sábado, 17 de junho de 1989

São Paulo dá exemplo de diálogo inter-religioso

HÉLIO DAMANTE

Raras vezes se tem oportunidade de assistir, ao vivo, encontro de personalidades religiosas de diferentes credos, voltadas para a causa do diálogo inter-religioso, ponto de partida para a verdadeira prática ecumênica.

São Paulo teve esse privilégio, no último domingo, ao ensejo da entrega do "Prêmio Patriarca Abrão", instituído pela CNBB, ao cardeal holandês Johannes Willebrands, do Vaticano, e ao dr. Gerhart M. Riegner, de Genebra (Congresso Judaico Mundial), pela dedicação de ambos ao fortalecimento das relações entre católicos e judeus.

Especialmente significativa foi a presença como convidada da sra. Jehan Sadat, viúva do presidente do Egito, Anwar Sadat. As três grandes religiões monoteístas encontravam-se na cidade cosmopolita, onde vivem em harmonia tantos de seus seguidores, para um momento de solene afirmação. As radicais mudanças nas relações entre judeus e católicos, sempre ressaltadas pelo atual papa (que visitou a sinagoga de Roma), os progressos registrados no relacionamento entre muçulmanos e católicos, em meio aos rigores da lei islâmica, podem também chegar a judeus e muçulmanos, contribuindo para a paz mundial. E essa foi a lição colhida no domingo, em São Paulo, numa festa endereçada em princípio ao diálogo católico-judaico, mas que ampliou o leque, incluindo a religião que mais cresce no mundo atual: o islamismo...

Festa celebra o entendimento entre religiões

Com a festa de entrega do primeiro Prêmio Patriarca Abraão de Ecumenismo, no dia 11, em São Paulo, católicos e judeus devem celebrar o êxito de uma das mais importantes experiências de diálogo inter-religioso já realizadas no País. Desde 1981, quando da criação da Comissão Nacional de Diálogo Católico-Judaico, representantes dos dois agrupamentos oficializaram entendimentos sobre várias questões de ordem religiosa, e editaram um livro com orientações inéditas para o diálogo entre as duas comunidades.

Com essas iniciativas, os brasileiros dão prosseguimento a um projeto internacional de aproximação religiosa. Os agraciados com o prêmio são justamente o cardeal Johannes Willebrands, presidente da Comissão da Santa Sé para Relações Religiosas com os Judeus, e Gerhart Riengner, co-presidente do Comitê Internacional Judaico de Consultas Inter-Religiosas, ambos importantes peças do xadrez diplomático em que se desenvolvem esses entendimentos. "Essas experiências têm posto fim a conceitos equivocados que já duravam séculos", festeja o rabino Henry Sobel, da Congregação Israelita Paulista.

Há pouco mais de vinte anos, por exemplo, os católicos eram instados a orar pelo que a Igreja chamava de "conversão dos pérfidos judeus". Na Semana Santa, ainda eram comuns as cerimônias e representações em que os judeus eram responsabilizados pelo assassinato de Jesus, identificados com a turba que o teria preterido em favor do meliante Barrabás. Somente na década dos 60, no Concílio Vaticano II, foi decidido que não se podia atribuir a morte de Jesus ao povo judeu.

"Não há dúvida de que o Cristianismo tem uma dívida histórica com o Judaísmo", adverte o franciscano holandês frei Felix Neesjes, assessor da CNBB. Neesjes cita como exemplo o caso de Portugal, cujos governantes forçavam os judeus a se converter ao cristianismo.

Segundo o rabino Sobel, o próximo passo da comissão de ecumenismo é iniciar entendimentos com a comunidade muçulmana no Brasil. A oradora da festa da próxima segunda-feira será a muçulmana Jehan Sadat, viúva de Anwar Sadat, presidente assassinado do Egito. Entre os vários pronunciamentos da noite, os convidados ouvirão Milton Nascimento cantar alguns de seus sucessos.

Duas igrejas em busca do entendimento

Quando o mundo inteiro, notadamente os países onde a religião luterana é mais influente, comemora hoje os 500 anos do nascimento de Martinho Lutero, começam a surgir sinais de que as igrejas Católica e Protestante teriam mesmo intenção de superar ao menos algumas de suas divergências. Um exemplo disso é a disposição de um papa, João Paulo 2º, em cruzar, pela primeira vez desde que Martinho Lutero fixou suas 95 teses na porta da igreja de Wittenberg, o umbral de um templo "herético" em sua diocese romana, a Igreja Evangélica de Roma. Isso acontecerá no próximo dia 11 de dezembro, quando o Papa fará um sermão que, acredita-se, tenha o teólogo reformista como tema. Segundo a agência internacional de notícias AP, fontes do Vaticano revelaram ainda que as comemorações do 5º centenário são uma oportunidade de o Papa estender a mão ao reformista alemão.

De acordo com informações do pastor da Igreja Luterana, padre Christopher Meyer, reveladas na semana passada, João Paulo 2º já deu um importante passo para a revisão da posição da Igreja Católica com relação ao luteranismo ao enviar uma carta ao cardeal Johannes Willebrands, presidente da Secretaria para a Unidade dos Cristãos (o mesmo que em 1970 se referiu a Lutero como o "doutor comum das igrejas"). Segundo o pastor, o Papa reconhece, na correspondência, não somente "a profunda religiosidade" de Lutero como também afirma que a "ruptura da unidade eclesiástica" teve "raízes mais profundas" do que a incompreensão mútua entre católicos e protestantes.

A carta do Papa não constitui uma reabilitação de Martinho Lutero e tampouco anula a excomunhão aplicada a ele pelo papa Leão 10 e as diferenças existentes entre as suas religiões. Mas pede que continuem sendo realizadas pesquisas históricas imparciais com o objetivo de se conseguir uma imagem mais justa de Lutero e de sua época.

Boa vontade

Não são de hoje as tentativas de reaproximação entre as duas Igrejas. A primeira experiência, mal-sucedida, ocorreu em 1541, 20 anos depois da excomunhão de Lutero. Desde então, muita discussão acalorada surgiu entre os teólogos das duas correntes. Os principais esforços parecem constar do documento assinado por católicos e luteranos, cuja elaboração terminou a 30 de setembro último, ainda de acordo com a AP, resultado de um diálogo patrocinado pela Conferência dos Bispos Americanos e o Ministério Luterano Mundial. Entre os pontos sobre os quais os teólogos de ambos os lados concordaram está o reconhecimento de que católicos e protestantes podem "reconhecer-se mutuamente compartilhando...o mesmo Evangelho de amor redentor na fé". Entre as divergências que ainda persistem está a autoridade do Papa e o número de sacramentos.

Os teólogos reconhecem que "os abusos que ocasionaram a Reforma foram parcialmente corrigidos pelo Concílio de Trento (1545/1563) e pelo Concílio Vaticano 2º (1962/1965)", convocado por João 23, e admitem que na esfera luterana também "há necessidade de reformas contínuas". Embora tenham chegado a um acordo sobre diversos pontos, após anos de discussão (a reaproximação foi iniciada em 65), ninguém nega que houve progressos.

Comemorações na Alemanha

Na Alemanha Oriental, as comemorações do aniversário do nascimento de Martinho Lutero adquiriram contornos políticos. Ao discursar na ópera de Berlim Oriental, o deputado Gerald Goettinag afirmou esperar que a cooperação entre o Estado e a Igreja, nas celebrações do 500º aniversário de Lutero, hoje, sirvam de base para um trabalho conjunto no futuro...


Fonte: O Estado de São Paulo, 17 de junho de 1989, p. 26. / Blog Acervo Profético

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