamento fraterno entre judeus e cristãos, através do Conselho de Fraternidade Cristão-judaica, que continua a realizar diversas atividades culturais e religiosas, com o objetivo de um conhecimento mútuo e difusão dos laços comuns entre as religiões judaica e cristã.

Em 1981, foi criada, por iniciativa da CNBB, a Comissão Nacional do Diálogo com os Judeus, contando com a participação de cinco membros nomeados pela CNBB e cinco judeus convidados pela mesma entidade. Sua finalidade é articular em nível nacional o diálogo oficial da Igreja Católica no Brasil com a comunidade judaica no país.